Dicas de Roteiro

31/01/2010

Organização

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 01:00

Preciso confessar um segredo: Sou compulsiva por organização quando se trata de escrever roteiros. Eu já testei várias maneiras de me organizar, verti suor e lágrimas até descobrir a melhor para mim, e descreverei todas aqui, pode ser que alguma delas seja de utilidade para você.

O INFERNO DA BIBLIOTECÁRIA

Galinha: Esses livros não estão em ordem alfabética!

Galinha-capeta: E eles nunca estarão!

Em primeiro lugar, eu costumava fazer todas as minhas anotações no computador. Isto realmente não funcionou para mim, por várias razões:

1- Se você tem um super laptop sempre à mão, esta dica pode ser inútil para você. Já eu, como muitos por aí, tenho apenas um computador para a família toda. Portanto, nem sempre ele está disponível para o meu uso. E quando as ideias surgem, devemos anotá-las imediatamente. Já perdi várias delas ao deixar para anotar “daqui a pouquinho”. Quando o “daqui a pouco” chegava, já era tarde demais, eu já tinha esquecido tudo, ou de muitos detalhes. Por isso tenho sempre cadernos, cadernetas, agenda, ou bloquinhos à mão. Fiquei traumatizada! (Ah, se eu tivesse um iPad! E cadê o dinheiro?!)

2- Se o computador está desligado e você está ocupado com outras coisas e tem a ideia para uma simples fala de diálogo, interromper o que você está fazendo e ligar o computador só para inserir aquela frase no roteiro dá uma canseira danada e às vezes não dá realmente para interromper as suas outras atividades. Aí você acaba deixando para “daqui a pouquinho”. Nem preciso dizer que perdi um monte de diálogos interessantes por causa disso. Fiquei traumatizada! (Ah, se eu tivesse um iPad!)

3- Já aconteceu uma vez de eu quase perder tudo. O computador deu pau e precisou ser formatado. Graças a Deus eu tinha salvo um backup num disquete (sim, sou jurássica!). Acontece que, quando eu fui abrir o desgramado do disquete, ele também deu pau! E só não fiquei com aquela patética cara de tacho de quem perdeu tudo porque eu havia imprimido todos os roteiros antes. Aliás, SEMPRE IMPRIMA TUDO.  Não confie em disquetes, discos rígidos, CDs, DVDs, pen drives ou o escambau a quatro. Vai que todos os computadores se rebelem contra a Humanidade e o mundo entre em parafuso. Você nunca mais poderá ler aquele seu roteiro-emocionante-que-poderia-ter-virado-filme para alegrar os desamparados sobreviventes! Por isso, garanta-se, imprimindo tudo!

4- Como eu disse, eu escrevia tudo no computador, desde as primeiras ideias. Acontece que a maioria dos escritores, eu inclusive, não tem um método de trabalho linear. Hoje a gente tem uma ideia fantástica, amanhã a gente acha tudo uma bobagem e reescreve de outra forma, no dia seguinte a gente decide que a primeira ideia é que era realmente fantástica, onde a gente estava com a cabeça de pensar o contrário, e por aí vai. Quando eu fazia isso no computador, eu perdia todas as primeiras anotações. Eu apagava e reescrevia, e me arrependia amargamente nos dias seguintes. Com papel isso não acontece (a não ser que você jogue tudo fora). Quando eu risco algum texto, posso voltar a lê-lo, ele não se perdeu para sempre. É claro que você pode escrever no computador sem apagar as anotações anteriores, mas eu acho mais organizado no papel mesmo.

Eu gosto de escrever no papel primeiro, não apenas os argumentos, mas a primeira versão do roteiro também, e depois passo tudo à limpo no computador. As versões posteriores eu corrijo no roteiro impresso ou direto no computador e imprimo cada versão terminada.

