Dicas de Roteiro

08/02/2010

Abrindo portas com curtas – Parte 1

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 19:37

A partir de hoje traduzirei uma série de artigos sobre como escrever roteiros de curta-metragens. O primeiro, chamado Um caminho mais curto para o sucesso em Hollywood,  foi tirado da revista virtual CSDaily de 11/maio/2004. A autora do artigo, Linda Cowgill, roteirista de cinema e TV, palestrante e professora, é chefe do departamento de roteiro da Los Angeles Film School, além de ter escrito três livros de roteiro: The Art of Plotting, Secret of Screenplay Structure e Writing Short Films, sendo que este último eu li e recomendo.

A roteirista, professora e escritora Linda J. Cowgill e seus livros de roteiro

Apresentação: Linda Cowgill conta porque os filmes de curta-metragens são tão — ou mais — influentes que os longas, e passa uma lista de 10 coisas que você precisa fazer para que o seu curta seja extraordinário e se destaque na multidão:

Eis alguns outros livros sobre filmes de curta-metragem

O caminho para o sucesso em Hollywood nunca foi fácil. Você precisa ter bons contatos, tempo, talento, inteligência e sorte. Um roteiro ótimo, ou muito bom, costumava abrir portas, e ainda consegue. Mas um excelente curta pode fazê-lo ser notado mais rápido, e ir parar em salas de reunião com as pessoas cujo trabalho é dar o sinal verde. O motivo? Leva menos tempo para assistir a um curta-metragem, e se ele for bom, é muito mais divertido do que passar um par de horas lendo um roteiro.

O curta continua a servir como um cartão de visita para Hollywood. Spielberg, Scorsese, Coppola, Lucas, Carpenter, para citar alguns famosos, todos começaram deste modo. Lucas e Carpenter expandiram os filmes que fizeram na faculdade de cinema da USC em longas de baixo orçamento; outros usaram os curtas como cartões de visita para mostrar para produtores e produtores executivos que os patrocinaram e lançaram suas carreiras.

Os curta-metragens também já levaram a contratos para longas. O arrasa-quarteirão de 1987, Atração Fatal (Fatal Attraction) começou como um curta de 40 minutos chamado Diversion (1980), escrito e dirigido por James Dearden. A Paramount comprou o filme e contratou Dearden para escrever o roteiro do longa. Na Corda Bamba (Sling Blade, 1996) começou como um curta de 24 minutos chamado Some Folks Call it a Sling Blade (1994), escrito por Billy Bob Thornton e dirigido por George Hickenlooper.

Antes que esses filmes pudessem chamar a atenção de Hollywood, eles precisaram ter uma história forte e um bom roteiro para lançarem o projeto. Sem uma história atraente ou cômica para ser a base de seu trabalho visual, a história não passará de pastagem para alimentar o trabalho do elenco, do diretor de fotografia e/ou dos editores. Os diretores precisam provar que conseguem contar uma boa história, e não importa se ela é curta ou longa. É isso o que significa ter um cartão de visita — fazer as pessoas notarem as suas habilidades de contador de histórias. Na maioria dos casos, o problema dos curtas é a história — ou a falta dela. As pessoas tendem a ver os curtas como mini-longas, e aplicam neles as mesmas fórmulas de escrita. Mas enxergar dessa maneira é superficial e míope; como ler um conto como se fosse um romance, ao invés de um representante de uma forma de arte única.

Num curta, os princípios do drama permanecem os mesmos, mas as regras mudam. Por exemplo, um pré-requisito para o sucesso de um longa é um protagonista simpático. Mas um curta pode ser bem-sucedido precisamente porque examina um protagonista antipático. Como isso pode acontecer? Porque você não está pedindo para o público investir duas horas em um personagem desprezível. Assistir a algo por um tempo mais longo torna importante para o público conseguir se conectar e se importar com o protagonista (ou pelo menos com alguém importante no filme). Em um curta, você pode se divertir com um herói que é um mané, e/ou explorar outros assuntos controversos que sejam divertidos e excitantes em uma pequena dose, mas que se tornaria incômodo após um período mais longo. (Um fim-de-semana com a parentada é sempre mais duro do que uma rápida xícara de café com eles).

Longa-metragens são “ação estruturada”. Os curtas também. Mas a estrutura varia com a duração. Um filme de cinco minutos não tem os mesmos requisitos de um de 20 minutos. Alguns curtas funcionam com bastante eficiência como piadas com uma boa frase de encerramento. Outros funcionam porque exploram em profundidade um acontecimento, ou personagens em um incidente específico. Dois curtas que ganharam recentemente o Oscar, Omnibus e Black Rider, lidavam com “incidentes” durante uma viagem de trem e de ônibus, ambos em menos de 10 minutos.

Curta-metragens mais longos ainda desenvolvem uma estratégia de história em três partes (começo, meio e fim) semelhante à dos longas. Mas as suas apresentações e conclusões são mais curtas, e a maior parte da história é de fato a crescente ação do meio. Mais ênfase é colocada no ponto de virada central da história, que funciona igual ao clímax do segundo ato de um longa.

