Dicas de Roteiro

23/01/2010

Ernest Lehman – parte 2

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 11:58

A seguir está a tradução livre de alguns trechos do livro de Ernest Lehman, How The Hell Should I Know? – Tales from my anecdotage (Como Diabos Eu Ia Saber? – Contos de minha senilidade), retirado da edição de junho/julho de 2001 da revista Written By:

Eu consegui ganhar um diploma de Bacharel em Ciências na CCNY (City College of New York) em cinco anos, mas assim que eu fiquei livre das aulas e de outros tipos de segura reclusão, eu não consegui me jogar no mundo e procurar por um emprego. Eu não suportava a idéia de uma rejeição pessoal. Não eu. Então eu costumava ficar sentado num banco de praça assistindo eles construírem o Henry Hudson Parkway (nota da tradutora: uma ampla avenida arborizada; ver abaixo), pegando um belo bronzeado, e então andar quatro quarteirões de volta para o apartamento dos meus pais (e meu), hibernar em meu quarto, e experimentar ser um escritor de contos e artigos. Rejeições eram suportáveis contanto que fossem impessoais.

******

Ao pesquisar sobre o líder de banda Artie Shaw no Salão de Baile Roseland, eu conheci e me tornei bom amigo de seu agente de imprensa, Sid Garfield, que me contou que Damon Runyon, que ficou mudo por causa de um câncer na boca, parecia estar procurando alguém para ser seu repórter-informante, e este poderia ser eu. Uma reunião excitante foi arranjada por Sid, para nós três nos encontrarmos na 48th Street Tavern. Eu trouxe comigo, em duas mãos trêmulas, os artigos e contos que eu tinha, no decorrer dos anos, conseguido vender para revistas de circulação nacional.

O mundialmente famoso, agora sem língua, criador de livros, artigos, ensaios e personagens lendários da Broadway, olhou atentamente e bem devagar cada uma das páginas de meu patético portfolio, algumas vezes voltando e relendo algo uma segunda vez, enquanto Sid e eu observávamos. Num dado momento, o Sr. Runyon terminou.

Ele pegou seu bloco e caneta, escreveu rapidamente umas poucas palavras, arrancou a página do bloco, e empurrou-a através da mesa em minha direção.

Eu li rápido mas atentamente as palavras, então fiquei de pé e gaguejei: “Muito obrigado, Sr. Runyon. Eu precisava demais disto.”

E eu saí antes que alguém visse as lágrimas em meus olhos.

No trem do metrô, de volta para casa, eu reli as palavras do Sr. Runyon várias vezes.

“Você não quer trabalhar para mim, garoto”, ele havia rabiscado. “Você é um escritor bom demais.”

*****

Quando eu tinha 27 anos, eu arranjei um agente literário chamado Mark Hanna, um homem de cabelos grisalhos, melancólico, elegantemente vestido, na faixa dos 50-e-tantos anos, que era muito mais pitoresco que qualquer das figuras de faz-de-conta que eu estava tentando criar em minha carreira de escritor, tanto que eu me pergunto por que eu nunca tentei nem uma vez “usá-lo” como um personagem em um conto.

Nenhuma reflexão sobre o meu relacionamento com Mark pode deixar de fora um de seus momentos mais peculiares: Eu cheguei um dia em seu escritório com as páginas recém-datilografadas de um conto que eu tinha acabado de terminar. Ele o leu rapidamente em minha presença, então ficou de pé, tirou o clipe de papel, deixou as páginas de minha história caírem na cesta de lixo, e me entregou o clipe, dizendo, “Isto vale alguma coisa.”

Por outro lado, do outro lado desse personagem multifacetado que nos deixou prematuramente, e que foi brilhantemente louvado por Joseph L. Mankiewicz, Mark Hanna foi o orquestrador de um dos episódios alegres mais graciosos de toda a minha carreira, e isso não é pouca coisa.

Eu tinha gasto quase três meses trabalhando no que seria uma desafiante “primeira vez” para mim: uma tentativa de escrever um romance curto (“novelette” ou “novella” para os do ramo). Eu o chamei de The Sweet Smell of Success e deixei-o no escritório de Mark numa segunda-feira, junto com grandes expectativas e alta ansiedade. Naquela época, eu lembro de ter zero dólares no banco, 900 dólares em contas de lojas para pagar em minha escrivaninha, e uma esposa chamada Jacqueline e um poodle francês chamado Muffin para sustentar.

Várias tardes depois, enquanto eu estava sentado em nosso pequeno apartamento com apenas Muffin por companhia, o telefone tocou. Era Mark Hanna.

Calmamente, ele me disse: “Ernie, eu estou no escritório da revista Cosmopolitan, e eu tenho aqui um jovem que gostaria de falar com você.”

“Certo”, eu disse, meu coração e minha mente correndo desenfreados.

“Sr. Lehman?”, o jovem falou.

“Isso”, eu disse.

“Meu nome é Julian Mueller.”

“O que você faz, senhor?”, eu disse.

“Eu sou o editor de ficção da Cosmopolitan. Eu tenho um pedido.”

“Oh?”

“Posso ser o presidente do fã-clube do Ernest Lehman?”

Eu gargalhei alto e feliz.

Que modo maravilhoso de ficar sabendo que eu tinha vendido a minha primeira novelette para a prestigiosa revista.

Amanhã continuaremos com mais trechos do livro de memórias de Lehman. Boa escrita pra você hoje e até lá!

Anúncios

%d blogueiros gostam disto: