Dicas de Roteiro

28/02/2010

Escrevendo Comédias

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 22:04
Tags: , , ,

O artigo de hoje foi retirado do site Script Secrets, escrito por William C. Martell, e chama-se Engraçado Por Um Minuto. Martell está reescrevendo muitos dos seus artigos e este foi um deles. Eu juntei o texto do que eu havia imprimido há alguns anos com o do atual. Os filmes analisados neste artigo são: The Bros. (um filme independente obscuro), Com a Cor e a Coragem, Apertem os Cintos! O Piloto Sumiu e, citados em menor escala, 48 Horas, Super-Herói – O Filme, A Um Passo da Eternidade, Superstar – Despenca Uma Estrela, e Corky Romano.

Você sabe a diferença entre um quadro humorístico muito ruim do Saturday Night Live (N.T.: Programa de quadros humorísticos isolados, tipo Zorra Total), e um realmente bom? O quadro ruim começa com uma premissa engraçada, mas não a explora. Às vezes é só um personagem que é engraçado, às vezes é uma situação, às vezes é só uma ideia. É como se a ideia básica fosse engraçada o suficiente para sustentar todos os 10 minutos do quadro. Nenhuma ideia é engraçada por 10 minutos. Um personagem engraçado não é engraçado por dez minutos (o que explica o motivo do filme Superstar – Despenca Uma Estrela ter sido um fracasso — aquele personagem não era engraçado o suficiente nem para um quadro humorístico!) — o personagem é engraçado quando é apresentado… então você tem oito ou nove minutos sobrando sem nada de engraçado acontecendo no quadro.

Um quadro humorístico do SNL realmente bom pega a ideia ou o personagem engraçado e cria uma série de situações cômicas crescentes que exploram aquela situação. Cada uma dessas situações é engraçada por si própria — uma gag — mas quando combinada com o quadro ou o personagem cômico, ela cria uma risada após a outra, cada gag superando aquela que veio antes. Basicamente, você precisa de mais de uma coisa engraçada para sustentar um quadro humorístico de 10 minutos. A premissa ou personagem é a MOLDURA onde você pendura as gags engraçadas. Cada gag EXPLORA a premissa ou o personagem, mas também é engraçada por si só.

»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»  COMEÇO DOS SPOILERS  ««««««««««««««««««««««««««««««««««

Então quando se trata de um filme de “comédia” de 92 minutos como The Bros. (que eu assisti no Festival de Cinema Raindance em 2001) você esperaria que ele tivesse mais do que uma piada. O roteiro de Jonathan Figg é sobre uma dupla de jovens brancos suburbanos que sonham em se tornar gangsta rappers (N.T.: Quem escreve ou canta gangsta rap, uma variedade da música rap que se distingue por sua ênfase em temas como violência, sexo explícito e uso de drogas). Esta é uma premissa engraçada… mas é tudo o que o roteiro tem a oferecer. Eles cantam rap em estacionamentos de shopping centers, eles roubam cartões de crédito quando precisam de novos pares de tênis, eles fumam bagulho, eles fazem uma fita demo em seu gravador de fita cassete vagabundo… mas eles não fazem ou dizem nada particularmente engraçado, nem se envolvem em nenhuma situação que seja engraçada. O filme tem uma uma piada: Caras brancos fingindo ser negros. Nós entendemos isso nos primeiros 2 minutos, o que faz com que os 90 minutos restantes sejam um tédio.

Nunca subestime a importância de coisas engraçadas numa comédia.

Então onde você encontra essas coisas engraçadas? Explore o conflito! The Bros. nunca estabelece nenhum conflito, é apenas uma série de eventos. Eles se encontram com um representante artístico que acha que eles não têm nenhum talento — isto se parece com um conflito, mas não há nenhuma luta envolvida. É uma cena morta. Existem conflitos embutidos na ideia de “Caras brancos que pensam que são negros”, mas o roteiro nunca os explorou. Pense em como foi engraçada a cena com Eddie Murphy num bar caipira no filme 48 Horas… por que não fazer uma cena semelhante? Muita gente pensou que Elvis era negro ao ouvir a sua música, e ficaram chocados quando o conheceram pessoalmente. Em quais situações você poderia colocar esses dois caras brancos suburbanos onde eles seriam peixes fora d’água? Se apresentando num rally dos Panteras Negras? E se eles se tornassem as estrelas de rap preferidas de algum membro de gangue e ele os convidasse à sua casa? Existem um milhão de possibilidades — e este filme não explora nenhuma delas. Ele ficou preso à ideia inicial, nunca aumentando o conflito ou explorando diferentes aspectos dele.

Compare isto com o Com a Cor e a Coragem (Undercover Brother, 2002) — um filme com uma premissa engraçada que mantém as piadas fluindo. Uma vez que tenhamos sido apresentados ao protagonista de UB — que parece ter saído de um filme dos anos 70 — a história o envolve numa aventura também típica dos anos 70: O Homem — que mora numa ilha-fortaleza, tem um plano maligno de drenar a cultura negra da alma do protagonista usando para este fim galinha frita drogada. O filme apresenta gag após gag — tudo extraído da premissa. Além disso — nós vemos aquelas ótimas set pieces (N.T.: Set piece é uma elaborada sequência que mostra uma perseguição, uma luta ou outra ação executada de um modo original e memorável), do sequestro de James Brown ao UB se disfarçando como um Afro-Americano de classe média completamente insípido, até uma perseguição de carros estrelando UB dirigindo uma versão dos carros de James Bond (com gadgets [N.T.: Aparelhos mecânicos ou eletrônicos, geralmente pequenos e modernos] engraçados dos anos 1970). O filme se aprofunda na premissa para encontrar mais e mais humor.

PARÓDIA EXTRA


Eu não assisti ao filme Espartalhões, mas achei que entre os filmes da franquia Todo Mundo Em Pânico, o terceiro e o quarto foram os melhores… quando eles fazem paródias de filmes que também têm piadas… e eu gostei do Super-Herói – O Filme também. Eu acho que esta é a chave para os Filmes de Paródia — eles não podem simplesmente macaquear algum outro filme, eles precisam ter piadas também. Eles precisam começar com a cena de paródia e então extrair dela todas as gags possíveis — de modo que ao invés de esperar pela próxima piada, nós rimos tanto que acabamos perdendo algumas piadas e temos que (pagar para) assistir o filme de novo.

Se você olhar um filme como Apertem os Cintos! O Piloto Sumiu, eles fazem uma paródia da cena da praia do filme A Um Passo da Eternidade, onde Burt Lancaster e Deborah Kerr namoram na areia enquanto as ondas quebram sobre eles. Esta é uma cena famosa porque quando ele foi feito, estava ultrapassando os limites do que era aceitável num filme em termos de sexo. Você não podia mostrar uma mulher de calcinha e sutiã dando amassos num homem de cuecas naquela época, mas eles foram sorrateiros e botaram um homem e uma mulher dando amassos em roupas de banho. Não é muito diferente, na verdade… exceto que quando aquelas ondas vieram cobrindo o casal, passamos a ter roupas de banho molhadas que mostravam cada curva do corpo de Deborah Kerr. Então esta era uma cena muito quente naquela época. Um filme ruim de paródia iria apenas colocar os seus personagens naquela cena — ei, é uma cena famosa de um filme! Vamos simplesmente botar os nossos personagens nela!

