Dicas de Roteiro

19/01/2010

A Jornada do Herói

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 09:13

Aqui vai uma tradução livre do interessante resumo que os autores Robin U. Russin e William Missouri Downs fizeram do trabalho de Joseph Campbell:

Uma das maiores influências sobre a estrutura das histórias em Hollywood, apesar de que isto não tenha sido sua intenção, foi o antropólogo Joseph Campbell. Campbell criou um interesse sem precedentes em mitologia e narração de histórias com seus livros e sua incrivelmente popular série de entrevistas com Bill Moyers na rede de TV PBS. Campbell não era um guru de enredos. Construindo sobre o trabalho do psicólogo suíço Carl G. Jung — que procurava entender os arquétipos universais das histórias e os personagens míticos que pareciam surgir em culturas variadas — Campbell deu um passo à frente ao esboçar um padrão básico e imutável de narração de histórias. Seu livro, O Herói de Mil Faces, detalha como as estruturas de enredo da maioria dos mitos de jornada heróica eram semelhantes não importavam o país, a cultura ou o século de onde vieram. Campbell argumenta que todos os contadores de histórias — dos antigos gregos aos quenianos, dos chineses aos roteiristas de Hollywood — seguem a mesma fórmula básica quando recontam estas histórias heróicas, apesar de suas aparentes infinitas variações. Esta estrutura antiga envolve os doze estágios da Jornada do Herói:

1- O MUNDO HABITUAL

Um mito começa com o herói em seu próprio ambiente.

2- A CHAMADA PARA A AVENTURA

Um problema ou desafio é apresentado e irá perturbar o mundo habitual do protagonista.

3- O HERÓI RELUTANTE

O herói empaca frente à aventura. Ele enfrenta seus medos em relação ao desconhecido.

4- O VELHO SÁBIO

O herói consegue um mentor, que ajuda o herói a tomar a decisão certa, mas o herói precisa empreender a jornada sozinho.

5- DENTRO DO MUNDO ESPECIAL

O herói toma a decisão de comprometer-se com a aventura e deixa seu mundo familiar para trás, para entrar num mundo especial de problemas e desafios.

6- TESTE, ALIADOS E INIMIGOS

O herói enfrenta os aliados de seus oponentes, assim como a sua própria fraqueza, e inicia o trabalho enquanto lida com as consequências de suas ações.

7- A CAVERNA SECRETA

O herói entra no lugar de maior perigo, o mundo do antagonista.

8- A PROVAÇÃO SUPREMA

O momento sombrio ocorre. O herói precisa encarar um fracasso crítico, uma derrota aparente, a partir da qual ele irá adquirir sabedoria ou habilidade para ser bem-sucedido no final.

9 – APODERANDO-SE DA ESPADA

O herói ganha poder. Com seu novo conhecimento ou maior capacidade, ele agora pode derrotar as forças hostis do antagonista.

10- A ESTRADA DE VOLTA

O herói volta para seu mundo habitual. Ainda há perigos e problemas enquanto o antagonista e seus aliados perseguem o herói e tentam evitar que ele escape.

11- RESSURREIÇÃO

O herói é espiritualmente ou literariamente renascido e purificado por sua provação, enquanto ele se aproxima do limiar do mundo habitual.

12- RETORNO COM O ELIXIR

O herói retorna ao mundo habitual com o tesouro que irá curar seu mundo e restaurar o equilíbrio que estava perdido.

O mais famoso exemplo de filme que segue esta fórmula é Guerra Nas Estrelas: Episódio IV – Uma Nova Esperança (Star Wars: Episode IV – A New Hope, 1977). Aqui mostramos como a jornada de Luke Skywalker (o protagonista) segue o esquema ancestral de enredo de Campbell:

1- O MUNDO HABITUAL

Luke Skywalker é um rapaz, um fazendeiro entediado em um planeta distante.

2- A CHAMADA PARA A AVENTURA

A Princesa Léia e as forças rebeldes que resistem ao Imperador do mal estão em dificuldades. Ela manda uma mensagem holográfica pedindo ajuda a Obi Wan Kenobi que, por sua vez, pede para Luke se unir a ele.

3- O HERÓI RELUTANTE

Skywalker recusa-se a se unir a Obi Wan. Ele tem responsabilidades demais na fazenda, mas quando ele vai para casa, descobre que sua família foi massacrada pelas Stormtroopers do Imperador.

