Dicas de Roteiro

24/02/2010

Ato 2 – Conflito! Conflito! Conflito!

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 15:17
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O artigo de hoje chama-se Ato 2 – É Conflito!, escrito por William C. Martell, do site Script Secrets. Os filmes analisados hoje são o Duro de Matar (Die Hard, 1988), estrelado por Bruce Willis; O Confronto (The One, 2001), com Jet Li; e Constantine (Idem, 2005), com Keanu Reeves.

(Nota: O artigo foi reescrito, portanto a versão que eu imprimi a alguns anos atrás tem um texto meio diferente do atual. Eu juntei as duas versões numa só).

Todo mundo parece ter dificuldade com o Ato 2, mas eu aprendi que a solução para todos os problemas deste ato é simplesmente lembrar para que ele está lá…

A estrutura em 3 Atos tem estado por aí durante uns 2.350 anos (ela não foi inventada por Syd Field) — Aristóteles percebeu que toda história que funcionava seguia um padrão simples:

Ato 1 – Você faz o seu herói subir numa árvore.

Ato 2 – Você joga pedras nele.

Ato 3 – Você o faz descer da árvore.

(Foi assim que o cineasta Billy Wilder descreveu a estrutura em 3 Atos… e o último filme de Wilder foi feito quase uma década antes do livro de Field).

Então…

Ato 1 – Apresenta o conflito.

Ato 2 – É o conflito.

Ato 3 – Resolve o conflito.

O Ato 2 não pode começar até que o conflito envolva totalmente o seu protagonista. Geralmente, num roteiro de ação, o herói atrapalha os planos do vilão. O Ato 2 começa quando o vilão tenta remover o herói do seu caminho — esse é o conflito. O herói e o vilão se enrolam durante o Ato 2, o vilão tentando resolver o seu problema apesar do herói — mas o herói simplesmente continua a ficar em seu caminho.

»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»  COMEÇO DOS SPOILERS  ««««««««««««««««««««««««««««««««««


Em Duro de Matar, o Ato 2 começa quando McClane (Bruce Willis) mata o seu primeiro terrorista… e acaba ficando com os detonadores. Hans (Alan Rickman) PRECISA dos detonadores. Os seus planos serão arruinados se ele não conseguir aqueles detonadores de volta. Então McClane passou de um convidado desgarrado da festa para um PROBLEMA MAIOR para Hans. McClane está bem no caminho dos planos de Hans — não há nenhum modo de escapar — é como se fosse um trem de carga correndo direto em sua direção a 145 km/h. Agora Hans manda os caras saírem para encontrar McClane e pegarem os detonadores de volta.

O Ato 2 é um perigoso jogo de esconde-esconde, com duelos de metralhadoras quando McClane e os bandidos se cruzam no caminho. Conflito, conflito, conflito!

Em O Confronto, Jet Li se defende de… Jet Li, em uma luta até a morte. Apenas um pode sobreviver. O Ato Dois é sobre uma versão de Li tentando se proteger, e à sua esposa, de uma versão insana, em ação para se tornar um deus ao assassinar todas as versões alternativas de si mesmo. Ambos estão presos aqui em nosso mundo. Sem escapatória! Conflito! Conflito! Conflito!

Keanu Reeves é o cara mais sortudo de Hollywood… ou o mais esperto. Enquanto outras estrelas decidem não fazer filmes carregados de efeitos especiais em favor de um material mais realista ou mais dramático, Reeves acabou estrelando em filmes-pipoca de ação como Velocidade Máxima (Speed, 1994), Matrix (The Matrix, 1999) e Constantine. Este último é baseado nas graphic novels HellBlazer, sobre o caçador de demônios John Constantine — rejeitado tanto pelo céu quanto pelo inferno — fadado a vagar pelas ruas de (Londres ou) Los Angeles, mantendo o equilíbrio entre o bem e o mal. Quando a série de filmes Matrix estava caminhando para o fim, a Warner Bros. começou a procurar por uma nova franquia para Keanu. Oras, até eu fui chamado para tentar vender as minhas idéias. Constantine era a resposta — um filme noir sobrenatural arrojado que parecia ter todos os elementos… mas ainda assim parecia ficar desinteressante no meio.

O filme abre com uma cena bacana de exorcismo, onde Constantine (Keanu) captura o demônio em um espelho, e então quebra o espelho (e o demônio) em um milhão de pedaços. Nós então somos apresentados à história — uma mulher com poderes psíquicos salta do telhado de um hospital. A sua irmã gêmea — uma detetive do Departamento de Polícia de Los Angeles (Rachel Weisz — que também sempre acaba em filmes pipoca de sucesso), acha que a sua irmã foi assassinada. A Detetive Dodson e Constantine têm sempre os seus caminhos se cruzando — na cena do crime, no escritório do Cardeal (ela está tentando dar à sua irmã um enterro católico; ele tem um encontro com o anjo Gabriel), e em outra cena de crime, onde o companheiro exorcista e alcoólatra de Constantine é morto. Eventualmente ela decide ir até Constantine pedir a sua ajuda… e ele recusa. Em algum momento ele decide ajudá-la, e ela admite que era médium quando criança, mas reprimiu este dom quando viu quanta dor isto trouxe à sua irmã gêmea. Num certo momento ela decide que precisa ver os demônios que andam entre nós, e Constantine realiza a cerimônia. Enquanto isso, coisas estranhas estão acontecendo — demônios estão zanzando pela Rua Figueroua, o céu está enegrecido por demônios voando, e um cara é morto em uma pista de boliche. Apesar de a maior parte disso ser bem normal em Los Angeles, Constantine acha que tem algo de errado a nível cósmico. Alguns demônios estão quebrando as regras. Eventualmente ocorre uma grande batalha entre Constantine e o poder mais alto por trás de tudo isso… mas esta batalha só acontece no finalzinho do filme.

