Dicas de Roteiro

12/02/2010

Escrevendo Sci-Fi – Uma Retratação

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:37

O Presidente Collor assumiu o comando do país no dia 15 de março de 1990 e no dia 16 ele fechou a Embrafilme com uma canetada, acabando de vez com as chances de sobrevivência do cinema nacional. Pelo menos foi isso que muita gente pensou até que a diretora Carla Camurati fez o seu longa Carlota Joaquina – A Princesa do Brasil em 1995 e saiu com a lata do filme debaixo do braço, basicamente distribuindo-o sozinha, de cidade em cidade. O filme foi visto por 1,3 milhão de brasileiros e marcou a Retomada do cinema brasileiro. Carla Camurati teve muitas dificuldades e obstáculos a superar, porém acreditou em seu trabalho quando ninguém mais acreditou, e por isso ela abriu caminho não apenas para o seu filme, mas para todos os outros que viriam a seguir.

O filme Carlota Joaquina – Princesa do Brasil, e sua diretora no set, Carla Camurati

Quando eu entrei na Faculdade de Cinema em 1993, fui chamada várias vezes de maluca por pessoas que achavam que eu tinha escolhido uma profissão sem futuro. Após a Retomada e as indicações ao Oscar recebidas pelos filmes O Quatrilho (1995), Central do Brasil (1998) e Cidade de Deus (2002) não só a carreira cinematográfica se tornou cool como passaram a pipocar faculdades e cursos de cinema para todo lado. Todo mundo passou a ver que filmes de qualidade e com reconhecimento internacional poderiam ser feitos no Brasil.

Sabe, eu sou muito apaixonada por filmes em Stop Motion e sempre achei uma tarefa impossível um filme desses ser feito aqui no Brasil. Em primeiro lugar por que o equipamento é caríssimo. Em segundo, porque é um trabalho artesanal que exige material específico, pessoal especializado e um tempo enorme para ser concluído (e, portanto, muito financiamento para arcar com as despesas). Mas nada disso impediu que o diretor Paolo Conti fizesse o primeiro longa-metragem latino-americano em Stop Motion: Minhocas. No mundo inteiro apenas pouco mais de 80  longas foram produzidos com esta técnica em toda a história do cinema mundial!! Quais seriam as chances de um brasileiro fazer um filme desses aqui no Brasil, e ainda por cima em Florianópolis?! (Não é nem em São Paulo, onde há um grande centro tecnológico por causa do mercado de publicidade!). Acredito que sejam as mesmas chances que um filme brasileiro tinha de ser indicado ao Oscar após o fim da Embrafilme, mas isso não impediu que acontecesse.

O diretor Paolo Conti (à esquerda na foto) e cenas de seu filme, Minhocas

No dia 01/02/2010 eu escrevi um post sobre Como Vender o Seu Roteiro Para Hollywood. No dia 09/02 eu publiquei um longo comentário tentando ajudar, da melhor maneira que eu podia, uma pessoa que está há doze anos tentando vender o seu trabalho. Eu terminei o comentário da seguinte forma:

Lembre-se também de sempre fazer roteiros que sejam produzíveis, não adianta fazer um roteiro sobre uma guerra entre alienígenas, cheio de efeitos especiais e explosões e que custará 100 milhões de dólares para ser filmado; um roteirista profissional americano já teria muita dificuldade de vender um roteiro desses, para nós, então, as chances são as de uma loteria.

Mas se você tiver uma boa história nesse estilo, escreva um livro de ficção. Porque somos roteiristas não precisamos ficar presos a escrever apenas roteiros. Um escritor tem um amplo leque de possibilidades: contos, romances, roteiros de curtas e de longas, de documentários, crônicas, poemas etc, etc. Tente trabalhar com esses outros ramos da escrita, talvez você goste mais de escrever livros (que podem vir a ser filmes no futuro) do que roteiros, porque você não precisará limitar a sua imaginação para caber no orçamento da produção. Há muitos exemplos de escritores que escreveram livros de sucesso e acabaram vendendo os direitos desses livros para estúdios e produtoras de cinema: Paulo Coelho (Verônica Decide Morrer, entre outros que ainda estão sendo produzidos), Ziraldo (O Menino Maluquinho), J. K. Rowling (Harry Potter), Dan Brown (O Código Da Vinci), entre muitos e muitos outros, brasileiros e estrangeiros. O importante é estar aberto para experimentar!


Quando eu escrevi isso, estava pensando em Avatar (que na realidade custou uns 237 milhões de dólares) e em todos os filmes de Spielberg e de George Lucas. Estes e outros grandes diretores de Ficção Científica não compram roteiros prontos. Ou eles mesmos escrevem ou contratam roteiristas famosos para escreverem os roteiros baseados em suas idéias. Também estava pensando em J. K. Rowling e em todas as dificuldades e rejeições que ela enfrentou quando era uma escritora principiante, pobre de marré deci e totalmente desconhecida. A maior editora de livros infantis da Grã-Bretanha rejeitou o seu primeiro livro sem pestanejar (como devem ter se arrependido!) mas ela acreditou em seu trabalho e persistiu. Hoje Harry Potter tem um franquia de filmes, brinquedos, material escolar e até um parque temático com o seu nome será inaugurado este ano em Orlando, na Flórida. E J. K. Rowling se tornou a mulher mais rica da Grã-Bretanha!