4- O VELHO SÁBIO

Um mentor sábio, Obi Wan  Kenobi prepara Luke para a batalha à frente. Ele dá a ele um sabre de luz que um dia pertenceu ao pai de Luke, um cavaleiro Jedi. Ele conta a Luke sobre o lado negro da Força.

5- DENTRO DO MUNDO ESPECIAL

Luke decide deixar seu mundo habitual e ir acertar as coisas.

6- TESTE, ALIADOS E INIMIGOS

Luke entra num mundo perigoso, encontra estranhas criaturas no “limiar” (a área do bar), une forças com Han Solo, foge das Stormtroopers do Imperador e entra na briga, voando para o espaço para resgatar a Princesa Léia.

7- A CAVERNA SECRETA

Luke entra na Estrela da Morte, o lar e a arma suprema do maior guerreiro do Imperador do mal, Darth Vader.

8- A PROVAÇÃO SUPREMA

Luke, Han Solo e a Princesa Léia ficam presos na gigante prensa de lixo da Estrela da Morte; Luke é puxado sob a água por uma estranha criatura. Eles então são salvos por um aliado, R2D2.

9 – APODERANDO-SE DA ESPADA

Luke resgata a Princesa Léia e apodera-se das plantas da Estrela da Morte.

10- A ESTRADA DE VOLTA

Luke é perseguido por Darth Vader.

11- RESSURREIÇÃO

Luke é quase morto por Darth mas reage e vence. Luke destrói a Estrela da Morte.

12- RETORNO COM O ELIXIR

Luke é recompensado por todo o seu trabalho duro. O mundo está novamente em equilíbrio.

Quando Hollywood descobriu O Herói de Mil Faces, muitos produtores, diretores e escritores pularam de alegria: eles finalmente tinham encontrado a sua bíblia de estrutura de roteiro. Agora eles poderiam socar qualquer idéia neste esquema simples e sair com uma história muito boa. Mas outros não estavam tão excitados. Muitos sentiram que produtores demais, ansiosos por um caminho fácil, viram a fórmula de Campbell como o único caminho para estruturar um roteiro, não importando que tipo de história estivesse sendo contada. A estrutura de Campbell pode funcionar muito bem para Guerra Nas Estrelas e outras histórias de jornadas, mas oferece pouca ajuda para histórias como Noite de Desamor (‘night Mother, 1986), Meu Jantar Com André (My Dinner With Andre, 1981) e Falando de Amor (Waiting To Exhale, 1994).

Para maiores informações sobre o trabalho de Joseph Campbell, nós recomendamos o excelente livro de Chris Vogler, A Jornada do Escritor. Vogler reconta o paradigma dos doze passos da “Jornada do Herói” de Campbell num modelo que é útil para escritores contemporâneos. Este livro é uma leitura essencial, mas o próprio Vogler (prevendo que sua análise poderia ser confundida com mais uma fórmula) é o primeiro a avisar que estes passos podem não ocorrer na mesma ordem em que são apresentados. Pior ainda para aqueles que procuram o Santo Graal da estrutura, ele avisa que o paradigma da “Jornada do Herói” não se encaixa em todos os tipos de histórias.

“Jovem Skywalker – descansar agora você precisa…

por que algum dia salvar a galáxia você irá.”

Boa escrita pra você hoje!

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4 Comentários

  1. Parece incrível. Estou preparando um trabalho sobre a jornada do herói nas diversas obras literárias e encontrei justamente o esquema preparado por você, Valéria Oliveti. Obrigada! Espero podermos nos comunicar de vez em quando. Sucesso!

    Comentário por Marlene Gomes — 16/02/2010 @ 18:16

  2. Olá, Marlene!

    Que bom que você gostou da tradução que eu fiz, fico feliz que ela tenha sido útil para o seu trabalho! Achei muito interessante o tema dele!

    Também vou adorar bater um papo com você! Volte sempre, e muito sucesso com o seu trabalho!

    Um grande abraço,
    Valéria Olivetti

    Comentário por valeriaolivetti — 16/02/2010 @ 19:59

  3. Roland Barthes também é muito bom para estudar estruturas narrativas a partir de funções ! abraço.

    Comentário por João Marcelo — 02/10/2010 @ 12:14

    • Valeu pela dica, João Marcelo! Um abraço!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 03/10/2010 @ 10:07


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