Até lá, temos um montão de ótimos efeitos especiais, niilismo (N.T.: “Total e absoluto espírito destrutivo, em relação ao mundo circundante e ao próprio eu”) e noir… mas pouco conflito real. Claro, o exorcista alcoólatra é assassinado, e tem o cara na pista de boliche… mas estes conflitos não envolvem o Constantine num nível físico. Coisas ruins acontecem com os seus amigos, coisas ruins acontecem com a Detetive… mas Constantine ainda é um espectador da história. Não há nenhuma luta de fato no Ato 2… e é por isso que o filme parece se arrastar. Tudo o que acontece é periférico a Constantine. Ainda estão apresentando o conflito entre Constantine e o antagonista… e as coisas que apresentam o conflito são material do ATO UM. O ATO DOIS é a luta — o conflito — entre o protagonista e o antagonista (ou a força antagonista). Mas o conflito não envolve Constantine até o final do filme — no ATO TRÊS. Então o meio do filme parece um pouco frio e não-envolvente. É ótimo de se olhar, mas na maior parte não é tão excitante quanto deveria ser.

O Ato Dois não pode começar até que o protagonista esteja PRESO no conflito com o antagonista. O Ato Dois é o ato do conflito — é todo luta. O protagonista e o antagonista aprisionados no conflito. O Ato Dois é o conflito… e Constantine não fica realmente preso no conflito antes do final. Tudo o que acontece até aí é Ato Um.

»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»  FIM DOS SPOILERS  ««««««««««««««««««««««««««««««««««

Eu sugiro que você pegue os seus 3 filmes favoritos. Assista-os e tome notas. Use o relógio do seu aparelho de DVD para conferir o momento em que as coisas acontecem.

Em algum lugar deste site (Script Secrets.net) eu tenho alguns filmes divididos em segmentos de 5 minutos — eu digo o que acontece em cada 5 minutos. Eu acho que eu tenho O Exterminador do Futuro 2 (Terminator 2: Judgment Day, 1991) e 48 Horas (48 Hours, 1982). Com o tempo eu colocarei mais alguns. Eu desmembro os filmes desse modo para ver como eles funcionam — para dar uma olhada no ritmo e na estrutura. Se você fizer isso com filmes semelhantes ao que você está escrevendo, poderá ver como outros escritores lidaram com os seus segundos atos e como esses Ato 2 funcionaram.

Lembre-se — o Ato 2 é CONFLITO. Se o protagonista não está totalmente envolvido no conflito, você ainda não está no Ato 2. Eu já li roteiros que só chegaram no Ato 2 na página 70! Você deve chegar no conflito por volta da página 30. Talvez na 25, ou na 35… mas não na página 70!

Por hoje é só. Desejo uma escrita cheia de conflitos para você (só nas suas histórias, claro! ;-)). Inté!!

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2 Comentários

  1. ainda acho que gostar ou desgostar de filmes com essa ou aquela velocidade é questão pessoal. A arrastada abertura sem texto do ERA UM VEZ NO OSTE é exemplar. Mas todas essas suas dicas são legais de ler e vale a pena experimentar algumas delas… sucesso.

    Comentário por COELHO DE MORAES — 04/02/2011 @ 19:23

    • Olá, Coelho de Moraes!

      Realmente, gosto é algo que não se discute. E ainda tem as vezes em que adoramos um filme em determinada fase de nossa vida e quando o revemos muitos anos depois ficamos nos perguntando como fomos gostar daquilo! O oposto também ocorre, mas talvez seja menos frequente, quando, mais tarde, acabamos vendo qualidades numa obra que tínhamos odiado logo de cara.

      As dicas aqui não são para serem todas seguidas, e sim escolhidas e selecionadas para os gostos e necessidades pessoais de cada escritor/roteirista. É comum as dicas de escritores famosos serem explicitamente contraditórias, aquilo que serve muito bem para um é totalmente contraproducente para outro. Essa aparente confusão acaba também sendo um exercício de discernimento, para aprendermos a abraçar apenas aquilo que nos ajudará, e refugarmos o que nos fará perder tempo e desvirtuar nosso trabalho. Quanto mais opções tivermos à nossa disposição, mais facilidade teremos para encontrarmos aquilo que nos ajudará a resolvermos nossos problemas, não acha?

      Muito sucesso pra você também, Coelho de Moraes, um grande abraço e obrigada pela mensagem! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 06/02/2011 @ 18:26


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