Mas a versão de Apertem os Cintos! O Piloto Sumiu não copia simplesmente a cena…

Quando as ondas lavam o casal namorando, elas deixam algas e outros entulhos para trás. Esta é a piada número um. E cada vez que uma onda passa sobre eles, ela deixa mais alguma coisa para trás — caranguejos, algas marinhas, peixe… esta é uma piada que continua rendendo!

O casal continua a se beijar com todo aquele lixo sobre eles… e então eles têm uma ótima cena de diálogo relacionada à história sobre ele ter de partir pela manhã numa missão ultra-secreta — ele conta a ela o alvo exato, onde eles darão um bypass nos radares inimigos, etc. — cada mísero detalhe da missão. Mas quando ela pergunta a ele quando ele estará de volta… ele diz que isso é segredo. Então surgem outro punhado de piadas.

Ah, e os nomes das cidades que eles estão atacando são nomes de drinks de bebidas tropicais. Meia dúzia de cidades mencionadas é meia dúzia de mais piadas.

Então, quando outra onda passa sobre eles… praticamente os leva para o mar aberto! É a última gag e o final da cena.

Eles não apenas parodiaram a cena, eles acrescentaram uma tonelada de piadas — que são relacionadas à história! Eles exploraram a história, os personagens, e a premissa para fazer piadas. Eles não foram mais longe — eles foram mais fundo. E esta cena acabou sendo não apenas uma paródia de uma cena famosa — mas também forneceu umas duas dúzias de piadas além da paródia.

No meu curso de 2 dias eu mostro um clip da cena mais importante do Apertem os Cintos! O Piloto Sumiu. É aquela onde a mocinha tem de re-inflar o piloto automático usando um tubo na área do cinto dele. Ok, esta é uma cena realmente engraçada, mas ela também mostra que o piloto automático não é confiável e que eles precisam de um piloto de verdade para aterrissar o avião (o nosso herói), e mostra a aeromoça seguindo em frente com um novo relacionamento após romper com o nosso herói segundos antes de subir a bordo do avião. A cena também mostra algumas coisas relacionadas à história — você NÃO PODE cortá-la do filme — ela é crítica para a história. Sem esta cena, eles não precisam de nosso herói para pilotar o avião, o “Automático” pode fazer isso. Ei, esta é a parte do conflito físico da história! E o fim do relacionamento romântico com a aeromoça é o conflito emocional! E essa é a história toda! Uma cena precisa ser engraçada e relacionada à história.

É importante você imaginar tantas gags quanto puder — não se censure. Se os caras do The Bros. vão se passar por negros, eles precisarão de um Dicionário de Gueto? Talvez um curso de áudio do Berlitz? Irão eles assistir ao vídeo do Snoop Dogg e imitar os movimentos dele? Um deles experimentará os cortes de cabelo do Coolio? Poderia o plano de mestre deles ser tornarem-se Michael Jacksons ao contrário — onde eles fazem cirurgia plástica para parecerem mais negros? E que tal extensores de pênis? Poderíamos usar o humor para explorar clichês raciais e preconceitos? Faça uma imensa lista de ideias engraçadas a fim de poder escolher as melhores para o roteiro.

A comédia também pode ser encontrada nos relacionamentos com os outros personagens. O melhor modo de fazer isso é através do contraste. A premissa do The Bros. presta-se a usar o humor de contraste para explorar a busca dos personagens por identidade… o ruim é que eles nunca usam isso! Nós temos esses dois jovens brancos suburbanos que fingem ser negros… mas ao invés de extrair humor desta situação fazendo o contraste entre a escolha que fizeram com os pais deles sendo ultra-suburbanos e ultra-brancos (N.T.: Ultra-conservadores), Figg os faz um “lixo branco” caipira (N.T.: “Pessoas brancas pobres e ignorantes”). Os pais não criam NENHUM contraste — então não há chance nenhuma de tirar humor de cenas estreladas pela família. Corky Romano, o filme anterior de Chris Kattan, o fiel escudeiro em Com a Cor e a Coragem, comete o mesmo erro — ao fazer todos os mafiosos serem excêntricos, eles desperdiçaram o humor da situação. Corky se ENCAIXA perfeitamente em sua família… e não há nenhuma graça nisso! Quanto mais contraste entre Corky e sua família, maior a graça — o que significa que os mafiosos precisariam se bem-comportados!

The Bros. poderia ter extraído humor do contraste entre os aspirantes a gangsta rappers brancos e os VERDADEIROS gangsta rappers. Eles poderiam ter sido peixes fora d’água DUAS VEZES! O roteiro nem mesmo usa este método de comédia UMA ÚNICA VEZ!

Após cerca de 60 minutos de filme nós vemos nossa primeira set piece: um par de assaltos. Isto revela um sério problema de ritmo. O filme não apenas tem só uma piada, como tem apenas uma set piece! Em mais de 90 minutos! Qualquer gênero necessita de alguma coisa excitante acontecendo a cada dez minutos, ou então irá se arrastar. O ritmo é o batimento cardíaco de um roteiro, e você não quer ter apenas uma batida cardíaca no roteiro inteiro! Esse é um filme morto! Uma set piece engraçada a cada 10 minutos assegura que o público tenha algo novo para rir num ritmo regular, e que você terá pelo menos 9 situações engraçadas no seu filme. Mas isto significa que você tem de criar 9 situações engraçadas! Uma situação engraçada em um filme de 92 minutos não é o suficiente. Você precisa de mais do que uma simples piada para fazer um filme… Você precisa ter tantas gags quanto Com a Cor e a Coragem, Apertem os Cintos! O Piloto Sumiu e Super-Herói – O Filme têm, para quando alguma não funcionar, ainda haja muitas outras vindo! Com a Cor e a Coragem tem tantas gags que eles guardaram um bocado para os créditos finais… e  Super-Herói – O Filme tem cerca de uma centena de gags nos créditos finais! Existem personagens que aparecem apenas nas gags dos créditos finais (como o Homem Papel Higiênico). A sua comédia tem o suficiente desse material engraçado nela?

»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»  FIM DOS SPOILERS  ««««««««««««««««««««««««««««««««««

Para cada cena, crie uma página de gags. Deste modo você pode selecionar as melhores, e ainda ter o suficiente no roteiro para que, se alguma falhar, você ainda tenha risadas (no plural) na cena.

Escrever comédia não é fácil.

Boa escrita para você hoje!

27/02/2010

Usando Fichas Para Planejar a História (2)

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 14:49
Tags: , ,

O artigo a seguir é, como eu avisei mais cedo, um complemento ao último post. Ele foi escrito por Joe Mefford para a revista Movie Maker, e tem o título de Escrevendo Um Roteiro Com Um ‘Baralho’ Completo. Ei-lo:

Só é necessário um pacote de fichas e uma caneta esferográfica para começar o seu roteiro.