Curtas geralmente lidam com temas difíceis e assuntos que os filmes atuais evitam. Racismo, exclusão social, doenças mentais, todos estes assuntos têm sido tópicos de curtas premiados. Mas esses cineastas não sentiram que deviam tratar os seus temas com respeito. Muitos curtas distorcem com eficiência esses assuntos controversos, usando a ironia ou a comédia negra para nos fazer rir mesmo enquanto estamos chorando. Temas desafiadores e assuntos polêmicos tratados de uma forma atraente fazem com que os filmes sejam notados. É verdade, filmes hollywoodianos que custam 200 milhões de dólares podem não defender esses temas, mas os poderosos influentes de Hollywood ainda os apreciam. E curtas verdadeiramente originais e ousados chamam mais atenção do que a milionésima imitação de Tarantino ou dos Irmãos Farrelly.

A quantidade de festivais de cinema nacionais e internacionais aumenta anualmente, e os curta-metragens compõem uma parcela crescente em suas programações. A cada ano, Hollywood presta mais atenção nos festivais, tanto como fonte de novos talentos quanto de filmes curtos, que estão em grande demanda pelos maiores canais de TV a cabo, e por aqueles especializados em cinema independente. Muitos novos cineastas saem desses lugares com o forte interesse de agentes, produtores e produtores executivos assegurado.

Todo filme de curta-metragem começa com um roteiro, mesmo se for lido apenas pelo diretor no momento em que ele pega a sua câmera. Como o contista que inveja a liberdade do romancista de estabelecer o clima e a história quando quiser, o roteirista de curtas tem a difícil tarefa de estruturar a sua história de modo que, tanto os personagens, o tema, quanto o enredo se provem satisfatórios numa estrutura mais breve.

Dez dicas para um roteiro de curta de sucesso:

1- Saiba para quem você está fazendo o seu filme. Se você estiver fazendo-o para si mesmo, é a si mesmo que você deve agradar. Se você está fazendo-o como uma porta de entrada para a indústria cinematográfica, então o seu filme precisa ser bom, tanto dramaticamente quanto tecnicamente. A competição é acirrada.

2- Quanto mais longa a história, melhor deve ser o filme. A duração vai depender do que a história exigir. Mas se um filme tem mais de 15 minutos, ele realmente tem de ser ótimo para que as pessoas continuem assistindo-o. Eu perdi as contas de quantos “curtas” entendiantes eu já vi porque os diretores não conseguiram decidir o que cortar para fazê-los melhores.

3- Escreva um roteiro que você possa produzir. Não escreva um roteiro com gastos de produção com que você não possa arcar.

4- As melhores idéias são simples. Focalize em um conflito principal, e daí desenvolva e explore ele de modos surpreendentes.

5- Apresente a sua história nos primeiros 60 segundos. Se você estiver escrevendo um filme de 10 minutos (10 páginas), você não pode gastar as primeiras 5 páginas apresentando os personagens antes de chegar ao conflito. Estabeleça o conflito o mais cedo possível.

6- Tenha certeza de que o conflito vai aumentando. Saiba o que o seu personagem quer (o objetivo) e o que está impedindo-o de consegui-lo (o obstáculo), e esteja certo de que o seu público também esteja entendendo.

7- Tente desenvolver o conflito em um incidente principal como a peça central de seu projeto. Muitos curtas excelentes desenvolvem o conflito em um incidente para aumentar o impacto, explorando o personagem de formas que os longa-metragens raramente fazem porque eles se baseiam mais fortemente em enredo.

8- Se o seu curta durar menos do que 5 minutos, apenas um tipo de conflito deve ser o suficiente para satisfazer o seu público. Mas se o seu filme durar mais de 5 minutos, você precisará de vários obstáculos ou complicações para o seu herói enfrentar.

9- Só porque o seu filme é um curta, isso não significa que seja impossível ter um ponto de virada central e uma reviravolta. Qualquer coisa que faça o seu público ficar tentando advinhar o final é um trunfo.

10- Esteja certo de que o seu final seja a melhor coisa de seu ótimo filme. É com a resolução da história na mente que o público sai do cinema, e é por causa disso que eles lembrarão de você.

Aqui termina este artigo. Amanhã tem outro seguindo o mesmo assunto. Para complementar, assista a bons curtas. Curta o curta é um excelente site brasileiro, com muitos títulos para assistir online. Aprenda divertindo-se! Ou, se preferir, divirta-se aprendendo!

Boa escrita para você hoje e até amanhã!


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4 Comentários

  1. Olá Valéria, muito bom o post!!!
    Eu comecei a estudar roteiro e fui direto para o longa…só agora estou percebendo que começar pelos curtas pode ser muito gratificante.

    valeu pela bibliografia e pelos exemplos de curta, já vio o Black Rider, e realmente, é muito bom!

    Beijão e até mais!!

    =)

    Comentário por Daniel — 09/02/2010 @ 19:28

  2. Olá, Daniel, que bom te ver por aqui!!

    Legal você ter se inspirado com o artigo. Eu também assisti ao Black Rider (não consegui encontrar o Omnibus) e por ele dá para ver que não é necessário um roteiro mirabolante e uma produção caríssima para ganhar um Oscar. É realmente estimulante saber disso.

    Continue acompanhando essa série de posts, tem ainda muitas dicas interessantes e indicações de bons curtas! Espero que sejam um incentivo e uma base de informações para que os seus futuros curtas tenham muito sucesso!

    Um beijão, e inté!
    Valéria Olivetti

    Comentário por valeriaolivetti — 10/02/2010 @ 01:55

  3. Adorei!

    Comentário por Janaina Rico — 05/02/2011 @ 08:36


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