Dicas de Roteiro

17/01/2010

Música nos Roteiros

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 11:11


A maioria dos livros de roteiro diz para não se incluir música na cena. Digamos que você goste muito de uma música e a considere perfeita para uma de suas cenas. O que acontece a seguir?

Primeiro – O diretor/produtor não gosta da música que você escolheu – então ele colocará outra da qual ele goste.

Segundo – O diretor/produtor não conhece a música que você escolheu – então ele colocará outra da qual ele goste.

Terceiro – O diretor/produtor não consegue os direitos da música para inserí-la no filme – então ele colocará outra da qual ele goste.

O diretor/produtor dá a palavra final, mas na verdade quem escolhe as músicas é o compositor, ou o supervisor musical do filme, e eles não irão perder tempo lendo o roteiro, principalmente porque, em geral, eles são contratados quando o filme já está pré-editado. Se as coisas são assim, para quê o trabalho de colocar música em seus roteiros? Bem, existem exceções.

Vamos supor que você esteja escrevendo uma cinebiografia de um cantor ou de um grupo musical. Você precisa escrever uma das várias cenas em que eles cantam. Como fazer isto? Você poderia escrever “Aqui eles cantam a canção Tal“. Pode até ser assim, mas o que todo mundo recomenda é que escrevamos o que está na cena. Você possui uma vantagem, já tem as letras das músicas em mãos, não está escrevendo um musical com músicas originais que talvez sejam feitas somente após a primeira versão do roteiro pronta. Então, para aquela cena, escolha o trecho mais interessante da música e transcreva a letra desse trecho, na parte do diálogo. Não coloque as músicas inteiras, senão seu filme virará uma coleção de videoclips.

Eu procurei roteiros de vários musicais que conheço e só encontrei as transcrições dos filmes, não o roteiro original. Até existem alguns poucos títulos à venda na Amazon.com, mas são todos usados, de sebo. Foi muito difícil encontrar, mas acabei topando com o roteiro de um desenho animado (e musical) da Disney, Aladdin (Aladdin – 1992). Você pode dar uma conferida aqui neste link: http://www.imsdb.com/scripts/Aladdin.html

O site Roteiro de Cinema tem uma excelente ferramenta de busca, procure pelos roteiros de seus musicais favoritos, pode ser que você lembre de vários que eu deixei passar em branco.

Continuando, pelo roteiro de Aladdin, vi que eles incluem a letra da música no meio da descrição da ação de cena, não como um diálogo. Mas a formatação do roteiro não está das melhores (pelo menos não está de acordo com as regras mais usadas pelos roteiristas de Hollywood), e não dá para colocar a mão no fogo por ele. Já li alguns autores sugerindo colocar na parte de diálogo. Você escreveria a letra como ela é, em forma de poema (uma frase embaixo da outra), até para poder distingui-la do diálogo normal. Ou, se preferir, pode colocar na parte da descrição da ação mesmo, dizendo “Fulano começa a cantar a canção ‘Tal’ com Beltrano”, e a letra vem a seguir, sempre como poema. O tempo de tela na página irá depender, na verdade, é do ritmo da música e não da quantidade de palavras escritas, então não faz diferença.

Denny Martin Flinn diz que “escolher músicas raramente ajuda. Mas, se a música é um ponto de virada, então está tudo bem. O roteirista Richard Price provavelmente escolheu Sea of Love para o Vítimas de Uma Paixão (Sea of Love – 1989) desde o começo.”

O que você deve evitar a todo custo é escrever frases do tipo: “Esta cena é romântica e tem uma música envolvente no fundo.” Ou, “Zeferino descobre a verdade, entra uma música instigante.” Ou ainda, “Marilene toma um susto com seu gato — música impactante.” E, para finalizar, “José e Maria estão viajando de carro. Uma trilha sonora de qualidade e emocionante preenche a cena.” Esta é uma boa maneira para acabar com os planos malignos do diretor de colocar uma trilha sonora ruim e sem-graça no filme de vocês! Eita!!

Os filmes atuais estão lotados de músicas que pontuam melodramaticamente cada cena, induzindo o espectador a sentir o que os autores querem que ele sinta. Isto acontece porque o sentimento não está onde deveria: na história, no roteiro. Então eles compensam sufocando a platéia com uma overdose de músicas de fundo. Filmes de terror são o melhor exemplo. Se você vê um homem andando tranquilamente na cozinha e uma musiquinha de suspense começa a rolar é porque vem um susto por aí. De repente a esposa do cara surge pelas costas dele — ele se assusta. Música de impacto a altos decibéis para o público pular da cadeira. A cena tinha alguma coisa de interessante? Nadinha. A música tenta então compensar o vazio da história.

Você não precisa dizer que uma cena é romântica, você deve fazer a cena ser romântica. Ou arrepiante, ou cheia de suspense. A música será um acréscimo, um tempero que exaltará a emoção presente, mas que não poderá fazer nada se não houver emoção nenhuma para começar. E, às vezes, a música nem é benvinda.

Um dos filmes de terror recentes que provou que o silêncio pode ser muito mais perturbador do que uma trilha sonora foi o Atividade Paranormal (Paranormal Activity – 2007). Tudo é filmado como se fosse um vídeo caseiro, portanto, ficaria falso e ridículo a inserção de uma trilha sonora “emocional” para pontuar as cenas. E o silêncio teve mais presença, foi muito mais impactante e interessante do que qualquer trilha sonora seria ali.

Se você não está fazendo uma cinebiografia musical, deixe a música para os especialistas. Afinal, todo mundo precisa ganhar a vida, não é mesmo? Eu tive um professor na faculdade de Cinema, João Luiz Vieira, que disse uma vez que achava que aqueles cineastas que faziam tudo num filme, escreviam, atuavam, dirigiam, produziam, fotografavam, editavam e até compunham a trilha sonora deveriam ter orgasmos múltiplos quando seu nome aparecia tantas vezes nos créditos do filme. Cinema é uma arte em conjunto, gente, não é uma arte solitária. Sinceramente, qual é a graça em se fazer um filme sozinho? Para mim, não há orgasmos múltiplos que compensem a rica troca de experiências e a alegria de um set de filmagem cheio!

Notas musicais!

Boa escrita para você!

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