Dicas de Roteiro

06/02/2010

Escrevendo Para Atores – Parte 5

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 12:41

Eis a parte final da tradução livre da longa entrevista da ator Alan Arkin para o livro Insider’s Guide to Writing for Screen and Television, de Ronald B. Tobias, editado pela Writer’s Digest Books, 1997:

O ator, músico e diretor americano Alan Arkin (1934-__)

Tobias: Você vê um roteiro como um projeto a ser seguido à risca, ou como algo de onde você retira informações e constrói a sua própria percepção do personagem?

Arkin: Isso depende do roteiro. Se eu estou lendo um roteiro de Mamet, então é infinitamente mais como um projeto a ser seguido. É algo que você tem de corresponder às expectativas como ator, porque aquilo tem integridade, tem voz interior, tem algo a declarar. Deste modo, eu sinto que tenho de encontrar o meu caminho dentro da concepção dele sobre o que a vida significa. Eu tenho de me tornar parte da filosofia de Mamet, seu ritmo. Ritmo é filosofia, queira você ou não.

Tobias: Você está falando sobre o poder de presença dos atores?

Arkin: Exatamente. Eu não tenho problema algum em fazer isso com uma obra se eu sentir esse tipo de integridade nela. Eu amo fazer isso. Mas aí depende do diretor ter certeza de que todo mundo esteja na mesma sintonia. Isso pode ficar muito complicado. Eu preciso ter longas conversas com o diretor antes de fazer qualquer coisa. Se for uma obra com enorme integridade, como o trabalho de Mamet, eu quero descobrir quais são as necessidades dela e ver se eu sinto que posso me encaixar nesses parâmetros.

Se for uma obra que não tenha muita integridade, mas que eu sinta que poderei fazer algo a partir do personagem, então eu vou querer falar com o diretor o que eu desejo fazer, e ver se ele vai aceitar isso. Ou, pelo menos descobrir como ele irá fazer o filme, como ele irá dar a integridade que eu não estou vendo no papel impresso. De qualquer forma, eu fico confortável de trabalhar, contanto que haja algum sentido filosófico no trabalho.

Tobias: Então você está dizendo que, na ausência de uma filosofia do personagem, você criará uma?

Arkin: Isso se eu conseguir encontrar algo no personagem que eu sinta que pode render alguma integridade a ele.

Tobias: A maioria dos roteiros falham em criar esse tipo de profundidade para os seus personagens?

Arkin: Noventa e nove por cento das vezes, mesmo nos bons roteiros. Você raramente encontra algo do tipo de integridade que Mamet possui.

Tobias: Mais alguém?

O ator Robert Downey Jr. ao lado de seu pai, o ator, roteirista e diretor Robert Downey Sr. (1937-__)

Arkin: Robert Downey. Não o ator, mas o seu pai, o escritor-diretor de Putney Swope (1969) e Greaser’s Palace (1972). Quando você lê um roteiro do Downey, você sabe que é do Robert Downey. Ninguém pensa como ele e ninguém escreve como ele. Ninguém tem o seu ritmo. Por anos eu quis trabalhar com ele porque eu admirava os seus primeiros filmes. Eles eram completamente doidos e completamente pessoais.

Tobias: Você acha que ainda tem alguém escrevendo bons roteiros?

Arkin: Eu estou tendo problemas com os filmes americanos de hoje em dia. Todo filme que eu vejo é tecnicamente perfeito mas não tem vida nenhuma, não tem coração. Eu não me lembro mais dos filmes que eu asssisto. Eu não consigo lembrar nem de 16 quadros (frames) de qualquer filme americano que eu vejo. Eu achei que estava ficando com o mal de Alzheimer. Eu pensei que havia algo seriamente de errado comigo. Até que eu assisti a um pequenino filme que Satyajit Ray fez 20 anos atrás, e eu pude lembrar de cada quadro dele. Enquanto eu o estava assistindo, eu disse: “Isto é muito entediante. É tão simplista.” E então, quando o filme acabou, eu estava arrebentando os meus olhos de tanto chorar, e eu consegui lembrar de todos os quadros dele.

O roteirista, diretor, compositor e produtor indiano Satyajit Ray (1921-1992)

Tobias: Você se lembra do nome do filme?

Arkin: Chama-se The Post Office. É maravilhoso. Uma obra simples, linda, arrebatadora, de partir o coração. Ray faz mais com sugestão do que os diretores e escritores americanos conseguem fazer com 100 mil dólares em explosões.

Tobias: Você acha que isso acontece porque a sociedade americana está muito confortável e não tem nada mais para motivá-la? Ela está segura, rica e confortável.

Arkin: Eu não diria confortável. Eu diria farta. Nós precisamos de mais e mais estímulos para poder achar que estamos sentindo algo. A sutileza se foi. Eu acho que a ambiguidade se foi. Não há um filme que não se defina como comédia, drama ou tragédia. Eu não consigo mais pensar num filme americano que cruze essas linhas.

Se eu faço uma palestra numa escola, todo mundo diz: “O que há de errado com Hollywood? Por que eles estão indo…” Eu digo: “Espere. Você não entende. Se vocês pagassem para ver histórias da Bíblia, eles fariam histórias da Bíblia vinte e quatro horas por dia para vocês.” A razão de eles não estarem tendo histórias da Bíblia, com morais maravilhosas, belos crepúsculos, e bonita linguagem, é porque ninguém irá assisti-las. Eu disse: “Isso não significa que os estúdios tenham moral. Eles têm menos moral do que vocês pensam, mas eles não ligam. Eles não têm nenhum propósito além de fazer dinheiro.”

Tobias: E se nós de repente decidíssemos que queremos filmes bons e artísticos, seria isso o que teríamos?