Se você for um pouco parecido comigo, você ocasionalmente arruina com uma partida de golfe um fim-de-semana que, de outro modo, teria sido maravilhoso. Se você já quebrou alguns tacos em seu joelho (também como eu), você provavelmente não se surpreenderá de saber que os golfistas gastam mais de 3 bilhões de dólares por ano tentando melhorar os seus jogos. A ironia é que apesar dos avanços da era espacial aplicados na tecnologia do golfe, a pontuação média dos últimos 20 anos continuou a mesma.

Pode não parecer que golfistas e roteiristas tenham muita coisa em comum, mas a tecnologia mudou o modo como os dois grupos jogam os seus respectivos jogos. Os computadores substituíram as máquinas de escrever, e programas de computador para escrever roteiros como o Final Draft acabaram com os erros de formatação. Mas os filmes têm se tornado visivelmente melhores?

Apesar de eu ser um grande fã de programas para desenvolvimento de histórias como o Power Structure e o John Truby’s Blockbuster, tem horas que soluções simples de baixa tecnologia funcionam tão bem quanto esses programas. Isto é especialmente verdade quando se trata de estruturar o seu roteiro.

Neste exercício, você irá pegar uma pilha de 50 fichas de papel de tamanho normal (N.T.: De 3×5 polegadas, ou aproximadamente 12×8 centímetros) e planejar um roteiro inteiro. É barato (você consegue  comprar um pacote de 100 fichas por menos de 3 reais), é fácil (tudo o que você precisa é de uma caneta) e é portátil (prenda-as com um elástico e você poderá escrever em qualquer lugar).

Você irá criar 40 fichas de cenas e 10 fichas de resumo. Apesar de eu apresentá-las em ordem numérica, você não precisa seguir a sequência. Complete as fichas na ordem que fizer mais sentido para você. Use um dos lados da ficha para as suas próprias anotações e o outro para completar o exercício.

Ficha nº 1: Logline ou Sinopse

A sinopse é uma descrição curta de seu roteiro. Tem geralmente de 25 a 50 palavras em uma ou duas linhas. Uma sinopse descreve o(a) protagonista e identifica os objetivos dele(a) e os obstáculos para atingir estes objetivos. Uma sinopse também explica os riscos envolvidos e dá ao público um motivo para se importar. Ela também sugere o gênero do filme. É muita coisa em apenas uma ou duas linhas. Aqui vão alguns exemplos:

O Dr. Malcolm Crowe, um psicólogo infantil, tenta ajudar um de seus pacientes perturbados, um garoto chamado Cole que acredita poder ver pessoas mortas. — O Sexto Sentido

Maria, uma adolescente colombiana acossada pela pobreza e pela gravidez, viaja para os Estados Unidos como “mula” de drogas e anseia por uma vida melhor. — Maria Cheia de Graça

Ficha nº 2: O Herói

Nesta ficha identifique o protagonista ou herói de seu roteiro. Descreva as características físicas de seu herói, mas também nos dê uma razão pela qual deveríamos nos importar com esta pessoa. Qual é a força dele ou dela? Ele ou ela tem um defeito trágico? Personagens bem-sucedidos num roteiro requerem a empatia do público. E o seu? Nós nos importamos com o Cool Hand Luke (N.T.: Título original e personagem principal do filme Rebeldia Indomável, de 1967), um cara que foi a vida inteira um encrenqueiro, porque ele é engraçado e não tem medo de encarar os guardas sádicos da prisão. Nós nos importamos com Miles, o demitido triste de Sideways – Entre Umas e Outras, porque quase todos nós já nos sentimos como fracassados completos em algum ponto de nossas vidas.

Ficha nº 3: A Meta do Herói

O que motiva o seu herói? No caso do Super-Homem, ele precisa salvar o mundo da destruição. Apesar da maioria de nós apreciar este objetivo, nós não conseguimos nos relacionar muito com ele. Mas nós certamente podemos nos relacionar com a inabilidade do Super-Homem de contar a Lois Lane como ele se sente exatamente em relação a ela. Nós queremos tanto ver o Super-Homem ficar com a Lois no final quanto queremos vê-lo derrotar o Lex Luthor.

O objetivo de seu herói deve ser tão importante que nós entendamos completamente o motivo dele suportar humilhações (Uma Secretária de Futuro), correr risco de se ferir ou de ser morto (O Resgate do Soldado Ryan) ou mesmo colocar a segurança de seus próprios filhos em risco (O Sol É Para Todos). Nesta ficha, escreva a principal meta de seu herói e o motivo dela ser tão importante.

Ficha nº 4: O Antagonista

Um ótimo filme pode frequentemente ser descrito como uma catástrofe prestes a acontecer; o antagonista empurra o seu herói em direção a esta catástrofe. Lembre-se de que quanto mais durão é o antagonista, mais o público aplaudirá o herói por atingir o seu objetivo. Rocky não seria o mesmo se Apollo Creed pesasse 50 kilos. Os antagonistas são geralmente, mas nem sempre, personagens reais que querem — e podem — impedir o seu herói de alcançar o seu objetivo. O Cal do Titanic e a administração de Nixon de Todos os Homens do Presidente são dois exemplos bem diferentes de antagonistas cinemáticos. Os melhores antagonistas, é claro, têm um toque de condição humana neles (nós podemos perdoar um pouco o Lord Farquaad de Shrek por causa de sua baixa estatura).

Ficha nº 5: Evento Que Muda Uma Vida

Poucos filmes começam com o herói já perseguindo o seu objetivo. Geralmente o herói está vivendo a sua vida normal e então — bam! — algo acontece para mudá-la rápida e completamente. Um patinador de gelo quebra a perna; uma mulher comprometida conhece um homem diferente (ou uma mulher) que a toca além de seus sonhos mais selvagens; um contador submisso que testemunha um assassinato em seu caminho para casa. Estes tipos de eventos que mudam uma vida são o que põem o seu herói em ação para alcançar o seu objetivo. Muitas vezes denominado de primeiro ponto de virada, este evento geralmente acontece a cerca de 10 minutos ou 10 por cento a partir do começo do filme. Escreva este acontecimento e como ele muda a vida de seu herói.

Ficha nº 6: O Conflito

Descreva o conflito ou conflitos entre o seu protagonista e o antagonista. Quais são os riscos? Frequentemente o seu herói encontrará vários obstáculos no caminho para o seu objetivo. Cada obstáculo vai ficando maior que o anterior, até parecer impossível superá-lo. Em Gladiador, Maximus precisa continuamente lutar contra oponentes cada vez mais fortes e mais durões.

Ficha nº 7: A Jornada Exterior

O seu herói frequentemente empreende duas jornadas: A primeira é a “jornada exterior”, que consiste de obstáculos físicos que o seu herói precisa superar para alcançar o seu objetivo. Quase todos os filmes de estrada são construídos ao redor de uma série de obstáculos físicos. Em Antes Só Que Mal Acompanhado, Neal tenta de todas as maneiras possíveis chegar em casa para o Dia de Ação de Graças, enquanto precisa lidar com o bufão do Del. Descreva a jornada exterior que o seu personagem está percorrendo.