Eu costumava escrever os roteiros em blocos de papel com folhas grandes. Não funcionou muito. Sabe quando você usa o bloco de um lado, vira a página e escreve atrás? Eu sempre escrevia a página da frente de cima para baixo, e a página de trás de baixo para cima (deu para entender?). O fato é que a frente e o verso estavam escritas em direções opostas, e, depois de arrancadas, era terrível para fazer revisões (é, eu sei, a solução simples seria a idiossincrática aqui prestar mais atenção e escrever tudo num sentido só, mas na hora da inspiração a gente escreve do modo mais confortável possível, não dá para se desconcentrar por causa disso).

Por este motivo eu passei para os cadernos. Mas também não funcionou muito bem. Às vezes você já está com o caderno cheio e quer acrescentar uma cena no meio de outra, ou acrescentar algo a uma cena já pronta, e não dá mais para escrever nada ali. Então eu usava adesivos post-its. Mas isso não dava certo com grandes cenas, e o meu caderno ficava parecendo festa junina, cheio de bandeirinhas. Passei, portanto, a escrever num novo caderno. Mas aí surgia uma nova ideia para desenvolver. E eu colocava neste caderno já começado. E voltava para o roteiro anterior. E tinha uma nova ideia para a outra história. No fim das contas ficava tudo uma confusão dos diabos, ideias e cenas desencontradas de roteiros diferentes (eu não ia começar um caderno novo a cada pequenina ideia que tivesse) e uma pilha de cadernos totalmente desorganizados. Até eu achar a cena ou diálogo que eu queria corrigir, era um suplício!

A solução que eu tive foram as folhas soltas. Mas elas se perdiam, voavam, caíam no chão e desorganizavam tudo, até eu conseguir encontrar a ordem em que estavam, era uma tortura (eu tô falando, o que eu já sofri nessa vida…!).

Enfim, encontrei a solução: FICHÁRIOS! (Demorou para cair a ficha!). Ufa!

Com os fichários eu escrevo tanto em cadernos (aqueles que já vem com furos), quanto em folhas soltas (refis para fichários), ou até, se eu me aventurar, em blocos (também já furados); como eu quiser. E é muito fácil acrescentar cenas, é só inserir a(s) folha(s) no lugar certo. Muito fácil, prático e organizado! Existem muitos modelos de fichários (e de cadernos com furos, e de folhas decoradas para eles). Tem os masculinos, os universitários, os fofinhos e os femininos (que também podem ser fofinhos).

Eu uso dois fichários: um para o roteiro que estou escrevendo no momento, e outro com ideias para desenvolver, ou roteiros inacabados. Tome cuidado ao comprar o seu fichário, uma vez eu comprei um importado dos EUA e acabei jogando ele de lado: os americanos usam fichários de três argolas, e é difícil achar refis para eles (vide o exemplo abaixo, e este é brasileiro mesmo! Talvez seja produto para exportação). Dê preferência aos de 4 argolas, é o mais comum aqui no Brasil.

Então você já escreveu o seu roteiro, já o imprimiu e quer passar para o próximo. O que fazer a seguir? Você pode guardar o seu manuscrito numa pasta com clipe ou com prendedor tipo romeu-e-julieta (vide abaixo). Eu prefiro usar os prendedores soltos mesmo, sem a pasta. São baratinhos, dá para comprar um saco com 50 deles de uma vez, ou avulsos, na papelaria. Existem esses prendedores de plástico e de metal. NUNCA use prendedores, clipes ou pastas com metal. Em pouquíssimos anos estará tudo enferrujado, e suas páginas, todas manchadas. Plástico é mais seguro e garantido.

Agora junte seu manuscrito com o seu roteiro impresso em uma pasta. Pode ser uma pasta fina comum ou uma tipo sanfona, onde cada divisória guardará um roteiro. Conheço gente que prefere pastas suspensas. Também fica legal e organizado. Se você utiliza o sistema de cartões para organizar as suas cenas, guarde-os num envelope junto com o manuscrito e o roteiro. De preferência, guarde um CD com uma cópia do roteiro também. Deixe o seu pen drive para o dia-a-dia (backups, backups, faça muitos backups! Vários escritores já perderam suas obras quase acabadas por falta de backup. O Jô Soares passou por isso e agora salva suas obras em 5 mídias diferentes para se garantir!).

