Dicas de Roteiro

18/01/2010

Mostre, Não Conte

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 06:46

Pense num filme de ação assim:

Um agente do FBI está andando pela rua numa boa, quando recebe um telefonema do vilão dizendo que ele está com seu filho e que o agente deverá fazer tudo o que ele manda. Ele desliga. O protagonista então liga para sua esposa, para saber onde está seu filho. Na escola, ela diz. Ele liga para lá. A babá já o levou para casa, fala a supervisora. O agente liga para a babá. Ela está a caminho do colégio para pegar o menino. Desesperado, o cara liga para um colega no trabalho e pede que seu telefone seja grampeado. Ele liga então para o chefe e explica a situação toda. O chefe manda ele investigar com o parceiro. O agente liga então para o parceiro vir buscá-lo. Explica toda a situação a ele pelo telefone. Ao desligar, ele recebe outro telefonema do vilão. É seu filho, gritando por sua ajuda. Ele conversa com o filho até o vilão pegar o fone e voltar a fazer ameaças. O mocinho tenta manter o vilão o máximo na linha, fala sobre abobrinhas, o tempo, as últimas fofocas, mas o cara não se interessa e desliga na sua cara. O agente liga para seu colega novamente. Ele não conseguiu rastrear a conversa. O protagonista, nervoso, liga para um de seus contatos no crime e dá uma prensa nele pelo telefone. O cara lhe dá um número de celular que talvez o ajude. O mocinho recebe então um telefonema de sua esposa, histérica. A babá chegou e disse que haviam levado seu filhinho. O agente explica toda a situação para ela. Liga em seguida para o telefone que seu contato lhe deu. Liga para sua mãe e diz que a ama. Liga para seu psiquiatra e diz como está se sentindo, o que aconteceu, como era traumático nos tempos da escola, como ele queria tanto matar seus pais, seus professores e colegas naquela época, e por aí vai.

Em resumo, qual é a ação deste filme? O cara andando na rua e falando ao telefone. Só isso. Eu já falei antes aqui que um romance é expresso nas emoções de seus personagens. Uma peça de teatro se resolve através dos diálogos. Um filme é ação. “Personagem é ação”, diz Syd Field. Não me refiro apenas a filmes de ação; dramas, suspense, terror, romance, comédia, todos os gêneros de filmes devem ser contados através da ação, não do diálogo. O roteirista deve criar situações para que o público consiga sentir o que o protagonista está sentindo. Colocar um personagem falando com outros sobre o que está acontecendo, o que está pensando ou sentindo fará o público sentir apenas duas coisas: tédio e sono. Você já deve ter assistido a alguns filmes bombas em que o protagonista passa a maior parte do filme num blá blá blá interminável e insuportável. Este erro é muito comum em roteiros de principiantes.

É difícil criar um roteiro com ritmo fluente e ações convincentes e amarradinhas numa história coesa e coerente. E, quando a dificuldade de fazer a história andar para frente aparece, e sempre aparece, o roteirista tem uma solução fácil: coloca seus personagens falando tudo: o que está acontecendo, seus planos, seus sentimentos, seu passado e por aí vai. Geralmente tem um ou mais personagens que estão ali com o único propósito de fazer perguntas para os protagonistas, “O que você está sentindo?”, “Por que você não fala com sua ex?” “Por que você tem medo de cachorros?”, “Qual sua cor favorita?” (e o que isto importa?!). Na verdade estes personagens não estão ali para conversar com os protagonistas. Após perguntar algo, ouvimos um monólogo de umas cinco páginas do protagonista desenrolando sobre um assunto sem importância qualquer. É um monólogo disfarçado de conversa. E mesmo que a informação seja um ponto de virada do filme, não importa. O público já estará divagando, concentrado em suas pipocas, e não ouvirá nada do que ele diz, de qualquer forma.

Uma das coisas que dizem para se evitar em filmes é colocar textos para o espectador ler. A manchete de um jornal, por exemplo. Ou o nome de uma loja. Ou um cartaz. Uma tela de computador, um bilhete. O que for, o público não tem obrigação nenhuma de ler, e a maioria nem tenta. Os que tentam, não conseguem ler tudo a tempo. Portanto, evite este artifício para contar a história. O mesmo vale para diálogos. Diálogos são inevitáveis (a não ser que você só faça filmes mudos) e, muitas vezes, interessantíssimos, emocionantes e divertidos, mas tome cuidado com eles. Saiba quando e como utilizá-los. Para quê mostrar o cara falando sobre seu passado traumático, se você pode mostrar o passado traumático dele? Ou criar cenas que mostrem o que ele está sentindo, ou o que está pensando? Esta é a linguagem do cinema. Um cara falando pelo celular o tempo todo sobre tudo pode dar certo no teatro, mas não num filme.

É claro que existem exceções. O filme Por Um Fio (Phone Booth, 2002), escrito por Larry Cohen, por exemplo. Ele forçou seu protagonista a ficar preso a uma cabine telefônica e toda a ação ocorria à sua volta, enquanto ele tentava desesperadamente se livrar daquela situação. Ele reverteu as expectativas e manteve o suspense e a tensão em alta o tempo todo. Outro com o mesmo tema, mas a que eu não assisti, é o filme Celular – Um Grito de Socorro (Cellular, 2004). Parece que este também consegue manter o ritmo de ação e suspense mesmo com uma pessoa presa, apenas falando ao celular. A ação não vem dos protagonistas, vem dos vilões e dos personagens secundários, já que o personagem principal está preso em um lugar e a um telefonema. E não abusam fazendo o protagonista falar de firulas sem importância. Cada palavra e cada minuto é vital nestas histórias.