Ficha nº 8: A Jornada Interior

A segunda jornada, a interior, é geralmente a mais importante. Novamente, em Antes Só Que Mal Acompanhado, Neal quer chegar em casa, de volta para a sua família de classe média suburbana americana. Mas durante o filme, ele muda e se torna mais aberto e generoso com alguém que é muito diferente dele. No filme Erin Brockovich — Uma Mulher de Talento, ajudar a solucionar um crime corporativo leva Erin a uma jornada interior que levanta a sua autoestima e o seu orgulho. Descreva a jornada interior de seu herói.

Ficha nº 9: Subenredos

Um roteiro raramente possui apenas uma história envolvendo o seu herói e o antagonista. Crie subenredos para atrair o interesse de seu público e mostrar mais sobre o seu herói, tendo certeza de que eles refletem o tema geral de seu filme. Apesar de Guerra Nas Estrelas ser todo sobre Luke destruindo a Estrela da Morte, há muitos subenredos envolvendo Leia, Han Solo, os dróides e Obi-Wan, que mantêm a história interessante e movendo-se para a frente.

Ficha nº 10: A Apresentação do Herói

A primeira vez que encontramos o seu herói é a preparação do terreno para o filme todo. A cena de abertura de O Resgate do Soldado Ryan é uma das mais famosas: Nós vemos o Capitão John Miller sobreviver a uma batalha brutal, e somos atraídos por sua coragem e liderança. A cena de abertura deveria apresentar o seu herói através de ação, diálogo e outros personagens. Você não tem de revelar segredos logo de cara, mas fazer o público ficar interessado na história do seu herói.

Fichas de Cenas

As próximas 40 fichas são as suas fichas de cenas. Coletivamente, elas irão compor o seu roteiro inteiro. Eu sugiro que você use o lado pautado de suas fichas para escrever suas anotações, fazer diagramas e resumir a cena inteira. No outro lado — o lado branco — escreva um cabeçalho de cena (slugline) curto — ou uma descrição da cena em duas frases.

(N.T.: As fichas aqui no Brasil costumam ter os dois lados pautados ou os dois lados lisos. Nos EUA deve ser comum as fichas terem um dos lados pautado e o outro sem pautas).

Fichas do nº 11 ao 20: O Primeiro Ato

Nestas 10 fichas de cenas, você irá preparar o primeiro ato de seu roteiro. O primeiro ato confronta o seu herói com o problema dramático ou crise. Você certamente deve ser criativo no modo como escreve o primeiro ato, mas ele deveria completar cada uma das seguintes tarefas:

1) Apresentar o seu herói. Na maioria dos casos, o herói ou o protagonista é apresentado nas primeiríssimas cenas.

2) Apresentar o seu antagonista. Você pode apresentar o seu vilão em sua própria cena separada, antes dele começar a confrontar o seu herói. Talvez o seu vilão seja um valentão de pátio de escola e a sua cena de abertura mostre-o pegando o dinheiro do almoço de algum outro garoto. Talvez ela seja uma chefe odiosa e você a mostre repreendendo severamente a sua assistente pela enésima vez antes da hora do almoço.

3) Apresentar todos os personagens menores e secundários.

4) Mostrar o evento que mudará uma vida. Em uma das primeiras cenas de O Destino Mudou Sua Vida, uma tímida Loretta Lynn é encorajada a cantar num clube do interior. A reação positiva a encoraja a cantar mais e muda a sua vida.

5) Apresentar a crise ao seu público. Mostre a ele quais são os riscos — mesmo se for uma comédia. Em Penetras Bons de Bico, os dedicados fanfarrões, John e Jeremy, vêem a sua amizade e o seu estilo de vida testados quando um deles realmente se apaixona por uma garota.

Fichas do nº 21 ao 40: O Segundo Ato

Estas 20 fichas são as corredeiras de um rio. Elas são as pedras soltas na sua escalada da montanha. O segundo ato é cheio de complicações que ficam cada vez mais difíceis. Existem alguns componentes-chave para o seu segundo ato:

1- Aumente os obstáculos. Primeiro, exploda o carro. Segundo, exploda o prédio. Terceiro, ponha a cidade inteira em perigo.

2- Inclua uma cena que verdadeiramente teste o seu herói. Esta cena é frequentemente o meio de seu filme, e é chamada de “o ponto sem volta”. Rose precisa escolher entre Jack e Cal em Titanic; na metade do filme ela convida Jack para desenhá-la, consequentemente entregando-se a ele.

3- Após o “ponto sem volta”, o conflito entre o protagonista e o antagonista aumenta rapidamente.

4- O segundo ato também é onde os subenredos podem se desenvolver para acrescentar interesse e dimensão à sua história.

Fichas do nº 41 ao 50: O Terceiro Ato

As últimas 10 fichas contêm o terceiro ato. Neste ato os conflitos começam a se resolver. Ainda pode haver batalhas, mas nós sabemos que o nosso herói irá alcançar o seu objetivo. Outras cenas do terceiro ato incluem:

1) Uma olhada no passado. O herói frequentemente olha para trás, para a sua vida antes de sua jornada, para se perguntar “e se”, mas inevitavelmente ele segue em frente.

2) Uma cena final pode mostrar que, apesar do herói não ter um final feliz em sua jornada exterior, a sua jornada interior foi completada. Em Shakespeare Apaixonado, Viola precisa deixar Will para trás. Mas, ao fazer isto, ela deixa os costumes sufocantes da Inglaterra para trás, para começar uma nova vida.

3) A cena final. Apesar de talvez ter sido feita vezes além da conta, a cena final geralmente se passa após a jornada ter sido completada. Nós vemos o nosso herói feliz e satisfeito com a sua nova vida.

Estas 50 fichas podem não representar um roteiro completo, mas elas são um bom ponto de partida para o seu roteiro ou tratamento — e pode ajudá-lo a visualizar melhor o produto final. Afinal de contas, ninguém quer encarar o “Fade In” sozinho.

Por hoje é só. Boa escrita para você e até amanhã!

Usando Fichas Para Planejar a História (1)

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 11:34
Tags: , ,

O artigo de hoje foi escrito por um colaborador anônimo para o site eHow e chama-se “Como Usar Uma Folha de Sequências Para Planejar a História”. Eu traduzi a palavra beat (que tem muitos significados) como sequência, pois foi este o sentido mais aproximado ao que foi usado pelo autor. Eis o artigo:

Não importa se você está escrevendo um roteiro, um romance ou um conto: delinear uma história que funcione e que prenda o público é mais difícil do que parece. Um modo de evitar ficar perdido pelo caminho é traçar um curso planejado através do mundo de sua história com uma folha de sequências. Este artigo irá lhe ajudar a botar ordem no caos de enredos, temas, personagens e cenários, e planejar histórias que funcionem.

Coisas de que você precisará:

— Caneta e papel

— Fichas de papel

— Computador

— Qualquer coisa que lhe permita escrever e rearranjar os elementos de sua história.

