Dicas de Roteiro

26/01/2010

Ernest Lehman – Parte 5

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 14:43

Olá! Hoje temos mais uma parte da tradução livre da longa matéria da edição de junho/julho de 2001 da revista Written By, que reproduz alguns trechos do livro de Ernest Lehman, How The Hell Should I Know? – Tales from my anecdotage (Como Diabos Eu Ia Saber? – Contos de minha senilidade):


Hitchcock e eu nos fitávamos melancolicamente, sentados na sala de estudos de sua casa, dia após dia, sem ousar informar à diretoria da MGM que nós tínhamos abandonado The Wreck of The Mary Deare (O Naufrágio do Mary Deare) como algo impossível de ser feito, mesmo após o estúdio ter comprado o romance especificamente para Hitch produzir e dirigir e para eu escrever. O quer fazer? O quer fazer no lugar?

(Nota da Tradutora: O filme foi produzido pela MGM em 1959, com o título nacional de O Navio Condenado, dirigido por Michael Anderson e escrito por Eric Ambler, baseado em livro de Hammond Innes).


Uma dúzia de ideias surgiram e foram rejeitadas. Eu tinha meu lápis e meu bloco de folhas amarelas de prontidão, esperando em vão.

“Cê sabe”, Hitch refletiu, “eu sempre quis fazer a mais longa tomada com dolly da História…”. Eu peguei o meu bloco e o lápis, “…filmado em uma fábrica de automóveis em Detroit, onde nós começamos do princípio, quando a primeira peça de um automóvel aparece, e então a próxima, e a próxima, e a próxima, enquanto a câmera na dolly segue ao longo da linha de montagem, até chegarmos ao final, e um carro completo sai andando da linha de produção”, ele fez uma pausa, “e há um cadáver no banco de trás.” Eu amei aquilo. “Não escreva isso. Eu devo usar isso algum dia.” Eu soltei o lápis.

Dolly – Uma câmera montada sobre um carrinho que geralmente corre sobre trilhos, para fazer uma filmagem com movimentação suave.

Nós nos fitamos mais, muito mais, rejeitando as idéias um do outro, uma após a outra, quando Hitch disse, um tanto desejoso, “Cê sabe, eu sempre quis fazer uma perseguição através dos rostos do Monte Rushmore.”

Eu peguei rapidamente o meu lápis. “Não escreva isso”, ele disse. “Eu posso querer usá-lo algum dia.”

Eu não larguei o meu lápis.

Página do manuscrito de Intriga Internacional

*****

Trabalhando como um roteirista em Hollywood ao longo dos anos, vendo e ouvindo e lendo os diretores roubando todo o crédito, e lendo aqueles malditos críticos de Nova York ignorando os meus roteiros a favor dos produtores e diretores que sempre sobem ao palco para receber os Oscars, agradecendo a todo mundo, inclusive aos assistentes dos assistentes de fotografia, mas nunca ao escritor; isso tudo lentamente, gradualmente, inevitavelmente atacou e inflamou não apenas o meu sentimento de injustiça, mas o meu calcanhar de Aquiles de uma vida inteira – uma tendência assustadora e agonizante para um (talvez-seja-câncer) cólon espasmódico.

Por este motivo eu me encontrei banido pelos médicos do hospital para longe de minha esposa e filhos, para deixar tudo o que estava me matando para trás (ou seja, Hollywood). E lá estava eu, sentado numa lancha aberta numa lagoa em direção à Papeete, Taiti, ao final de uma longa viagem, a-primeira-fora-do-país, do Hospital Cedars of Lebanon através da empresa aérea Tasman Empires Airway Limited, passando pela Samoa Ocidental, pelas Ilhas Cook e por Aitutaki, junto com a minha constante preocupação interior: Onde eu estou? Por que estou aqui? Eu conseguirei voltar? O que aconteceu comigo? Estou a caminho do nada no Taiti.

Eu estou na lancha aberta, a 10.000 milhas de tudo, olho para os meus companheiros de viagem, e eles parecem ávidos e à vontade. Que diabos eles têm de errado? Eles não estão cheios de pavor, com uma terrível dor de barriga e no segundo estágio de um colapso nervoso?

Há um cara jovem em seus 30 e poucos anos acompanhado de uma bela mulher, e ambos parecem tão felizes e à vontade enquanto nos aproximamos da costa que eu queria poder sacudi-los e estapeá-los. Eu estou nos primeiros estágios de um comportamento hipermaníaco latente.

Eu me dirigi a eles. – “Por que diabos vocês dois estão tão felizes?”

– “Oi, eu sou Bill”, diz o cara, alegremente.

– “Eu sou Caroline”, diz a garota dele. “Quem é você?”

– “Ernie”, eu respondo.

Acidamente, Bill diz: – “Nós viajamos 10.000 milhas para ficarmos longe de americanos e aqui estamos nós nos aproximando das praias do Taiti com um americano.”

– “Assim é o show business”, eu respondi bruscamente.

– “Oh, você trabalha no show business?”, Caroline pergunta.

– “Sim”, eu digo, “mas você jamais saberia.”

– “Que tipo de trabalho você faz?”, Bill pergunta.

– “Eu sou um roteirista”. Danem-se eles.

Bill me observa longa e atentamente.

– “Ernie… Ernest: Ernest Lehman: Executive Suite… O Rei e Eu… Sabrina… Sweet Smell of Success…

Eu olhei para ele, profundamente admirado. “Quem é você?”

Ele sorri maliciosamente. “William K. Zinsser, crítico de cinema do New York Herald Tribune.”

William K. Zinsser

– “Oh, meu Deus!”

– A minha lista dos 10 Melhores Filmes está em minha mesa esperando ser publicada quando eu voltar para casa, e por favor, não vá virar esta lancha quando eu lhe contar que o seu Somebody Up There Likes Me (Marcado Pela Sarjeta, 1956) está numa posição proeminente da lista, com muito destaque dado ao roteirista, e você merece isso”, ele diz. “Você é daqueles roteiristas que merecem isso.”

Os médicos tinham dito que eu precisaria de dois meses inteiros no Taiti para me recuperar. Eu consegui em três semanas e voltei para Hollywood para começar a trabalhar em outro filme.

O produtor-diretor e eu nunca conseguimos escolher um título de que nós dois gostássemos, então o filme foi finalmente lançado com o meu título provisório: North By Northwest (Intriga Internacional).

Por hoje é só, pessoal, amanhã tem mais (não, ainda não acabou)! Boa escrita e até lá!

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