Dicas de Roteiro

27/02/2010

Usando Fichas Para Planejar a História (2)

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 14:49
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O artigo a seguir é, como eu avisei mais cedo, um complemento ao último post. Ele foi escrito por Joe Mefford para a revista Movie Maker, e tem o título de Escrevendo Um Roteiro Com Um ‘Baralho’ Completo. Ei-lo:

Só é necessário um pacote de fichas e uma caneta esferográfica para começar o seu roteiro.

Se você for um pouco parecido comigo, você ocasionalmente arruina com uma partida de golfe um fim-de-semana que, de outro modo, teria sido maravilhoso. Se você já quebrou alguns tacos em seu joelho (também como eu), você provavelmente não se surpreenderá de saber que os golfistas gastam mais de 3 bilhões de dólares por ano tentando melhorar os seus jogos. A ironia é que apesar dos avanços da era espacial aplicados na tecnologia do golfe, a pontuação média dos últimos 20 anos continuou a mesma.

Pode não parecer que golfistas e roteiristas tenham muita coisa em comum, mas a tecnologia mudou o modo como os dois grupos jogam os seus respectivos jogos. Os computadores substituíram as máquinas de escrever, e programas de computador para escrever roteiros como o Final Draft acabaram com os erros de formatação. Mas os filmes têm se tornado visivelmente melhores?

Apesar de eu ser um grande fã de programas para desenvolvimento de histórias como o Power Structure e o John Truby’s Blockbuster, tem horas que soluções simples de baixa tecnologia funcionam tão bem quanto esses programas. Isto é especialmente verdade quando se trata de estruturar o seu roteiro.

Neste exercício, você irá pegar uma pilha de 50 fichas de papel de tamanho normal (N.T.: De 3×5 polegadas, ou aproximadamente 12×8 centímetros) e planejar um roteiro inteiro. É barato (você consegue  comprar um pacote de 100 fichas por menos de 3 reais), é fácil (tudo o que você precisa é de uma caneta) e é portátil (prenda-as com um elástico e você poderá escrever em qualquer lugar).

Você irá criar 40 fichas de cenas e 10 fichas de resumo. Apesar de eu apresentá-las em ordem numérica, você não precisa seguir a sequência. Complete as fichas na ordem que fizer mais sentido para você. Use um dos lados da ficha para as suas próprias anotações e o outro para completar o exercício.

Ficha nº 1: Logline ou Sinopse

A sinopse é uma descrição curta de seu roteiro. Tem geralmente de 25 a 50 palavras em uma ou duas linhas. Uma sinopse descreve o(a) protagonista e identifica os objetivos dele(a) e os obstáculos para atingir estes objetivos. Uma sinopse também explica os riscos envolvidos e dá ao público um motivo para se importar. Ela também sugere o gênero do filme. É muita coisa em apenas uma ou duas linhas. Aqui vão alguns exemplos:

O Dr. Malcolm Crowe, um psicólogo infantil, tenta ajudar um de seus pacientes perturbados, um garoto chamado Cole que acredita poder ver pessoas mortas. — O Sexto Sentido

Maria, uma adolescente colombiana acossada pela pobreza e pela gravidez, viaja para os Estados Unidos como “mula” de drogas e anseia por uma vida melhor. — Maria Cheia de Graça

Ficha nº 2: O Herói

Nesta ficha identifique o protagonista ou herói de seu roteiro. Descreva as características físicas de seu herói, mas também nos dê uma razão pela qual deveríamos nos importar com esta pessoa. Qual é a força dele ou dela? Ele ou ela tem um defeito trágico? Personagens bem-sucedidos num roteiro requerem a empatia do público. E o seu? Nós nos importamos com o Cool Hand Luke (N.T.: Título original e personagem principal do filme Rebeldia Indomável, de 1967), um cara que foi a vida inteira um encrenqueiro, porque ele é engraçado e não tem medo de encarar os guardas sádicos da prisão. Nós nos importamos com Miles, o demitido triste de Sideways – Entre Umas e Outras, porque quase todos nós já nos sentimos como fracassados completos em algum ponto de nossas vidas.