Bom, você já organizou o seu material de escrita. Agora precisa organizar a sua área de trabalho.Tenha uma mesa limpa, um ambiente bem iluminado e arejado para trabalhar. Pense na sua saúde a longo prazo. Você passará anos escrevendo e precisa de um cantinho tranquilo e organizado para que suas ideias fluam com naturalidade. Evite a todo custo um ambiente assim:

Ou assim (Deus me livre!):

Eu sei, eu sei, os jornais, revistas, livros, DVDs, roteiros, e as páginas impressas da Internet se acumulam sem que a gente nem perceba. Por isso defina um dia por mês para fazer uma boa faxina, separar o que você não está lendo ou usando no momento, e liberar a área de trabalho. Garanto-lhe que você se sentirá bastante aliviado.

O ideal é você arrumar a sua mesa, mas se você não tiver talento nenhum para isso, pode comprar a utilíssima Push Table, mesa criada pela designer Jennifer Hing:

Ela deve servir bem, pelo menos até os bagulhos acumulados desabarem numa avalanche sobre o chão.


Uma mesa atravancada é um sinal de uma mente atravancada. Ou de um braço fraco.

Mas existem exceções. A escritora J. K. Rowling é uma desorganizada assumida. Ela gostava de escrever em blocos, sentada num pub e bebendo uma xícara de chá ou café (quase todos os seus manuscritos têm uma mancha marrom com a forma do fundo da xícara!). Agora, após a fama, ela tem de escrever em casa mesmo, e sua mesa é uma zona!

Ela mostrou num programa as anotações antigas que fez para a série de livros Harry Potter: estavam guardadas em várias caixas, maçarocadas de qualquer jeito, sem nenhuma ordem. Ela disse que ia até as caixas, puxava alguns papéis, se inspirava para escrever e devolvia o papel à maçaroca. Ela, como alguns escritores polivalentes, não apenas escrevia, mas desenhava o que lhe vinha à mente. Por isso seus papéis tinham de tudo o que se imagina.

J. K. Rowling, seu desenho original e o livro baseado no manuscrito leiloado

Mas ela também capricha quando quer. Após terminar de escrever a série Potter, ela fez cinco volumes manuscritos para presentear as quatro pessoas que mais a incentivaram no começo de sua carreira. O quinto livro foi leiloado, comprado por uma editora, e os lucros do leilão foram para caridade. Chama-se Os Contos de Beedle, O Bardo. Os desenhos são dela mesma:

Os Contos de Beedle, O Bardo original, que foi leiloado

Para que a J. K. Rowling não se sinta humilhada (até parece!), eis a bagunça do escritório do Al Gore:

Computador com três telas, heim? Nem tô com inveja.

Já que mostrei muitas fotos de escritórios bagunçados, agora preciso mostrar o ambiente ideal:

Repare que caixas, muitas caixas, ajudam bastante na organização:

E tem mais!

Muito mais!

Você nem precisa ser tão impecável, mas cuide de sua organização com carinho. Encontre a melhor maneira que combine com o seu jeito (mande um comentário dando as suas dicas, compartilhe conosco a sua experiência!).

Com um ambiente organizado você ficará mais confortável e apto a dedicar toda a sua atenção ao seu roteiro.

Boa escrita e excelente organização para você!

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2 Comentários

  1. Este post é muito bom. Gostei.

    Comentário por Emílio Poletto — 29/04/2010 @ 20:05

    • Olá, Emílio!!

      Muito obrigada pelo elogio, e pelo apoio, fico super feliz e isso me dá muita força para continuar, sabe? Fique sempre à vontade para comentar, perguntar, criticar, falar abobrinha em qualquer post e em qualquer parte deste blog, afinal de contas este espaço é para isso mesmo!! A casa é sua!! 😀

      Um super abraço, e até a próxima (estou me recuperando da gripe, logo logo estou de volta!!)
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 01/05/2010 @ 09:41


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