Dicas de Roteiro

28/01/2010

Ernest Lehman – Parte 7

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 20:37

Olá! Esta é a sétima e (ufa!) última parte da tradução livre da longa matéria da edição de junho/julho de 2001 da revista Written By, que reproduz alguns trechos do livro de Ernest Lehman, How The Hell Should I Know? – Tales from my anecdotage (Como Diabos Eu Ia Saber? – Contos de minha senilidade).

Me parece que este livro jamais foi editado, ele não o terminou antes de morrer. Pelo menos procurei na Internet e não encontrei nada. Uma pena, deve ter várias outras situações impagáveis que nunca conheceremos. Mas vamos aos últimos episódios da matéria (hoje tem mais coisas picantes!):

Ernest Lehman

Quem Tem Medo de Virgínia Wolf? (Who’s Afraid of Virginia Woolf?, 1966) foi a minha primeira experiência como produtor (além de também fazer o roteiro), e, por motivos além da minha compreensão, eu tive que ter uma terceira linha de telefone instalada em minha casa.

Batalhando muito para conseguir o ator certo para o papel de George, rasgando lista após lista de atores, de repente eu escutei o novo telefone tocar! O novo telefone! Pela primeiríssima vez! E o instalador tinha acabado de sair!

— “Ernie?” – uma voz brusca.

— “Sim, mas como diabos…”

— “Aqui é Burt Lancaster”. Quase raivoso.

Susan Harrison e Burt Lancaster em Sweet Smell of Sucess

— “Como diabos você conseguiu este número?” – A minha mão tremia.

— “Isso não importa. Eu só quero que você saiba que eu quero ser considerado para o papel no Virgínia Wolf!”

— “Você está brincando, Burt? Eu estou sentado aqui com uma lista, e você está…”

— “Eu quero estar nessa lista!”

— “Burt, você está brincando? É claro que você está nela!”

— “Ainda bem!” – e ele desligou. E a minha mão ainda estava tremendo quando eu adicionei mais um nome à lista.

Ernest Lehman e Elizabeth Taylor

(Nota da Tradutora: Richard Burton, na época casado com Elizabeth Taylor, abocanhou o papel de George).

*****

Ernest Lehman (à direita) dirigindo Richard Benjamin em O Complexo de Portnoy

Eu deveria escrever, produzir e dirigir (pela primeira vez) a versão filmada de O Complexo de Portnoy (Portnoy’s Complaint, 1972) de Philip Roth. Richard Benjamin já tinha sido contratado para representar Portnoy, e eu estava entrevistando atrizes para interpretar a namorada dele, a “Macaca”. Dick Benjamin me suplicou para que eu escolhesse a sua esposa, Paula Prentiss. Eu fui firme ao dizer não; ela não servia para o papel. Ele veio à minha casa e fez mais uma súplica apaixonada. Eu continuei dizendo não. Finalmente chegou o dia da entrevista particular dela. Ela deitou no carpete do meu escritório e gritou que jamais sairia dali até que eu desse a ela o papel. Ela estava soluçando amargamente, desamparadamente, enquanto eu a encaminhava para a porta de saída.

De leste a oeste do país os críticos de cinema denominaram O Complexo de Portnoy O Pior Filme do Ano.

Trinta anos depois, Paula e Dick Benjamin são um dos casais mais bem casados de Hollywood.


Paula Prentiss e Richard Benjamin

*****

Lehman com Gene Kelly e Barbra Streisand no set de Alô, Dolly! – 1968

Escrever e produzir a versão cinematográfica do necessariamente opulento Alô, Dolly! (Hello, Dolly!, 1969), com os justificavelmente caros e extremamente talentosos diretor, coreógrafo, diretor de fotografia, diretor de arte e figurinista, e os sets mais caros da história do cinema, sem esquecer da Barbra Streisand e do Walter Matthaw, e dos 7.000 — note bem, 7.000 extras; em suma: tinha peso suficiente sobre os ombrinhos desta pessoa aqui para causar um colapso nervoso em Fort Knox. Eu aparecia para almoçar todos os dias no restaurante executivo, encarando homens cujo primeiro pensamento ao me ver entrando era, eu tenho certeza, “Quantas centenas de milhares de dólares ele nos custará hoje, para ajudar a acelerar o fim do estúdio?”