Ficha nº 3: A Meta do Herói

O que motiva o seu herói? No caso do Super-Homem, ele precisa salvar o mundo da destruição. Apesar da maioria de nós apreciar este objetivo, nós não conseguimos nos relacionar muito com ele. Mas nós certamente podemos nos relacionar com a inabilidade do Super-Homem de contar a Lois Lane como ele se sente exatamente em relação a ela. Nós queremos tanto ver o Super-Homem ficar com a Lois no final quanto queremos vê-lo derrotar o Lex Luthor.

O objetivo de seu herói deve ser tão importante que nós entendamos completamente o motivo dele suportar humilhações (Uma Secretária de Futuro), correr risco de se ferir ou de ser morto (O Resgate do Soldado Ryan) ou mesmo colocar a segurança de seus próprios filhos em risco (O Sol É Para Todos). Nesta ficha, escreva a principal meta de seu herói e o motivo dela ser tão importante.

Ficha nº 4: O Antagonista

Um ótimo filme pode frequentemente ser descrito como uma catástrofe prestes a acontecer; o antagonista empurra o seu herói em direção a esta catástrofe. Lembre-se de que quanto mais durão é o antagonista, mais o público aplaudirá o herói por atingir o seu objetivo. Rocky não seria o mesmo se Apollo Creed pesasse 50 kilos. Os antagonistas são geralmente, mas nem sempre, personagens reais que querem — e podem — impedir o seu herói de alcançar o seu objetivo. O Cal do Titanic e a administração de Nixon de Todos os Homens do Presidente são dois exemplos bem diferentes de antagonistas cinemáticos. Os melhores antagonistas, é claro, têm um toque de condição humana neles (nós podemos perdoar um pouco o Lord Farquaad de Shrek por causa de sua baixa estatura).

Ficha nº 5: Evento Que Muda Uma Vida

Poucos filmes começam com o herói já perseguindo o seu objetivo. Geralmente o herói está vivendo a sua vida normal e então — bam! — algo acontece para mudá-la rápida e completamente. Um patinador de gelo quebra a perna; uma mulher comprometida conhece um homem diferente (ou uma mulher) que a toca além de seus sonhos mais selvagens; um contador submisso que testemunha um assassinato em seu caminho para casa. Estes tipos de eventos que mudam uma vida são o que põem o seu herói em ação para alcançar o seu objetivo. Muitas vezes denominado de primeiro ponto de virada, este evento geralmente acontece a cerca de 10 minutos ou 10 por cento a partir do começo do filme. Escreva este acontecimento e como ele muda a vida de seu herói.

Ficha nº 6: O Conflito

Descreva o conflito ou conflitos entre o seu protagonista e o antagonista. Quais são os riscos? Frequentemente o seu herói encontrará vários obstáculos no caminho para o seu objetivo. Cada obstáculo vai ficando maior que o anterior, até parecer impossível superá-lo. Em Gladiador, Maximus precisa continuamente lutar contra oponentes cada vez mais fortes e mais durões.

Ficha nº 7: A Jornada Exterior

O seu herói frequentemente empreende duas jornadas: A primeira é a “jornada exterior”, que consiste de obstáculos físicos que o seu herói precisa superar para alcançar o seu objetivo. Quase todos os filmes de estrada são construídos ao redor de uma série de obstáculos físicos. Em Antes Só Que Mal Acompanhado, Neal tenta de todas as maneiras possíveis chegar em casa para o Dia de Ação de Graças, enquanto precisa lidar com o bufão do Del. Descreva a jornada exterior que o seu personagem está percorrendo.

Ficha nº 8: A Jornada Interior

A segunda jornada, a interior, é geralmente a mais importante. Novamente, em Antes Só Que Mal Acompanhado, Neal quer chegar em casa, de volta para a sua família de classe média suburbana americana. Mas durante o filme, ele muda e se torna mais aberto e generoso com alguém que é muito diferente dele. No filme Erin Brockovich — Uma Mulher de Talento, ajudar a solucionar um crime corporativo leva Erin a uma jornada interior que levanta a sua autoestima e o seu orgulho. Descreva a jornada interior de seu herói.

Ficha nº 9: Subenredos

Um roteiro raramente possui apenas uma história envolvendo o seu herói e o antagonista. Crie subenredos para atrair o interesse de seu público e mostrar mais sobre o seu herói, tendo certeza de que eles refletem o tema geral de seu filme. Apesar de Guerra Nas Estrelas ser todo sobre Luke destruindo a Estrela da Morte, há muitos subenredos envolvendo Leia, Han Solo, os dróides e Obi-Wan, que mantêm a história interessante e movendo-se para a frente.

Ficha nº 10: A Apresentação do Herói

A primeira vez que encontramos o seu herói é a preparação do terreno para o filme todo. A cena de abertura de O Resgate do Soldado Ryan é uma das mais famosas: Nós vemos o Capitão John Miller sobreviver a uma batalha brutal, e somos atraídos por sua coragem e liderança. A cena de abertura deveria apresentar o seu herói através de ação, diálogo e outros personagens. Você não tem de revelar segredos logo de cara, mas fazer o público ficar interessado na história do seu herói.

Fichas de Cenas

As próximas 40 fichas são as suas fichas de cenas. Coletivamente, elas irão compor o seu roteiro inteiro. Eu sugiro que você use o lado pautado de suas fichas para escrever suas anotações, fazer diagramas e resumir a cena inteira. No outro lado — o lado branco — escreva um cabeçalho de cena (slugline) curto — ou uma descrição da cena em duas frases.

(N.T.: As fichas aqui no Brasil costumam ter os dois lados pautados ou os dois lados lisos. Nos EUA deve ser comum as fichas terem um dos lados pautado e o outro sem pautas).

Fichas do nº 11 ao 20: O Primeiro Ato

Nestas 10 fichas de cenas, você irá preparar o primeiro ato de seu roteiro. O primeiro ato confronta o seu herói com o problema dramático ou crise. Você certamente deve ser criativo no modo como escreve o primeiro ato, mas ele deveria completar cada uma das seguintes tarefas:

1) Apresentar o seu herói. Na maioria dos casos, o herói ou o protagonista é apresentado nas primeiríssimas cenas.

2) Apresentar o seu antagonista. Você pode apresentar o seu vilão em sua própria cena separada, antes dele começar a confrontar o seu herói. Talvez o seu vilão seja um valentão de pátio de escola e a sua cena de abertura mostre-o pegando o dinheiro do almoço de algum outro garoto. Talvez ela seja uma chefe odiosa e você a mostre repreendendo severamente a sua assistente pela enésima vez antes da hora do almoço.

3) Apresentar todos os personagens menores e secundários.

4) Mostrar o evento que mudará uma vida. Em uma das primeiras cenas de O Destino Mudou Sua Vida, uma tímida Loretta Lynn é encorajada a cantar num clube do interior. A reação positiva a encoraja a cantar mais e muda a sua vida.

5) Apresentar a crise ao seu público. Mostre a ele quais são os riscos — mesmo se for uma comédia. Em Penetras Bons de Bico, os dedicados fanfarrões, John e Jeremy, vêem a sua amizade e o seu estilo de vida testados quando um deles realmente se apaixona por uma garota.

Fichas do nº 21 ao 40: O Segundo Ato

Estas 20 fichas são as corredeiras de um rio. Elas são as pedras soltas na sua escalada da montanha. O segundo ato é cheio de complicações que ficam cada vez mais difíceis. Existem alguns componentes-chave para o seu segundo ato:

1- Aumente os obstáculos. Primeiro, exploda o carro. Segundo, exploda o prédio. Terceiro, ponha a cidade inteira em perigo.

2- Inclua uma cena que verdadeiramente teste o seu herói. Esta cena é frequentemente o meio de seu filme, e é chamada de “o ponto sem volta”. Rose precisa escolher entre Jack e Cal em Titanic; na metade do filme ela convida Jack para desenhá-la, consequentemente entregando-se a ele.

3- Após o “ponto sem volta”, o conflito entre o protagonista e o antagonista aumenta rapidamente.

4- O segundo ato também é onde os subenredos podem se desenvolver para acrescentar interesse e dimensão à sua história.

Fichas do nº 41 ao 50: O Terceiro Ato

As últimas 10 fichas contêm o terceiro ato. Neste ato os conflitos começam a se resolver. Ainda pode haver batalhas, mas nós sabemos que o nosso herói irá alcançar o seu objetivo. Outras cenas do terceiro ato incluem:

1) Uma olhada no passado. O herói frequentemente olha para trás, para a sua vida antes de sua jornada, para se perguntar “e se”, mas inevitavelmente ele segue em frente.

2) Uma cena final pode mostrar que, apesar do herói não ter um final feliz em sua jornada exterior, a sua jornada interior foi completada. Em Shakespeare Apaixonado, Viola precisa deixar Will para trás. Mas, ao fazer isto, ela deixa os costumes sufocantes da Inglaterra para trás, para começar uma nova vida.

3) A cena final. Apesar de talvez ter sido feita vezes além da conta, a cena final geralmente se passa após a jornada ter sido completada. Nós vemos o nosso herói feliz e satisfeito com a sua nova vida.

Estas 50 fichas podem não representar um roteiro completo, mas elas são um bom ponto de partida para o seu roteiro ou tratamento — e pode ajudá-lo a visualizar melhor o produto final. Afinal de contas, ninguém quer encarar o “Fade In” sozinho.

Por hoje é só. Boa escrita para você e até amanhã!

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4 Comentários

  1. Adorei esse blog, conheci a pouco tempo e já li quase tudo do arquivo – uma mina!
    Esse post sobre as fichas tem continuação ou termina aqui?

    Comentário por Matheus — 03/03/2010 @ 16:08

    • Olá, Matheus, seja benvindo!

      Em primeiro lugar, muitíssimo obrigada pelo elogio, fiquei nas alturas! Fico muito feliz que tenha gostado do blog!

      Quanto ao post, sim, ele termina ali mesmo. Eu tenho muitos livros, revistas, textos e artigos sobre roteiro, antigos e novos, cobrindo todos os tópicos e assuntos imagináveis (e intermináveis) que esta profissão abarca. O volume de coisas que eu li é imenso, mas achar o que eu quero para postar aqui é quase uma missão impossível. Eu tenho várias caixas de papelão (daquelas grandes de supermercado) cheias de páginas impressas de sites americanos (infelizmente eu só falo esta língua além do português, até no espanhol sou uma negação – por enquanto, espero), e já li outras coisas interessantes sobre o uso dos cartões, mas está difícil encontrá-las agora. Quando eu procuro um assunto acabo achando outro que eu estava procurando há dois meses e sabe-se lá quando eu encontrarei o que procuro agora.

      Por este motivo, continue aparecendo por aqui, quem sabe eu descubro logo onde esses papéis foram parar?! De qualquer modo, continuarei colocando uma dica por dia, procurando sempre variar os assuntos para ninguém ficar enjoado. O meu objetivo (e desafio pessoal) é postar 400 dicas este ano (e, se possível, nos próximos também). Estou desencavando coisas de que eu nem me lembrava mais!!

      Um abração, muito obrigada pela visita e pelo comentário!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 03/03/2010 @ 22:54

  2. Olá Valeria!

    Sempre estou te acompanhado neste blog. Parabéns, antes de qualquer coisa.
    Tenho uma dúvida no primeiro longa que estou a escrever. Estou na fase da escaleta e meu primeiro ato já contém 30 cenas. Você acha que têm muitas cenas? Lembrando que o Gênero que escrevo é um drama com uma vertente romântica.

    Abraço!

    Comentário por Marcelo — 05/03/2010 @ 18:24

    • Olá, Marcelo, seja benvindo!

      Obrigada por me acompanhar sempre, fico muito feliz com isso!!

      Gostei muito da sua pergunta, muito pertinente. Tanto que não vou respondê-la aqui. Amanhã farei um post só sobre o número de cenas de um roteiro. Deste modo eu posso me alongar mais e outras pessoas poderão também tirar as suas dúvidas (acredito que esta seja uma dificuldade normal para qualquer roteirista).

      Espero que você goste. Qualquer coisa, é só mandar outra pergunta, caso eu não tenha tirado todas as suas dúvidas.

      Um abração,
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 05/03/2010 @ 20:23


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