Dicas de Roteiro

22/01/2010

Ernest Lehman – Parte 1

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 13:23

Olá! Hoje farei uma tradução livre de uma matéria da revista Written By da WGA (Writer’s Guild of America) de junho/julho de 2001, sobre o grande roteirista americano (e um dos meus favoritos) Ernest Lehman (1915-2005). Ele é autor dos roteiros de alguns clássicos do cinema mundial como Intriga Internacional (North By Northwest, 1959) — o único roteiro original que ele escreveu, todos os outros foram adaptações de livros ou peças de teatro; Amor, Sublime Amor (West Side Story, 1961), Quem Tem Medo de Virgínia Wolf? (Who’s Afraid of Virginia Woolf?, 1966), O Rei e Eu (The King And I, 1956), Sabrina (Idem, 1954, e a primeira versão do roteiro de 1995), A Noviça Rebelde (The Sound Of Music, 1965), entre outros.

Esta é a primeira parte, mas como a matéria é um tanto loonga, não sei dizer quantas partes serão no total. Apesar de longa, é muito interessante, vale a pena acompanhar.

Alfred Hitchcock deve ter ouvido algo em minha voz. “Fique onde está”, disse ele. “Eu vou já praí.”

Eu desliguei e sentei à minha mesa em meu escritório na MGM, sentei lá segurando minha cabeça com as mãos. Deste modo eu não teria que olhar para a página em branco na minha máquina de escrever, com o título North By Northwest (Intriga Internacional) no canto superior esquerdo e o número da página, 126, no canto superior direito. A coisa devia ser tão séria quanto eu temia que fosse. Hitch estava saindo de seu escritório no outro lado do edifício para vir para o meu.

Quando ele se sentou na poltrona de couro de frente para mim, ele disse, “Tudo bem, qual é o problema?”

As palavras literalmente transbordaram de mim (o que é mais do que eu pude dizer para a minha máquina de escrever): “Eu não sei o que fazer, eu deveria ter lhe contado antes, mas a cada dia eu pensava que eu descobriria a saída, eu não escrevo uma palavra há duas semanas, não há terceiro ato e esta é apenas a primeira versão do roteiro e ainda sem terceiro ato porque eu estou travado, eu não tenho a mínima idéia do que escrever a seguir, e Bob Boyle está construindo os cenários e Helen Rose está desenhando vestidos de milhares de dólares para Eva Marie Saint, e Cary Grant vai passar a ganhar um salário de 5.000 dólares por dia na próxima semana, e você tem uma data para começar, você está contratando atores a cada 5 minutos, o estúdio pensa que eu terminei o roteiro e aqui estou eu sentado sem nenhum terceiro ato, sem idéia de para onde a história vai, quem faz o quê para quem a seguir, por duas semanas já e nem uma única palavra, e ele vai ganhar 5.000 dólares por dia enquanto eu sento aqui sem saber o que vem a seguir, é um desastre, Hitch, é um total e completo desastre!”

Ele levantou as mãos com as palmas abertas, e sorriu. “Ernie”, ele disse, falando para uma criancinha pequena, “é apenas um filme.”

— Sobre a Importância das Importâncias Relativas (On The Importance of Relative Importances), por Ernest Lehman

Quando foi lançado em 1959, Intriga Internacional era mais do que um filme, graças à parceria bem ajustada entre o escritor Lehman e o diretor Hitchcock. “Clássico” é uma palavra entre muitos superlativos usados para descrever este suspense de espionagem. Agora, aos 85 anos de idade (Nota: ele faleceu em 2005, aos 89 anos), Lehman irá contar que Hitchcock estava apenas meio brincando. Naquela época Lehman era conhecido por ser um autor de ficção bem sucedido (seus contos Sweet Smell of Sucess — O Doce Cheiro do Sucesso, e The Comedian — O Comediante, também alcançaram status de clássicos) e naquela era, o mundo literário ainda fazia a reputação de um escritor. Para o ramo editorial e teatral de Manhattan escrever roteiros era prostituição. Escritores sérios participavam da corrida pelo ouro de Hollywood, faziam alguma grana fácil e então voltavam para a Costa Leste, e trabalhavam para burilar uma arte inflexível a partir de experiências pessoais. Mas Lehman foi o primeiro autor de ficção bem sucedido a conscientemente perseguir a vida de roteirista como a sua principal vocação. Ele não ficou intimidado pelos negociantes, pelas reuniões e pelos marqueteiros; seu emprego anterior como agente de imprensa em Nova York havia-lhe ensinado tudo o que ele precisava saber sobre as armadilhas da prostituição. Nessa época ele também adquiriu a sabedoria de não solapar a vida nem a psique de uma pessoa.

“Um escritor de comédia geralmente entra no ramo a partir do campo de sua infelicidade pessoal”, ele escreveu no The Comedian. “Incapaz de encarar as realidades amargas de sua própria existência, ele faz piada de tudo na vida. Isto torna-se sua rotina, e por um tempo ele é capaz de transformar isto em dinheiro e em qualquer tipo de felicidade que o dinheiro possa comprar. Mas logo ele é atacado pela consciência de que ele não conseguiu mudar de fato as realidades originais, ainda amargas. É aí que ele se encontra ficando sem novas piadas. Então ele começa a reescrever as suas antigas. E quando ele esgota estas, o que eventualmente acontece, ele começa a reescrever as piadas dos outros, repetindo para si mesmo o velho e falso adágio do show business de que não há nada de novo sob o sol. Finalmente, ele perde até mesmo a habilidade de reescrever as piadas dos outros. Ele passa simplesmente a se apropriar delas e as repete como se fossem suas.”

Em outras palavras, Lehman levou sua escrita muito a sério, mas não a sua personalidade. Ele sabia que o cheiro do sucesso nem sempre era tão doce, e podia deste modo navegar através das traiçoeiras tentações da fama e da fortuna. Ser um superstar literário não importaria se você tivesse o essencial. Ele queria escrever filmes — ponto. Suas ocasionais incursões na direção e na produção apenas fortaleceram a sua vocação primária. Sem a maravilhosa ficção de Lehman, recheada de insights psicológicos e detalhes visuais dignos de um cinegrafista premiado, talvez os roteiros de Lehman nunca tivessem existido.

Em uma carta enviada para a Written By, acompanhada pela antologia de seus contos de ficção, chamada Sweet Smell of Sucess, Lehman reconheceu sua ambição. “O conteúdo do livro em anexo poderia, eu suponho, ser considerado como um exemplo de como um escritor do meio editorial atraiu o convite de um longínquo estúdio de cinema para começar uma carreira fazendo filmes aos 40-e-tantos anos.” E nos trechos a seguir de seu livro não publicado, e ainda incompleto, How The Hell Shoud I Know? (Como Diabos Eu Ia Saber?), o escritor prova a verdade de “é apenas um filme”.
Richard Stayton

Amanhã continuarei com os trechos do livro citado. Boa escrita e até lá!

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