Instruções:

Defina Sequência

1- Uma folha de sequências (beat sheet) é simplesmente uma coleção das sequências da história. Beat é uma palavra que é usada de muitas maneiras diferentes no processo de escrita. Aqui nós estamos usando-a para definir um elemento distinto de sua história. É muito parecido com uma cena, apesar de que existem cenas que servem apenas de conecção entre outras cenas, e que podem tranquilamente ficar de lado neste presente estágio. Imagine-se descrevendo um filme para um amigo que não o tenha assistido. Você instintivamente divide a história mais ou menos em sequências (beats) ao fazer isto. Aqui vai um exemplo: Bob chama a polícia e volta ao escritório, mas o lugar foi limpo. A mobília toda se foi, não há ninguém lá, e o zelador do prédio diz que aquilo está vazio há meses. Os policiais acham que Bob só está tentando chamar a atenção, e dizem para ele não incomodá-los novamente. Isto seria uma sequência em sua história. Todos esses elementos — trazer a polícia para o escritório, encontrá-lo vazio, os policiais pensando que Bob está desperdiçando o tempo deles — isso tudo é uma coisa só. Observada como um bloco, ela move a sua história para frente.

2- Trace as suas sequências-chave estruturais. Pegue umas fichas de papel, ou abra um novo arquivo em seu computador, o que quer que você prefira usar, e trace as sequências-chave que irão formar a estrutura de sua história. Uma das coisas bacanas em relação à folha de sequências é que você não precisa fazer as coisas na ordem. Ao mesmo tempo, você quer alguns limites para não ficar só jogando aleatoriamente as coisas no papel. Existem cinco sequências-chave para se começar:

[N.T.: Até o final deste item nº 2 há spoilers do filme Guerra Nas Estrelas (Star Wars, 1977)]

Incidente Propulsor: O evento que inicia a história. Em Guerra Nas Estrelas, isto acontece quando a história entra na vida de Luke. Ele vê a mensagem da Princesa Leia.

Ponto de Virada do Primeiro Ato: Este é o momento em que o herói deixa o seu velho mundo para trás para entrar no mundo da história. Em Guerra Nas Estrelas, o império assassina a família de Luke, ele deixa para trás tudo o que conhece e parte com Obi-Wan Kenobi.

Ponto Central: O meio da história. Isto aumenta as apostas e geralmente muda o objetivo do herói. Em Guerra Nas Estrelas, isso acontece quando os nossos heróis se encontram presos na Estrela da Morte. Antes disso eles estavam apenas tentando levar os planos para os rebeldes, e encontrar a Princesa Leia. Agora eles estão num sério perigo e o seu objetivo é escaparem com vida.

Ponto de Virada do Segundo Ato: Esta cena é o oposto de seu clímax. Se você for ter um final feliz, o ponto de virada do segundo ato é uma notícia ruim. Do mesmo modo, se o seu herói for fracassar, o ponto de virada do segundo ato é quando parece que ele vai conseguir. Em Guerra Nas Estrelas, é a morte de Obi-Wan Kenobi. Como Luke conseguirá ser bem-sucedido por conta própria, sem o seu mentor? Tudo parece perdido.

Clímax: Este é o final dramático da história. Apesar de poder ainda haver algumas coisas para serem resolvidas em seguida, é para este ponto que a história estava se dirigindo. Em Guerra Nas Estrelas, é onde Luke explode a Estrela da Morte e salva o dia.

3- Agora que você tem traçado o esqueleto básico de sua história, você pode botar alguma carne sobre os ossos. Você precisa acrescentar sequências para ligar esses elementos. Com esta parte de sua folha de sequências já feita, você pode se focar em um segmento por vez. Por exemplo, o que acontece entre o incidente propulsor e o final do primeiro ato? Você tem a sequência do começo e a do final daquela parte de sua história. Tudo o que você precisa é descobrir como o seu herói irá de uma para a outra. Comece escrevendo sequências. Você pode deixar a sua imaginação correr solta nesta altura — você irá consertar mais tarde qualquer coisa que não esteja correta. Continue fazendo isto até que tenha levado o seu herói do começo ao final e tenha uma versão básica de sua folha de sequências.

4- Conte as sequências. Se você tiver todas as sequências do começo ao final, você pode se afastar e ver o quadro geral. A primeira coisa a se notar são as proporções de sua história. A folha de sequências deveria simplesmente “parecer” correta. A cena do ponto central deveria estar no meio, é claro. E o primeiro e o segundo pontos de virada deveriam ter aproximadamente a mesma distância do ponto central. Idealmente, o ponto de virada do  primeiro ato deveria estar a cerca de um quarto do início da história, e o ponto de virada do segundo ato, a cerca de três quartos do começo. Em outras palavras, estas três sequências dividem a sua história em quatro segmentos aproximadamente iguais. Você não precisa ser preciso em demasia quanto a isto, mas se você tiver um segundo ato muito curto, e um terceiro ato realmente longo, você pode querer dar uma revisada nisso.

5- Baseado na sua visão geral feita no Passo 4, acrescente novas sequências, abandone aquelas que parecerem desnecessárias, rearranje as sequências, mova-as de um ato para o próximo. A sua folha de sequências deve ser uma ferramenta de trabalho. Use-a como um guia quando estiver escrevendo, e deixe-a evoluir enquanto você faz escolhas criativas e fica mais familiarizado com o modo que a sua história está funcionando. Uma folha de sequências feita corretamente nunca está escrita em pedra. Mas, ao mesmo tempo, ela pode ajudá-lo a decidir o que você precisa fazer a seguir, e lhe dar a certeza de que a sua história está no caminho certo.

Dicas e Avisos:

Se você quiser ser caprichoso, pode usar fichas de papel coloridas para indicar coisas tipo de qual personagem é o ponto de vista em determinada sequência. Então você pode distribuir as fichas e ver um mapa visual de como essas escolhas se apresentam na sua história.

Ainda hoje eu postarei um outro artigo que complementará este aqui. Boa escrita para você e até logo!

26/02/2010

Como Dirigir Um Curta-Metragem (3)

Filed under: Direção,Fotografia,Roteiro,Som — valeriaolivetti @ 22:33
Tags: , , , ,

O artigo de hoje é um bom complemento ao de ontem. Este aqui foi escrito pelo usuário romian1 para o site eHow, e chama-se Como Produzir Filmes de Curta-Metragem:

Você está interessado em fazer filmes por conta própria? Isto é possível com curtas. Criar um filme de longa-metragem exige o trabalho de muitas pessoas e muito dinheiro. Um curta é muito mais barato de se fazer. Aqui vai como produzir e dirigir um filme de curta-metragem.

Instruções:

1- Entenda que não há uma definição padrão para a duração de um curta-metragem. Algumas definições determinam que durem entre 20 e 40 minutos, enquanto outras dizem que devem durar de 1 a 15 minutos. O que é certo é que produzir um filme com mais de 40 minutos irá tomar mais tempo e dinheiro. Se você quiser fazer um filme de 40 minutos, você deve ser capaz de editá-lo, caso queira qualificá-lo para um concurso ou festival de cinema que exija um filme de até 15 minutos.