Nesta tarde em particular eu chego, como de costume, e o restaurante está abarrotado de gente, com apenas um lugar disponível, como se estivesse à espera de alguém, com um estranho sino de prata sobre a mesa, em frente à cadeira vazia. Quando eu entrei, todos os olhares pareciam se dirigir a mim (todos os olhos estão sempre sobre mim a vida toda, e seus olhares são sempre de reprovação).

Eu sentei e esperei, desconfortável. Os Engravatados, para minha surpresa, estão sorrindo para mim, como um tipo de estranha cordialidade. Eu esperei pela garçonete, dedos batucando constrangidamente na mesa, e esperei, e esperei, e esperei.

— “Onde diabos está a garçonete?”, eu me queixei. “Eu tenho um filme de 20 milhões de dólares lá fora à espera de ser produzido!” (O pequeno figurão e chefe de estúdio) Richard Zanuck, na cabeceira da mesa, diz:

— “Por que você não toca o sino à sua frente?”, ele aponta.

— “Ah, o sino? Eu nunca vi este sino aqui antes”. Eu o peguei e o badalei como se toda a 20th Century Fox estivesse pegando fogo.

Eu estou de costas para a entrada. Por que eu imagino que todos os olhares estão sobre mim, como se o toque daquele sino, o que todos eles obviamente estavam esperando, era mais impactante do que Paul Revere cavalgando?

Subitamente, finalmente, um cardápio me é entregue por trás.

— “Já era tempo! O que você recomenda?”, eu meio que resmunguei.

— “Que tal eu?”, uma doce voz respondeu. (Seria alguém novo?)

— “Olha, eu tenho só uns 11 minutos e um filme de 20 milhões de dólares para fazer” (homem importante na área). “O que você sugere?”

Com ainda mais doçura: “Que tal eu?”

Raivosamente eu comecei a me virar, mas nunca cheguei a fazê-lo porque, com uma graça e rapidez belamente calculados, o corpo de uma jovem nua, com magníficos e fartos seios, pernas compridas e nem um único pedacinho de pano, havia deslizado e deitado em meu colo, ela olhava para mim, enquanto o som estrondoso de gargalhadas estourava, e Richard Zanuck quase explodia de rir. Eu não sabia onde botar os meus olhos, exceto no teto, que era muito baixo, ou nas faces contorcidas ao redor da mesa, ou na coisinha nua, jovem e doce, que sorria para a minha face enrubescida. E eu, com uma das mãos agarrando o cardápio e a outra mão livre apontando para Zanuck, gritava:

— “Que maldito sino, heim!”

E aquela voz, ah, aquela voz! (ah!, aquilo tudo!), murmurando para mim: “Vamos lá, que tal eu?”

Eu baixei os olhos para ela.

Como eu disse, uma de minhas mãos estava livre. Eu joguei o cardápio longe.

Para o inferno com o filme.

*****

Quando eu estava escrevendo o roteiro do último filme de Hitchcock, Trama Macabra (Family Plot,1976), eu nunca visitei o set ou estive nas locações de filmagens. Eu devia estar trabalhando em outra produção noutro lugar. Eu tenho, no entanto, um vívida lembrança que realmente não tem nada a ver com o filme.

Alfred Hitchcock com o elenco de Trama Macabra (no centro, com Barbara Harris)

Hitch não havia aparecido no estúdio por uma semana inteira. Eu havia sido informado de que ele havia escorregado num pequeno tapete em casa, caído, e se machucado.

Quando ele voltou, nós estávamos de pé no meio de seu escritório quando eu expressei a minha felicidade de vê-lo novamente.

Eu disse: “Foi uma queda feia?”

Ele disse: “Olha.”

Eu olhei.

Ele havia baixado suas calças e sua cueca até o chão.

Foi eu que quase caí duro.

*****

É isso aí, pessoal, infelizmente acabou. Espero que tenham se divertido tanto quanto eu. Amanhã continuaremos com assuntos diversos, mas todos relacionados com roteiro.

Um abração, boa escrita e até lá!

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