Pior que cenas de telefonemas é fazer o personagem de repente se virar para a câmera e começar a conversar com ela, explicando o que sente, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Aaaaarghhh!!! Isto é terrível!! É exatamente neste momento que você lembra que está assistindo a um filme, e todo seu honesto esforço de entrar naquele mundo, de suspender sua descrença, de esquecer que aquilo não é real, vai por água abaixo. Você volta à estaca zero, emocionalmente distante do que está acontecendo na tela. É uma das piores coisas que se pode acontecer num filme. Mas também existem exceções (por que logo que a gente lembra de uma regra vêm um monte de exemplos à mente para nos contradizer?): o filme Curtindo a Vida Adoidado (Ferri’s Bueller Day Off, 1986) usou este artifício e foi um sucesso na época, até virou um clássico. Este é um filme de comédia que mostra o protagonista ocasionalmente falando com a câmera para apresentar os outros personagens, explicar a sua própria visão de vida e expressar seus sentimentos. Mas faz isto com humor e naturalidade, sem exagero, o que combina com a história. Acho que toda regra pode ser quebrada com talento, criatividade e bom-senso.

Fuja de personagens secundários que só estão ali para instigar o protagonista a falar. Estes personagens instigadores se disfarçam de vários tipos. Eis alguns deles:

– Melhor amigo

– Parceiro no trabalho

– Namorado(a)

– Padre (dentro ou fora do confessionário)

– Delegado de polícia ou qualquer outro Agente da Lei

– Juiz, Advogado, Promotor

– Psicólogo, Psiquiatra

– Chefe

– Qualquer membro da família

– Vilão

E ainda tem o próprio personagem falando consigo mesmo, feito maluco, ou ditando seus pensamentos e suas memórias para um gravador. Monólogos, monólogos, monólogos! Cadê a ação?!

William C. Martell, roteirista e autor de livros de roteiro, diz: “Filmes contam histórias através de imagens, através das ações dos personagens… você consegue pular os diálogos de seu roteiro e ainda entender o personagem?”. Boa questão. Esta simples pergunta pode ajudá-lo a salvar seu filme antes que seja tarde demais!

Boa escrita para você hoje!

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5 Comentários

  1. Adorei a sua aula sobre roteiros! para series como lost e este mesmo principio? um feliz natal ate +

    Comentário por Alair — 24/12/2010 @ 16:09

    • Olá, Alair!

      Sim, este princípio de “mostrar, não contar” serve para todos os tipos de ficção audiovisual, exceto o teatro, que é por natureza o veículo dos diálogos. O que a série Lost tinha de diferente era que ela ficava pulando do presente para mostrar uma situação do passado em que o personagem tinha passado por um dilema moral parecido. No fundo são duas histórias paralelas montadas como uma só. As histórias devem ser criadas em separado, para depois serem cortadas e costuradas no roteiro de forma a não perder o ritmo e manter a curiosidade do espectador. Se é este o estilo de série que você quer escrever, por que você não pega alguns episódios de Lost e estuda o modo como foram escritos? É um bom modo de captar a manha dos roteiristas.

      Um ótimo Ano Novo, Alair, e até a próxima! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 25/12/2010 @ 23:59

  2. Valeria muito obrigado vou estudar a forma como foram escritos feliz ano novo! ate mais =)

    Comentário por Alair — 28/12/2010 @ 19:17

  3. Oi valeria tudo bem? sou eu de novo! vc tem algum livro sobre roteiros para me indicar? teria de ser um livro para iniciantes e bem leigos no assunto! se vc poder me indicar alguns eventos ou work shops tambem seria muito legal! eu realmente estou querendo começar a interagir com o mundo dos roteiristas obrigado e de novo! feliz ano novo =)

    Comentário por Alair — 30/12/2010 @ 17:07

    • Oi, Alair! 😀

      Como vai? Comigo tá tudo bem melhor, agora que estou quase boa da gripe! Só falta acabar com a tosse!

      Olha, eu comecei lendo os livros do Syd Field, eles me ajudaram muito a sair do zero, então acho legal você dar uma lida no livro principal dele: Roteiro – Os Fundamentos Do Roteirismo. Depois você pode ler os outros para complementar. Um outro que surgiu mais recentemente, mas que também é de um famoso guru de roteirismo norte-americano, é o Story – Substância, Estrutura, Estilo, do Robert McKee. Depois desses, quando você já estiver botando bem a mão na massa, vale a pena ler os livros da Linda Seger, ela ajuda mesmo a melhorar um roteiro.

      Quanto a cursos, no site Roteiro de Cinema tem uma lista sempre atualizada de cursos ministrados no país inteiro, é uma excelente fonte de consulta, com preços e tudo! Aliás, esse é um site maravilhoso, vale a pena vasculhá-lo de alto a baixo, ele tem recursos incríveis e valiosos para nós, roteiristas.

      Disponha sempre, Alair, nós estamos aqui é pra isso mesmo, é sempre um prazer ajudar! :mrgreen:
      Muito obrigada pela mensagem, e um ano novo repleto de alegria e felicidade pra você também! 😀
      Um abração,
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 30/12/2010 @ 19:47


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