Dicas de Roteiro

02/02/2010

Escrevendo Para Atores – Parte 1

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 20:25

O relacionamento entre roteiristas e atores muitas vezes é conflituoso, cada um vendo apenas o seu lado e criticando o outro. Há muitas opiniões acerca de quem deva ter a última palavra, por isso traduzirei, hoje e nos próximos dias, alguns textos sobre o assunto que refletem vários pontos de vista. Leia e tire as suas próprias conclusões.

Lawrence Kasdan no set de filmagem

“Eu nunca encorajei os atores a mudarem o diálogo. Minha crença tem sido sempre: “O roteiro é inocente até que provem o contrário.”” – Lawrence Kasdan, roteirista de sucessos como Star Wars: Episódio IV – O Retorno de Jedi (1983) e Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida (1981), roteirista e diretor de O Turista Acidental (1988) e Corpos Ardentes (1981), entre outros.

James Gray no set de filmagem

A seguir, trecho da entrevista de James Gray, diretor de Fuga Para Odessa (1994) e Caminho Sem Volta (2000), para a revista Movie Maker – Hands On Pages – Volume 1, Issue #2:

MM: O que você deseja dos atores no set de filmagem?

JG: Eu quero que eles surpreendam.

MM: O que você não quer que os atores façam no set?

JG: Preguiça. Quando o ator não está comprometido com um papel. Quando eles vêm para o set sem saber as suas falas, e pensam que podem apenas “se virar”, porque é uma cena fácil. Eles jamais deveriam pensar deste modo. Se você está disposto a se exibir nas telas, deveria estar disposto a ser absorvido completamente pelo papel.

MM: Quando você diz que quer que um ator surpreenda, isto significa que você encoraja a improvisação?

JG: Não, eu não gosto de improvisação, como regra geral. Eu descobri que isso geralmente significa que o ator não decorou as suas falas. Mas, tendo dito isto, há uma cena em Caminho Sem Volta que foi completamente improvisada — e eu a amei.

Roteirista, produtor e diretor Daniel Knauf

O texto abaixo, cujo o título é DIÁLOGO 2.0, é de autoria de Daniel Knauf, produtor, diretor e roteirista de TV (atualmente escreve os episódios da série Spartacus: Blood and Sand), :

Não há dúvidas sobre isso. Diálogo bom e afiado vende roteiros. É crucial para atrair talento, acima e abaixo da linha de produção (estrelas, diretores, produtores, e equipe técnica). É um fator importante para fazer seus personagens pularem fora da página e apertar a mão do leitor. O diálogo é importante. Realmente importante.

Até o primeiro dia de filmagens.

Porque é nesse dia que os atores começam a dizer as suas falas. E o trabalho do ator é incorporar a verdade do personagem que ele ou ela foi contratado para interpretar. Para isso, eles irão fazer qualquer coisa para que seu diálogo funcione. As chances são de que eles mudarão o diálogo.

Isso não tem problema algum. O desafio do ator é decorar uma fala, processá-la e entregá-la como se ela tivesse apenas “ocorrido” a ele. Ele precisa possuir aquela maldita fala. Em outras palavras, não é mais a sua fala, é a dele. E, diabos, ele fará o que for necessário para vendê-la para o público.

Eu costumava achar que era uma grande insolência de um ator falar a um escritor: “Meu personagem não diria isso”. Que ousadia! Afinal de contas, o escritor criou o personagem. O escritor é Deus. E aqui está este mortalzinho insignificante tentando dizer a Ele o que Sua criação diria?

Interrupção para um noticiário importante.

Exceto em situações em que ele está mais preocupado com a própria imagem do que em incorporar a verdade do personagem, o ator está sempre certo. Veja bem, o escritor é um generalista. Ele cria todo mundo na história, dá a eles coisas para fazer e falar.

O ator é um especialista. O trabalho dele é todo sobre uma coisa só: seu personagem. Então, se uma fala do diálogo está sem motivação ou fora do tom, ou apenas é impossível de ser dita, depende do ator ou:

a) perguntar ao escritor, “por que eu estou dizendo isso?” e receber uma explicação lógica; ou…

b) apenas mudá-la.

Acredite ou não, na maioria dos casos isso não tem importância. Num trabalho de drama, o diálogo não é nada mais que um barco. O ator enche esse barco com uma carga efêmera, impagável e muitas vezes sublime: Verdade Emocional. E é esse produto que nós estamos entregando para o público — aqueles momentos de reconhecimento fascinante em que o filme dedilha cordas emocionais profundas ao gritar: “Veja! Veja o que está acontecendo agora! O que você faria se fosse com você? Oh, meu Deus! Oh, meu Deus, o que vai acontecer a seguir!?”

E eu detesto partir o coração de todos os Billy Wilders florescentes espalhados por aí, mas nove em dez vezes esses momentos não são incitados por diálogo hábil e vigoroso, mas pelo conteúdo emocional que o ator empresta a ele. Se o barco não consegue acomodar essa carga, bem, é hora de construir um novo barco. Com muita frequência, isso é feito no set.

O que levanta uma outra questão: Se o escritor não está disponível no set, as opções a ou b esboçadas acima se tornam discutíveis. Só porque uma fala não está claramente motivada, isso não significa que ela não seja motivada. Pode haver perfeitamente uma boa razão para o personagem mentir ou enganar outro dizendo algo que pareça extremamente fora do convencional.

Se as dúvidas ocorrerem no set na ausência do escritor, as chances são de que as falas serão suprimidas em detrimento do roteiro. É por isso que muitos diretores espertos insistem que o escritor esteja no set para consulta. O único problema é que alguns escritores são uns idiotas completos. Eles têm ataques de raiva toda hora em que alguém insiste em mudar uma maldita vírgula. Mesmo quando os atores se mantêm fiéis ao texto, os escritores ficam mal-humorados quando a interpretação não combina bem com o que eles imaginaram quando martelaram o diálogo no papel.

É por isso que muitos diretores espertos insistem que o escritor seja barrado do set.

Que tipo de escritor é você?

Para complementar, leia o post e assista ao vídeo do blog Cinedramaturgia sobre a Coletiva de Imprensa do Tropa de Elite 2 e ouça a opinião do ator Milhem Cortaz.

Amanhã continuarei com mais um texto sobre o assunto. Boa escrita para você e até lá!

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