Dicas de Roteiro

24/01/2010

Ernest Lehman – Parte 3

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 13:12

Hoje continuamos a tradução livre da longa matéria da edição de junho/julho de 2001 da revista Written By, que reproduz alguns trechos do livro de Ernest Lehman, How The Hell Should I Know? – Tales from my anecdotage (Como Diabos Eu Ia Saber? – Contos de minha senilidade):

Após uma bem-sucedida carreira em Nova York como um escritor de ficção e de não-ficção para revistas de circulação nacional, eu achei difícil, ao começar a minha carreira como um roteirista de Hollywood, “saber o meu lugar”. No começo dos anos 1950, o “lugar” de um roteirista era, exagerando um pouquinho: “Não fale até que falem com você”, e você pode interpretar esta frase da maneira que quiser e ainda ser surpreendentemente acurado.

John Houseman e Dore Schary

Eu me encontrei de repente em uma situação incrivelmente afortunada: Apesar de nunca ter escrito um roteiro (eu era o cara novo no pedaço), o brilhante, super-inteligente e literato John Houseman (Nota da tradutora: Houseman era um famoso ator, produtor e roteirista na época), produtor de Júlio César (Julius Caesar,1953), Sede de Viver (Lust for Life, 1956), e Assim Estava Escrito (The Bad and The Beautiful, 1952), me pegou emprestado da Paramount Pictures (que havia acabado de me trazer sob contrato, junto com minha família, para a Califórnia), para escrever a sua mais recente produção, “Executive Suite”. Baseado no romance de Cameron Hawley, era para ser o filme-emblema da MGM, de altíssima qualidade e recheado de estrelas. E, graças à recomendação pessoal dada por um amigo meu dos tempos de Nova York, Jud Kinberg, produtor-associado de Houseman, eu me encontrei na Sala 602 do edifício Thalberg trabalhando no meu primeiríssimo roteiro, Executive Suite, enquanto todos os executivos da Metro, do chefe Dore Schary para baixo, esperavam o resultado da aposta de Houseman.

Eu mal dormia. Eu andava pelas ruas de Westwood à noite, pensando, pensando, pensando, lutando com cena após cena de um drama difícil de digerir, cheio de personagens, que deveria ser estrelado por tipos como William Holden, Barbara Stanwyck, Fredric March, June Allyson, Louis Calhern, Nina Foch, Walter Pidgeon, Shelley Winters e Paul Douglas. Eu acho que já deu para entender. O filme seria dos grandes, e eu era pequenininho.


Finalmente, após meses de luta, eu entreguei a minha primeira versão do roteiro, segurei minha respiração, e ouvi sons de contentíssima aprovação vindos de John Houseman, Jud Kinberg e, mais importante de tudo, do chefe do estúdio, Dore Schary. Quando chegou a hora de me dedicar à versão final, eu senti que, talvez, no fim da contas, eu poderia escrever um roteiro.

Barbara Stanwyck e William Holden em Executive Suite

Eu completei aquela versão final, entreguei-a, e John Houseman estava tão satisfeito com ela que ele me chamou em seu escritório e me convidou para ir até o andar de cima conhecer o nosso futuro diretor, Robert Wise.

Robert Wise dirigindo William Holden em Executive Suite

Eu nunca tinha encontrado um diretor antes, e, portanto, eu não tinha nenhuma idéia do que “o escritor” deveria ou não falar na presença do diretor.

Eu me sentei quieto numa cadeira no canto e fiquei escutando enquanto Houseman lentemante avançava pelo roteiro que estava em sua mesa, cena a cena, para o proveito de Wise, exaltando as virtudes de cada cena como se estivesse tentando elevar o nível de entusiasmo do diretor até chegar ao seu próprio. Wise ouvia e concordava, acenando educadamente com a cabeça.

Finalmente Houseman chegou ao que aparentemente era a sua cena favorita, a sua voz se elevando com a exaltação.

Neste exato momento, eu quebrei o silêncio.

“Oh, John”, eu disse casualmente, “não precisa ler esta cena. Eu estou no processo de reescrevê-la.”

Houseman se virou em minha direção, seus olhos fixos e ferozes, sua face enrubescendo com amedrontante ira. Ele fechou o roteiro numa explosão violenta.

“Lehman”, ele gritou com fúria. “Você é um Filisteu atacando o diamante Hope com um machado! Volte para o seu escritório que é o seu lugar!”

Eu rapidamente me levantei e saí correndo pela porta, enquanto Robert Wise educadamente olhava em outra direção.

Não importa que Executive Suite iria quebrar todos os recordes da Radio City Music Hall e entrar em todas as listas dos 10 Melhores Filmes do país.

Pelo menos eu sabia o que significava ser um escritor em Hollywood.

John Houseman e Ernest Lehman

Amanhã tem mais um interessante e pitoresco trecho do livro de Lehman. Não perca! Boa escrita e até lá!

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