Dicas de Roteiro

25/01/2010

Ernest Lehman – Parte 4

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 11:48

O episódio de hoje é picante! Para quem está chegando agora, esta é a continuação da tradução livre da longa matéria da edição de junho/julho de 2001 da revista Written By, que reproduz alguns trechos do livro de Ernest Lehman, How The Hell Should I Know? – Tales from my anecdotage (Como Diabos Eu Ia Saber? – Contos de minha senilidade). Vamos a ele:

Ernest Lehman, Harold Hecht, James Hill e Rita Hayworth (com quem foi brevemente casado), e Burt Lancaster

Foi uma época de muita labuta na Produtora Hecht-Hill-Lancaster, em Beverly Hills. Eu estava lutando com a terceira versão de meu roteiro para Sweet Smell of Success. Esgotado como estava, eu fiquei feliz por ter acertado uma, e uma das grandes. Eu tinha apresentado os Três Grandes a uma atriz jovem, sexy e perfeita-para-o-papel chamada Barbara Nichols, para o papel vital de Rita, a garota dos cigarros que seria a chave para o plano de Sidney de destruir Steve Dallas com sexo, uma planta e cigarros de maconha.

Os Malignos estavam excitados. Barbara era relativamente desconhecida e eu, euzinho, eu a tinha encontrado. Ela era um tesouro insubstituível.

Isso foi ontem. Hoje, eu estou lutando com minha máquina de escrever para fazer com que os diálogos sejam vivazes e animados. Você descobriu Rita para eles. Não é o bastante. O roteiro é que é o negócio.

Eu levanto a cabeça. Jim Hill tinha entrado em minha sala sem ser anunciado. Ele parece nervoso, preocupado, esgotado, sem dormir, amedrontado.

— “O que é isso na sua máquina de escrever?”, ele pergunta autoritariamente, um tanto ansioso.

— “O roteiro. O que mais estaria me dando esta dor de barriga?”

— “Arranque isso fora”, ele exigiu. “Isto aqui é mais importante.”

— “O quê? O quê?”

— “Eu quero que você escreva uma carta para ser entregue junto com três dúzias de rosas para Barbara Nichols. Ela deveria vir amanhã para assinar o contrato para fazer o filme. Nós precisamos tê-la. Ela é crucial. Burt vai me matar. Harold vai me despedaçar. ” Ele afundou no sofá, lamuriando-se. Eu lhe servi uma dose dupla de vodca. Ele bebeu num gole só.

— “Conte-me tudo”, eu disse. “E depressa. A florista vai fechar.”

— “Eu levei Barbara para jantar ontem à noite, depois da entrevista”, ele confessou.

— “Você fez isso? Por quê, meu Deus? Você apenas se encontrou com ela?”

— “Eu a levei para o Chasen e nós tomamos mais do que uns poucos drinks, e então nós voltamos para o apartamento dela…”

— “Oh, Jesus! Não me conte!”

— “Eu arranquei as roupas dela. Eu estava a ponto de explodir. Eu disse que estava apaixonado por ela. Joguei nós dois na cama dela e a deixei louca com papo de amor.”

— “Mas ela virá amanhã! Nós precisamos dela! Ela é a Rita perfeita, por Deus! Nós não podemos perdê-la! Não… há… nenhuma… outra!”

— “Eu sei, eu sei.”

Hill gemeu e cobriu seu rosto com as mãos.

— “Eu finalmente disse boa noite e cambaleei escada abaixo. E lá estava esta belíssima ruiva passeando com seu cachorro…”

— “Oh, Jesus! Oh, não!”

— “Eu levei a ruiva para o andar de cima…”

— “Não! Você não fez isso!”

— “Ela mora no apartamento em frente ao de Barbara.”

— “Você não fez isso, Jim! Você não fez!”

— “Nós estávamos na cama (Deus, que transa!), e estávamos fazendo muito barulho, e de repente a porta do apartamento abre de sopetão, e era a Barbara…”

— “O quê?”

— “E a Barbara começou a gritar e soluçar, e bater na minha bunda pelada, e ela estava berrando, “Seu bastardo sujo! Como se atreve? Eu nunca mais quero ver você nem os nojentos dos seus parceiros, nem quero ter nada a ver com a sua bosta de filme! Nunca mais chegue perto de mim, seu bastardo! Nunca mais me ligue! Nem você, nem qualquer dos seus homens terríveis e horrorosos.”

— “Você nos arruinou”, eu resmunguei. “Nós nunca acharemos outra Barbara Nichols! Você arrebentou com tudo, Jim! Estragou tudo!”

De repente, Hill lutou para ficar de pé e apontou para a minha máquina de escrever.

— “Diabos, você é um escritor. Faça isso! Salve-nos. Uma página! Duas páginas! Três dúzias de rosas! Você precisa trazê-la de volta, ou Burt vai me despedaçar com as próprias mãos!”

— “Você quer que eu… ?”

— “Sim! Sim! Eu quero que você escreva uma carta em meu nome para Barbara Nichols, que irá…”

— “Que irá desfazer o desastre que você fez cair sobre nós!”

— “Sim!”, ele gritou. “Sente-se e faça isto agora! Rápido — antes que ela tome pílulas ou algo do tipo!”

Ele cambaleou para fora do meu escritório e me deixou sentado lá com a minha máquina de escrever e com a calamidade que os Dois Outros não tinham ouvido ainda.

Barbara Nichols (atuando com Tony Curtis) em Sweet Smell of Success

Ao longo das décadas em que Sweet Smell se tornou conhecido como um filme clássico e entrou para a Biblioteca do Congresso, Barbara Nichols, pobre querida que já partiu, sempre foi apontada por sua linda performance como Rita, a chapeleira que é usada por Sidney Falco para seduzir o lascivo e curioso colunista Otis Elwell, para quem ela confessa desanimadamente: “Palm Springs. Dois anos atrás. Não conte para o Sidney.”

Agora, não me leve a mal. Deus sabe que eu não posso reclamar de não receber uma vida inteira de reconhecimento pelos roteiros que escrevi. Mas a carta que foi entregue com as rosas e salvou o dia, trazendo a Srta. Nichols de volta…

Aquilo sim era escrita.

Amanhã tem mais um trecho do livro (eu disse que a matéria era loonga, não disse?). Boa escrita pra você hoje e inté!

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