Dicas de Roteiro

05/02/2010

Escrevendo Para Atores – Parte 4

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 11:28

Continuamos hoje com parte da longa entrevista do ator Alan Arkin para o livro Insider’s Guide to Writing for Screen and Television, de Ronald B. Tobias, editado pela Writer’s Digest Books, 1997:

Tobias: Como você concilia Alan Arkin, a pessoa, com Alan Arkin, o ator num papel?

Arkin: Como ator eu tenho tido uma liberdade tremenda. O último filme que fiz foi dirigido por Andrew Davis (A Força Em Alerta, O Fugitivo) que tinha acabado de ter dois grandes sucessos e era visado para ser contratado por todos os estúdios do mundo, por uma grande soma em dinheiro. E eu tive carta branca. Eu mudei todas as linhas do roteiro. Me foi dada a oportunidade de improvisar continuamente. E eu fiquei mimado por isso. Eu sinto que as pessoas me procuram muito porque sabem que eu vim do teatro de improvisação (Second City), e eu mudarei significativamente os diálogos por pelo menos uns dois terços do tempo. Eu mudo o sentido de um personagem. Eu o reformulo. E eu venho, quase diariamente, com novas ideias, novos projetos para as cenas. Não é porque eu sinta que sou obrigado, ou porque eu tenha uma agenda pessoal. Eu apenas sinto quando as coisas são malfeitas e não foram bem pensadas.

Tobias: Em termos da descrição do personagem que o escritor fez?

Arkin: Sim. Eu posso entender o motivo até certo ponto, porque há muitas pessoas colocando o dedo no roteiro hoje em dia. Há tantas pessoas, com tantas agendas pessoais, que os escritores, de modo geral, não querem revelar muito de si mesmos ou colocar a sua dor no papel, porque será simplesmente menosprezada. Então você dirá: “Por que você vai se arriscar? Tudo será mudado de qualquer forma.”

O romancista, dramaturgo e roteirista americano Paddy Chayefsky (1923-1981)

Tobias: Então os dias dos roteiros de Paddy Chayefsky estão acabados?

Arkin: Bastante. Há algum trabalho vindo da Inglaterra agora e que tem uma maravilhosa linguagem. Qualquer coisa que Anthony Hopkins faça tem um incrível senso de linguagem. E há coisas vindo de países da América Latina que têm esse incrível senso de linguagem.

Tobias: Já que você tem uma forte base de improvisação, você acha que quando um personagem lhe é dado, é sua responsabilidade remodelá-lo, preenchê-lo? Ou você acha que isso é algo que todos os atores fazem?

Arkin: Isso é o que os atores fazem. Eu descobri uma coisa única em atores que improvisam: quando eu contrato um ator desses, eu vejo que, quase invariavelmente, ele sabe por instinto, logo de cara, qual a função do seu personagem no contexto geral. Muitas vezes os atores lêem apenas as suas falas e não prestam atenção no que está acontecendo ao redor — sabe, eles não lêem o roteiro todo. Eu acho que os músicos também fazem isso. O cara que toca oboé lerá apenas a partitura do oboé. Ele não lê a partitura inteira para ver qual a função que o oboé tem no conjunto da obra. E isso é uma pena, porque se um ator tem o entendimento do que se trata a peça primeiro, ele fica com um sentido intuitivo do que precisará fazer. Há muito poucos atores que trabalham desta maneira.

Tobias: Parece que você está dizendo que o ator é um complemento do personagem. Não é só colocar a roupagem que o escritor lhe providenciou. É pegar o conceito que o escritou lhe deu e torná-lo real.

Arkin: Exatamente. Se você tiver sorte, talvez uma ou duas vezes em sua vida um escritor irá chegar para você e dizer: “Meu Deus, você tirou coisas do personagem que eu não sabia que tinha colocado no papel.”

Tobias: O que você sente falta na maioria dos roteiros atuais? A literatura, a poesia, a alma…

Arkin: Não que eu fale tão belamente, mas eu sinto falta da linguagem entre pessoas que são capazes disso. A linguagem lhe dá algo em que se apoiar quando você é um ator. É como ter uma fundação, um chão sólido sob você. Pouquíssimos roteiros que eu leio têm mais o carimbo específico de um escritor neles, seja em termos de linguagem, ou do ritmo da cena, o que é outro tipo de linguagem. As palavras têm um ritmo, e a estrutura da cena também tem um certo ritmo, e com frequência isso lhe dirá quem é o escritor.

O romancista, dramaturgo, roteirista, poeta, ensaísta e diretor americano David Mamet (1947-__)

Tobias: Como David Mamet?