Arkin: Eles ficariam felizes de fazer isso. Eles não ligam mais para esses do que para os que eles estão fazendo agora. ‘Você viu o blá-blá-blá?’ O que mais importa é que o filme tenha rendido meio bilhão de dólares. Esse é o seu valor. É só sobre isso que eu ouço. Eu não ouço sobre seus méritos ou a concepção de uma sociedade em mutação. É isso que a arte costumava fazer. Costumava ter um grande propósito moral. Não tem mais. Serve apenas para distrair nossas mentes de nossos problemas e fazer grana.

Tobias: Que conselho você tem para os roteiristas, além de…

Arkin: Não faça isso.

Tobias: Não faça isso?

Arkin: Não faça isso a não ser que você tenha que fazer. Não escreva para um estúdio. Não trabalhe sob medida para outras pessoas. Arranje outro emprego e escreva spec scripts. (Nota da Tradutora: Um roteiro especulativo é aquele que o roteirista escreve por sua conta e risco, e depois tenta vendê-lo para alguma produtora ou estúdio de cinema).

Tobias: Escrever o roteiro que está dentro de si?

O roteirista, dramaturgo e diretor americano John Patrick Shanley, ganhador do Oscar de Melhor Roteiro Original pelo Feitiço da Lua

Arkin: E escreva-o pequeno o suficiente para que haja uma chance maior de que seja filmado. Faça o que John Patrick Shanley fez. Ele escreveu Feitiço da Lua (Moonstruck, 1987) e então fez ele mesmo entrevistas com diretores. Eles não disseram a ele o que eles queriam. Foi ele que disse aos diretores o que ele queria. Eu acho que esse é o modo de fazer isso, a não ser que você acabe sentindo que não é talentoso o suficiente para este trabalho. E se você quiser tanto ser um roteirista, então eu suponho que você só precisa começar a ser submeter.

Tobias: Eu conheço um Diretor de Fotografia que leu um roteiro para televisão que começava com a frase: “O Sr. Green anda pela rua com cinco mil anos de sofrimento judaico em seu rosto.” O DF disse: “Isso não é filmável. Como você mostra cinco mil anos de sofrimento judaico no rosto de alguém?” Mas o produtor do programa amou tanto a frase que ele comprou o roteiro. Você gosta de ver este tipo de escrita num roteiro, onde o escritor não está escrevendo um filme, mas uma obra literária?

Arkin: Isso não me incomoda, desde que a próxima frase me diga algo mais. Desde que a primeira frase que saia de sua boa contradiga aquela declaração. Um homem anda pela rua e tem cinco mil anos de dor judaica e sofrimento em seu rosto. Se a primeira frase que sair de sua boca for: “Oh, Deus, eu não posso mais viver nem um dia como este”, eu já sei que estou com problemas. Se a primeira frase for ele falando ao telefone com a sua namorada de 19 anos, então eu digo: “Espera um instante. Aí está um cara que tem algum senso de ironia, algum sentido de contraste.” Então eu vou querer saber como a terceira frase será.

Um filme é um jogo que você joga e que lhe dá uma filosofia. É a proposição de uma teoria. Todo mundo que escreve um livro, escreve uma música ou escreve um filme está dando uma lição filosófica. Os primeiros 10 minutos propõem uma teoria, e o resto do filme é a conclusão. É assim que é a vida humana, e é assim que as pessoas são. A teoria só é interessante se você mostrar seus vários ângulos. Você precisa ver a ideia sendo mostrada de diferentes formas. Se for apenas uma declaração que for repetida várias e várias vezes, então a declaração não tem como ser mudada. A ideia precisa tocar contextos diferentes para ser realmente convincente. Quanto mais contextos, quanto mais pontos de vista, mais excitante será, e maior a chance de você achar de fato que a conclusão tem algum valor.

Tobias: Então a filosofia não deveria ser apenas declarada, mas também comprovada?

Arkin: Você não pode apenas dizer: “É assim que a vida deveria ser.” Esse é um perigo terrível para um escritor. A arte não deveria ser polêmica, mas experiência. Precisa ser a sua experiência. Precisa ser a ligação entre as suas crenças e a sua experiência. O escritor não deveria ser um político.

Mas ninguém que mais assumir nenhum tipo de filosofia. A arte começou tanto como uma alegre expressão de um relacionamento com Deus quanto um desejo de passar esse sentido para as pessoas. Agora é apenas entretenimento. Eu não gosto de entretenimento. Isso não tem muito valor.

O médico, dramaturgo e escritor russo Anton Chekhov (1860-1904)

Tobias: Chekhov escreveu que a arte real baseia-se no que ele chamou de “um monte de estrume”. Esse foi o seu modo de dizer que noventa e nove por cento de toda a assim chamada arte é na verdade lixo. Mas é precisamente o lixo que dá à arte o seu valor. É assim que nós reconhecemos a arte verdadeira, por seu destaque, sua distinção do lixo que está sendo produzido em grande quantidade. Você não acha que está sendo severo demais ao dizer que todos os filmes deveriam corresponder aos altos padrões da arte de excelência?

Arkin: Um dos problemas é que ninguém é encorajado a fazer qualquer coisa de valor. Não há a sensação de que haja algo para você se você escrever alguma coisa de valor. Não há recompensa no fim da estrada.

Tobias: Há necessidade de ter uma recompensa? Reconhecimento do público ou…

Arkin: Ser capaz de continuar a trabalhar, eu suponho. Isso é o que todo escritor quer, não é?

Aqui acaba a entrevista com Alan Arkin. Amanhã terminaremos o capítulo com uma entrevista completa com o ator Charlton Heston. Boa escrita para você hoje e até lá!

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