2- Arranje um diploma de uma faculdade ou de um curso técnico qualquer. Os custos de fazer um filme dependem do esforço que você está disposto a dedicar a ele. Um filme de 3 minutos de você falando sozinho pode não lhe custar nada. Um curta de 15 minutos com muitos atores, dublês, muita ação e efeitos especiais pode lhe levar à falência. Você precisará de uma renda para se sustentar e conseguir todo o equipamento e ferramentas necessárias para se fazer um filme. Ser rico ou conhecer alguém rico irá ajudar, mas muitas pessoas não têm tal sorte.

3- Viva a vida ao máximo. Se você for um cineasta pobre, trabalhar e ter uma vida irá lhe permitir acumular ideias e inspiração para fazer boas histórias: de ficção e de não-ficção.

4- Planeje o modo como você irá fazer o seu filme, baseado no roteiro. Algum talento ou programa de gerenciamento irá ajudar, porque há muitas coisas a serem levadas em consideração. Cada coisa dessas exigirá dinheiro. Abaixo estão ideias sobre as maiores áreas a serem consideradas.

5- Escreva ou arranje um bom roteiro. Este é um importantíssimo ponto de partida. Sem uma boa história para comunicar em filme, ninguém se interessará em assistir o seu curta. O modelo ou formato padrão de roteiro pode ser encontrado na Internet. Você pode simplesmente escrever a história sem nenhum tipo de estrutura e colocar o conto em formato de roteiro mais tarde.

6- Alugue ou compre um equipamento de vídeo digital ou câmera de cinema. Você pode comprar ou pegar emprestado uma câmera digital ou uma câmera de vídeo modesta que custe menos de duzentos dólares, ou você pode comprar equipamento de vídeo ou de filme que pode custar cerca de milhares ou dezenas de milhares de dólares.

7- Arranje atores. A sua família talvez seja o melhor trabalho escravo para você. Amigos talvez exijam apenas cerveja e pizza. Você pode ter a sorte de encontrar um ator amador ou profissional que aceite trabalhar como voluntário. Atores esperam ser pagos, e os preços podem ser altos, mesmo em relação a dubladores.

8- Arranje um computador com um processador ponta de linha ou de qualidade mediana para a edição de vídeo. Programas de edição de vídeo trabalham bem nessas máquinas. Eles rodam com lentidão extrema, ou nem funcionam, em computadores baratos.

9- Compre um programa ou um equipamento de edição de vídeo. O Windows Movie Maker vem grátis com as versões do Microsoft Windows lançadas de 2000 para cá. Outros programas podem custar entre 20 dólares e centenas de dólares. Equipamento de edição de cinema pode bater na casa dos milhares.

10- Crie músicas originais. Ter talento musical vem bem a calhar. Pode ser uma dificuldade conseguir permissão oficial para usar as músicas de outro artista em seu filme, e ter de repartir todos os lucros. Mesmo se você estiver fazendo um filme que não pretende vender, usar a música de outra pessoa pode lhe trazer problemas.

11- Produza sons originais. Trate o som como você trataria a música. Acredite ou não, se você usar o som de outra pessoa em seu filme sem permissão, pode acabar enfrentando problemas judiciais.

(N.T.: Existem sites que oferecem efeitos sonoros grátis, sem que seja preciso pagar pelos direitos autorais. Sons de água corrente, trovões, porta rangendo, pássaros, passos no assoalho, e tudo o mais que você imaginar, eles têm. São milhares de opções à disposição. Alguns vendem os CDs com os efeitos sonoros, mas estes podem ser usados em seu filme sem pagar nada a mais. Abaixo estão os links de 4 sites deste tipo que eu encontrei. Se você der uma pequisada no Google, achará muitos outros).

Soundsnap.com

PacDV Free Sound Effects

A1 Free Sound Effects

Partners In Rhyme

12- Fazer o upload de seu curta em sites como o YouTube ou Revver é fácil. Já vender DVDs em quantidades que cheguem a centenas de cópias é mais difícil, pois gravar DVDs consome muito tempo, mesmo em pouca quantidade. Você precisará de DVDs virgens, caixas de DVD, um aparelho para copiar os DVDs, precisará imprimir as capas das caixas e de uma máquina para colocar os rótulos nos discos. Esses itens irão lhe custar muito dinheiro quando você somar tudo.

13- Determine as locações. Usar uma casa ou jardim que lhe pertença, ou a alguém que você conhece, irá lhe economizar uma grana. Se você for filmar em áreas públicas, talvez precise arrumar uma permissão.

14- (Opcional) Construa os cenários e arranje os figurinos. Se você for criar os acessórios e o material de cena, você precisará de capital. O mesmo se aplica aos figurinos.

15- Decida como você irá promover ou fazer propaganda de seu filme. A propaganda boca-a-boca é barata, mas se você quer espalhar a notícia para todo mundo, terá que pagar caro por qualquer tipo de anúncio. Mesmo se você mesmo criar um site para promover o seu filme, ainda irá levar um tempo para aprender e ser capaz de fazer um bom website. Ter um bom computador ou conhecimentos de tecnologia da informação será útil nessa situação.

16- Se você utiliza Withoutabox para distribuir e promover o seu filme, você terá de gastar tempo empacotando e enviando o seu curta para festivais nos EUA e no mundo afora. Custa uma grana enviar e inscrever o seu filme para ser exibido em um festival. Se acabarem não exibindo o seu filme, você não receberá o seu dinheiro de volta.

17- Desenvolva um storyboard. Você precisará desenhar a história para planejar visualmente como cada cena será filmada. Isto lhe dará ideias de como dirigir como a câmera deve operar (fazer uma panorâmica, um tilt, um zoom etc.) e como você deverá dirigir a interpretação dos atores.

(N.T.: Um tilt é uma panorâmica na vertical, semelhante a balançar a cabeça afirmativamente, só que com a câmera. O movimento pode ser só de cima para baixo — tilt down — ou apenas de baixo para cima — tilt up).

18- Comece a rodar. Quanto mais filme, melhor. Se você tiver múltiplos ângulos e tomadas extras, você terá mais opções de cenas para juntar à edição. Você não precisa filmar as cenas na ordem em que estão no roteiro.

19- Junte tudo. Isto pode consumir bastante tempo. Com um programa de edição de vídeo, botar as diferentes cenas numa ordem que você goste pode ser como montar um quebra-cabeças. Em edição, menos é mais. Se há partes do filme que não acrescentam nada à história, você tem de cortá-las. Se a voz não estiver sincronizada com os movimentos da boca por algum motivo, mudar a posição da trilha sonora pode lhe causar pesadelos. Adicionar som e efeitos especiais irão consumir tempo.

20- Acrescente música. Se você for fazer isto por último, botar a trilha sonora significa que você está perto de finalizar o seu projeto de filme de curta-metragem. Entretanto, esta tarefa também consome bastante tempo. Se você for fazer music loops (N.T.: Trechos de música que se repetem, artifício muito utilizado na música eletrônica), você precisará cortar o som para encaixá-lo na cena. O som deve aumentar gradualmente (fade in) se  a música for cortada no começo, e diminuir gradualmente (fade out), se ela for cortada no final, caso contrário ela passará a sensação de um corte brusco.