Arkin: Leia meia página de Mamet e você sabe com quem está lidando. Esta foi a coisa mais difícil com que eu trabalhei em toda a minha vida por causa da exatidão de suas frases. Nós ensaiamos por um mês, e mesmo ensaiando o tempo todo, Ed Harris e eu ainda íamos para o trailer e repassávamos as cenas, e as repassávamos, repassávamos, repassávamos. Eu nunca trabalhei tão duro em toda a minha vida, incluindo Shakespeare. Se eu tivesse uma fala que fosse: “Eu sinto muito, eu, eu, eu…”, o supervisor de roteiro me pararia e diria: “Alan, você disse apenas três ‘eu’s.”

Tobias: O seu papel em Sucesso A Qualquer Preço (Glengarry Glen Ross, 1992) tinha mais sentimento e foi melhor pensado do que os outros. Foi deste modo que ele estava escrito no roteiro?

Arkin: A minha reação inicial quando eles me ofereceram o papel foi: “Ah, sim, eles me deram o papel do parente por afinidade.” Eles me deram o ignorante. O cara legal que é um tolo. E eu disse: “Eu não quero fazer esse papel.” Então meia dúzia de pessoas me convenceram de que eu deveria fazê-lo. Aí eu disse: “OK, se eu fizer este papel, eu quero transformá-lo de forma que ele não seja esse cara. Eu quero achar algo mais sobre ele com que eu me sinta bem. Eu quero me sentir bem sobre esse cara de algum modo.”

Eu tinha a sensação de que Mamet sabia que o meu personagem tinha de estar na história, mas eu não acho que ele estava confortável ao escrevê-lo. Então ele o fez desprezível. Mas eu não queria representá-lo dessa forma. Eu dei ao meu personagem um subtexto onde ele não era um vendedor. Eu disse: “Ele não é um vendedor. Ele é um professor de gramática. Ele tem sido um professor de gramática por vinte anos e foi despedido da escola porque eles estavam fazendo cortes de pessoal e ele não tinha direita à estabilidade no emprego. E ele não conseguiu outro emprego como professor, então ele agora está num trabalho que odeia.” Ao invés de fazer dele um incompetente, como Mamet fez, eu fiz dele apenas alguém que não sabia aquele ofício.

Tobias: Um estranho numa terra estranha?

Arkin: Sim, mas eu dei a ele dignidade. O meu personagem tem a única fala no roteiro que tem algum senso de responsabilidade moral. É apenas uma frase, mas eu acho que é muito significativa. Ed Harris está falando comigo sobre como é mau negócio fazer uma certa coisa de certa maneira, e eu digo: “É, ruim para os consumidores.” É só uma linha, mas nos diz como ele pensa. De algum modo ele quer servir para algo, ao contrário de todos os outros no roteiro.

Alan Arkin e Ed Harris em Sucesso a Qualquer Preço

Amanhã tem a última parte da entrevista de Alan Arkin (e a penúltima do capítulo). Boa escrita para você hoje!

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3 Comentários

  1. Valéria, que entrevista perfeita!
    nossa veio a tona tudo que passei quando fazia aulas de interpretação. Teve uma peça que praticamente eu fiz quase tudo, adaptei o “roteiro”, dirigi os atores e ainda atuei na peça. E o incrível, que na ora da apresentação eu era a mais integrada em tudo. Aí vem a grande frase deste artigo que voce publicou “-se um ator tem o entendimento do que se trata a peça primeiro, ele fica com um sentido intuitivo do que precisará fazer.”
    O mesmo vale para um roteirista. De nada vale tanta imaginação se você nem se quer tem idéia da vivencia desse personagem, dessa ação.

    Mais uma vez obrigada pelo post. Mais um grande aprendizado.

    Comentário por ana catrin — 21/07/2010 @ 16:00

    • Oi, Ana, que bom que você gostou!

      Eu até gostaria de traduzir esse livro inteirinho, sabia? Ele é ótimo! Pena que não posso fazer isso. Queria tanto que o publicassem em nossa língua (esse e muitos outros!), ah, se eu tivesse uma editora…!

      Ah, e por causa das suas experiências em teatro, eu já pesquisei e estou com alguns artigos na fila para traduzir exatamente sobre este assunto: “como atuar ajuda a escrever roteiros”! Bacana, não? Espero que você também goste, apesar de que nesse ponto você já poderia é estar dando aulas! :mrgreen:

      Muito obrigada a você, Ana, pela força, pelas dicas e inspiração, e pela companhia nesta jornada. O prazer tem sido todo meu! 😀
      Um abração carinhoso, e até a próxima!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 22/07/2010 @ 08:34

  2. “-estou com alguns artigos na fila – “como atuar ajuda a escrever roteiros”! Bacana, não?

    MARAVILHOSO!!!! EBAA:D
    Dar aula? não não.. rs
    No máximo compartilhar os conhecimentos como você faz aqui no site. ( Que já é uma grandiosa aula).

    Comentário por ana catrin — 22/07/2010 @ 10:29


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