Do primeiro filme da série (que custou uns 150 milhões de dólares) ao último que ainda está sendo produzido em duas partes (o antepenúltimo custou uns 250 milhões) — esta franquia deve facilmente ultrapassar 1 bilhão de dólares de investimento. J. K. Rowling teria alguma chance de vender essa história para Hollywood em forma de roteiro, antes de escrever o livro? Acredito sinceramente que não. Hollywood não é comandada por artistas sensíveis, mas por executivos que representam os interesses de bancos e, portanto, querem lucros garantidos. Um investimento de mais de 100 milhões de dólares é pesado demais para eles se arriscarem, dando um salto no escuro. Qualquer filme já é um salto no escuro, nunca se sabe se terá lucro de fato ou não, mas eles tentam aumentar as suas chances de sucesso comprando o trabalho de gente que já fez sucesso antes, seja como romancista ou como roteirista (vide Eric Roth, roteirista de Forrest Gump, Ali, O Bom Pastor, O Informante, O Encantador de Cavalos, Munique e O Curioso Caso de Benjamin Button, e que foi contratado pela Warner Brothers para escrever uma história de ficção científica).

Foi pensando nisso que eu escrevi aquele comentário. Escrevi a partir de todas as informações que colhi das experiências de outras pessoas que já tentaram vender seus roteiros. Mas isso não quer dizer que eu, ou elas, estejamos com a verdade. Nada é impossível. Nada! E não há necessidade de um investimento de 100 milhões de dólares para se fazer um filme de qualidade do gênero. Se nós, brasileiros, tentarmos fazer filmes de ficção científica caprichados aqui, acho que é algo que tem uma grande probabilidade de sucesso. Porque, com o barateamento dos equipamentos,  já temos meios de fazer efeitos especiais razoavelmente baratos e convincentes, e mão-de-obra especializada para isso. Até os canais de TV já estão se aventurando em gêneros antes restritos apenas aos americanos (vide a novela “Mutantes”). Nós só precisamos de uma Carla Camurati, de um Paolo Conti da Ficção Científica para abrir caminho para os outros. Em outras palavras, um pioneiro!

Por este motivo, eu apresentarei nesta semana, intercalados com os posts sobre curta-metragem, posts sobre como escrever ficção científica. Espero que sejam um incentivo e uma boa fonte de informações para aqueles corajosos que estão audaciosamente indo onde nenhum brasileiro jamais esteve! (perdoem o trocadilho, é que estou muito animada! Adoro ficção científica!). Dedico esta série a todos que estão investindo o seu tempo e a sua energia nessa importante empreitada, em especial ao nosso destemido colega Marco, do blog Aventuras de um Roteirista Amador Profissional. Manda ver, Marco, estamos todos torcendo por você!!

OS HUMANOS ESTÃO ENTRE NÓS

Ainda hoje postarei o primeiro artigo traduzido. Boa escrita para todos e até logo!!

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2 Comentários

  1. Fico feliz que existam pessoas que acreditam que um dia teremos bons filmes de ficção genuinamente brasileiros. Concordo que não é necessário um quantia astronomica para se fazer um bom filme, como toda a tecnologia digital, ficou bem mais fácil.Eu aceitei esse desafio, escrevi um roteiro de longa metragem e mandei para todas as produtoras do país , mas sinto que existe ainda muito resistência por parte delas em fazer filmes assim, eles ainda preferem outros temas como miséria, violência e etc..etc… e nenhuma delas sequer analisou para ao menos dizer se o roteiro e bom ou ruim, simplesmente ignoraram, mas como amante da boa ficção continuo acreditando.

    Comentário por Marcio — 19/10/2010 @ 16:57

    • Olá, Marcio, seja bem-vindo! 😀

      Você tem toda a razão, mas não isso não acontece só aqui no Brasil, não. Eu estava lendo uma entrevista do britânico Duncan Jones (filho do músico David Bowie), que co-escreveu e dirigiu o filme Lunar (Moon – 2009) e gastou apenas 5 milhões de dólares para fazê-lo (o que é uma pechincha, até os nossos filmes nacionais estão gastando várias vezes esta quantia). Ele disse que ninguém na Grã-Bretanha queria investir dinheiro em filmes de ficção-científica. Ele ralou para conseguir este valor, e o aproveitou ao máximo, usando sua experiência de diretor de comerciais para fazer os cenários, maquetes e efeitos especiais mais baratos. Achei o resultado excelente para as dificuldades que ele teve.

      Fico feliz que você tenha aceito este desafio e continue acreditando, existem muitas pessoas aí fora que, como nós, amam a ficção científica, e ficarão felizes de assistir uma obra genuinamente nacional (e pioneira!) desse gênero. Mas precisamos persistir, que abrir caminhos quase nunca é uma tarefa fácil.

      Um abração e boa sorte com seu roteiro, Marcio, fico super feliz de saber que tem alguém acreditando e fazendo algo por este gênero, super feliz mesmo! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 20/10/2010 @ 07:37


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