21- Esteja preparado para coisas maiores. Faça filmes de curta-metragem por amor à arte, não pelo dinheiro. Se as pessoas se interessarem pelos temas de seus curtas, algum dia o pessoal da indústria cinematográfica pode querer que você trabalhe no próximo projeto de longa-metragem deles.

Visite o site d1 Tempo Digital que tem dicas de movimentos de câmera, planos, cenas e toda essa parte técnica e de linguagem cinematográfica. É imprescindível estudar isso se você pretende rodar um filme!

Boa escrita para você e até amanhã, quando voltarei com mais dicas! Inté!

25/02/2010

Como Dirigir Um Curta-Metragem (2)

Filed under: Direção,Fotografia,Roteiro — valeriaolivetti @ 20:19
Tags: , , ,

O artigo de hoje foi escrito por vários colaboradores para o site WikiHow, e chama-se Como Fazer um Filme de Curta-Metragem:

Qualquer um pode fazer um curta com a crescente tecnologia disponível para o consumidor comum — e isto não precisa lhe custar nada.

Passos:

1) Escolha o seu equipamento, algo que grave em vídeo. Há muitas opções. Este processo pode lhe tomar meses, ou até anos, mas você precisa continuar procurando. Confira bem se a sua câmera é compatível com o seu aparelho de DVD ou equipamento de edição.

2) Aprenda alguns comandos, e teste o modo como o seu equipamento de gravação funciona. Aprenda como começar e parar de gravar, acelerar para frente, voltar para trás, repetir a cena e qualquer outra coisa que você possa precisar. Guarde os efeitos especiais para o seu segundo ou terceiro projeto.

3) Escolha um assunto — você quer fazer um filme sobre o quê? Lembre-se, você necessitará terminar o projeto. Pense sobre quem, o quê, e onde você gravará. Pense numa ideia básica para uma história. Se você estiver com dificuldades nisso, leia contos para se inspirar.

4) Digite um roteiro. Tenha certeza de desenvolver os seus personagens com diferentes personalidades; o seu filme não será interessante se todo mundo agir e falar do mesmo jeito.

5) Desenhe um storyboard, ilustrando os planos que você planeja usar. Não se preocupe em segui-lo perfeitamente. Um storyboard é apenas um bom meio de botar os seus pensamentos no papel, e um excelente jeito de ver se você consegue comunicar uma ideia “visualmente” ao invés de precisar que os atores comuniquem verbalmente o conceito geral da história. O espectador em primeiro lugar vai ver; em segundo, ouvir.

Com o storyboard conseguimos visualizar os ângulos e os enquadramentos.

As setas indicam os movimentos do personagem e os da câmera

6) Encontre pessoas que não estejam ocupadas, e estejam dispostas a trabalhar duro em seu filme. Providencie comida para a sua equipe. Eles irão agradecer e serão capazes de permanecer no set por mais tempo.

7) Rode o seu filme. Se você quer destacar o seu bicho de estimação, você pode gravá-lo quando ele estiver comendo, dormindo ou brincando, e talvez adicionar alguma música.

8 ) Edite o seu filme. Muitas câmeras fazem uma edição básica, e algumas são capazes de fazer efeitos especiais. Aprenda como editar e juntar cenas de sua filmagem, e acrescentar música ou narração ao seu vídeo. Dê uma checada no manual de sua câmera, ou use um programa de computador como o iMovie para fazer a sua edição final.

9) Você pode gravar DVDs para distribuir cópias para os seus amigos e para concursos. Se o seu filme for digital, você também pode passar a sua edição final para um formato que possa ser enviado por email. Além disso, se o seu filme estiver no formato digital, você pode colocá-lo no YouTube, ou em qualquer outro site de compartilhamento de vídeos. Confira no site os tipos de formato de vídeo para ver se você pode fazer o upload do seu.

Dicas:

– Escreva uma ideia curta do que você quer realizar. Pode ser qualquer coisa entre um parágrafo e um roteiro completo.

– Faça as escolhas de sua produção baseadas em suas necessidades. Se você tem um orçamento pequeno, escolha como tema algo que aconteça ao seu redor todos os dias. Não se esqueça de que você também pode usar fotos e imagens paradas em seu vídeo.

– Lembre-se de sua visão geral enquanto estiver gravando. Não se esqueça de gravar narrações e outros sons como parte integrante de sua filmagem. Você sempre pode usar o vídeo e o áudio independentemente.

– Tenha o cuidado de checar cada ajuste de seu aparelho de gravação enquanto você o opera, ou você pode acabar perdendo a melhor tomada. É uma boa ideia você rever a gravação após cada take (tomada).

– Existem leis contra o uso de imagem de pessoas e de certos lugares sem permissão. Sempre pergunte ao indivíduo, ou ao dono ou administrador de um edifício ou local, se está tudo bem em gravá-lo, e lembre-se de contar a eles para que servirá aquilo. Como proteção adicional, peça-os para assinar uma permissão por escrito.

Coisas de que você precisará:

– Câmera de vídeo e gravador de áudio.

– Atores e atrizes ávidos para trabalhar.

– Um programa de edição e um computador.

– Permissão de seus entrevistados, atores e extras.

– Uma ideia para a sua história.

– Caneta e lápis.

– Cicatrizes falsas feitas com delineadores de olhos nas cores vermelha, azul e preta.

Cicatrizes falsas: uma delícia de se olhar!!

Por hoje é só. Amanhã eu postarei um artigo semelhante a este, mas um pouco mais desenvolvido. Boa escrita e até lá!

24/02/2010

Ato 2 – Conflito! Conflito! Conflito!

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 15:17
Tags: , ,

O artigo de hoje chama-se Ato 2 – É Conflito!, escrito por William C. Martell, do site Script Secrets. Os filmes analisados hoje são o Duro de Matar (Die Hard, 1988), estrelado por Bruce Willis; O Confronto (The One, 2001), com Jet Li; e Constantine (Idem, 2005), com Keanu Reeves.

(Nota: O artigo foi reescrito, portanto a versão que eu imprimi a alguns anos atrás tem um texto meio diferente do atual. Eu juntei as duas versões numa só).

Todo mundo parece ter dificuldade com o Ato 2, mas eu aprendi que a solução para todos os problemas deste ato é simplesmente lembrar para que ele está lá…

A estrutura em 3 Atos tem estado por aí durante uns 2.350 anos (ela não foi inventada por Syd Field) — Aristóteles percebeu que toda história que funcionava seguia um padrão simples:

Ato 1 – Você faz o seu herói subir numa árvore.

Ato 2 – Você joga pedras nele.

Ato 3 – Você o faz descer da árvore.

(Foi assim que o cineasta Billy Wilder descreveu a estrutura em 3 Atos… e o último filme de Wilder foi feito quase uma década antes do livro de Field).

Então…

Ato 1 – Apresenta o conflito.

Ato 2 – É o conflito.

Ato 3 – Resolve o conflito.

O Ato 2 não pode começar até que o conflito envolva totalmente o seu protagonista. Geralmente, num roteiro de ação, o herói atrapalha os planos do vilão. O Ato 2 começa quando o vilão tenta remover o herói do seu caminho — esse é o conflito. O herói e o vilão se enrolam durante o Ato 2, o vilão tentando resolver o seu problema apesar do herói — mas o herói simplesmente continua a ficar em seu caminho.

»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»  COMEÇO DOS SPOILERS  ««««««««««««««««««««««««««««««««««


Em Duro de Matar, o Ato 2 começa quando McClane (Bruce Willis) mata o seu primeiro terrorista… e acaba ficando com os detonadores. Hans (Alan Rickman) PRECISA dos detonadores. Os seus planos serão arruinados se ele não conseguir aqueles detonadores de volta. Então McClane passou de um convidado desgarrado da festa para um PROBLEMA MAIOR para Hans. McClane está bem no caminho dos planos de Hans — não há nenhum modo de escapar — é como se fosse um trem de carga correndo direto em sua direção a 145 km/h. Agora Hans manda os caras saírem para encontrar McClane e pegarem os detonadores de volta.

O Ato 2 é um perigoso jogo de esconde-esconde, com duelos de metralhadoras quando McClane e os bandidos se cruzam no caminho. Conflito, conflito, conflito!

Em O Confronto, Jet Li se defende de… Jet Li, em uma luta até a morte. Apenas um pode sobreviver. O Ato Dois é sobre uma versão de Li tentando se proteger, e à sua esposa, de uma versão insana, em ação para se tornar um deus ao assassinar todas as versões alternativas de si mesmo. Ambos estão presos aqui em nosso mundo. Sem escapatória! Conflito! Conflito! Conflito!

Keanu Reeves é o cara mais sortudo de Hollywood… ou o mais esperto. Enquanto outras estrelas decidem não fazer filmes carregados de efeitos especiais em favor de um material mais realista ou mais dramático, Reeves acabou estrelando em filmes-pipoca de ação como Velocidade Máxima (Speed, 1994), Matrix (The Matrix, 1999) e Constantine. Este último é baseado nas graphic novels HellBlazer, sobre o caçador de demônios John Constantine — rejeitado tanto pelo céu quanto pelo inferno — fadado a vagar pelas ruas de (Londres ou) Los Angeles, mantendo o equilíbrio entre o bem e o mal. Quando a série de filmes Matrix estava caminhando para o fim, a Warner Bros. começou a procurar por uma nova franquia para Keanu. Oras, até eu fui chamado para tentar vender as minhas idéias. Constantine era a resposta — um filme noir sobrenatural arrojado que parecia ter todos os elementos… mas ainda assim parecia ficar desinteressante no meio.

O filme abre com uma cena bacana de exorcismo, onde Constantine (Keanu) captura o demônio em um espelho, e então quebra o espelho (e o demônio) em um milhão de pedaços. Nós então somos apresentados à história — uma mulher com poderes psíquicos salta do telhado de um hospital. A sua irmã gêmea — uma detetive do Departamento de Polícia de Los Angeles (Rachel Weisz — que também sempre acaba em filmes pipoca de sucesso), acha que a sua irmã foi assassinada. A Detetive Dodson e Constantine têm sempre os seus caminhos se cruzando — na cena do crime, no escritório do Cardeal (ela está tentando dar à sua irmã um enterro católico; ele tem um encontro com o anjo Gabriel), e em outra cena de crime, onde o companheiro exorcista e alcoólatra de Constantine é morto. Eventualmente ela decide ir até Constantine pedir a sua ajuda… e ele recusa. Em algum momento ele decide ajudá-la, e ela admite que era médium quando criança, mas reprimiu este dom quando viu quanta dor isto trouxe à sua irmã gêmea. Num certo momento ela decide que precisa ver os demônios que andam entre nós, e Constantine realiza a cerimônia. Enquanto isso, coisas estranhas estão acontecendo — demônios estão zanzando pela Rua Figueroua, o céu está enegrecido por demônios voando, e um cara é morto em uma pista de boliche. Apesar de a maior parte disso ser bem normal em Los Angeles, Constantine acha que tem algo de errado a nível cósmico. Alguns demônios estão quebrando as regras. Eventualmente ocorre uma grande batalha entre Constantine e o poder mais alto por trás de tudo isso… mas esta batalha só acontece no finalzinho do filme.

Até lá, temos um montão de ótimos efeitos especiais, niilismo (N.T.: “Total e absoluto espírito destrutivo, em relação ao mundo circundante e ao próprio eu”) e noir… mas pouco conflito real. Claro, o exorcista alcoólatra é assassinado, e tem o cara na pista de boliche… mas estes conflitos não envolvem o Constantine num nível físico. Coisas ruins acontecem com os seus amigos, coisas ruins acontecem com a Detetive… mas Constantine ainda é um espectador da história. Não há nenhuma luta de fato no Ato 2… e é por isso que o filme parece se arrastar. Tudo o que acontece é periférico a Constantine. Ainda estão apresentando o conflito entre Constantine e o antagonista… e as coisas que apresentam o conflito são material do ATO UM. O ATO DOIS é a luta — o conflito — entre o protagonista e o antagonista (ou a força antagonista). Mas o conflito não envolve Constantine até o final do filme — no ATO TRÊS. Então o meio do filme parece um pouco frio e não-envolvente. É ótimo de se olhar, mas na maior parte não é tão excitante quanto deveria ser.

O Ato Dois não pode começar até que o protagonista esteja PRESO no conflito com o antagonista. O Ato Dois é o ato do conflito — é todo luta. O protagonista e o antagonista aprisionados no conflito. O Ato Dois é o conflito… e Constantine não fica realmente preso no conflito antes do final. Tudo o que acontece até aí é Ato Um.

»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»  FIM DOS SPOILERS  ««««««««««««««««««««««««««««««««««

Eu sugiro que você pegue os seus 3 filmes favoritos. Assista-os e tome notas. Use o relógio do seu aparelho de DVD para conferir o momento em que as coisas acontecem.

Em algum lugar deste site (Script Secrets.net) eu tenho alguns filmes divididos em segmentos de 5 minutos — eu digo o que acontece em cada 5 minutos. Eu acho que eu tenho O Exterminador do Futuro 2 (Terminator 2: Judgment Day, 1991) e 48 Horas (48 Hours, 1982). Com o tempo eu colocarei mais alguns. Eu desmembro os filmes desse modo para ver como eles funcionam — para dar uma olhada no ritmo e na estrutura. Se você fizer isso com filmes semelhantes ao que você está escrevendo, poderá ver como outros escritores lidaram com os seus segundos atos e como esses Ato 2 funcionaram.

Lembre-se — o Ato 2 é CONFLITO. Se o protagonista não está totalmente envolvido no conflito, você ainda não está no Ato 2. Eu já li roteiros que só chegaram no Ato 2 na página 70! Você deve chegar no conflito por volta da página 30. Talvez na 25, ou na 35… mas não na página 70!

Por hoje é só. Desejo uma escrita cheia de conflitos para você (só nas suas histórias, claro! ;-)). Inté!!

Próxima Página »

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: