Dicas de Roteiro

16/01/2010

Musicais

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 03:58

Visualize a seguinte cena: Marido e mulher discutem em seu quarto de dormir. Do nada a esposa começa a cantar a altos brados, com o olhar meio desfocado, perdido no espaço. Se eu fosse o marido, eu esgoelaria a mulher, sacudindo-a pelo pescoço como se fosse uma galinha, e gritaria: “Saia deste corpo, capeta, que ele não lhe pertence!”. Fala sério, não parece que esse povo todo nos filmes musicais está mesmo possuído?

Esta cena que eu descrevi está no começo do filme Sete Noivas Para Sete Irmãos (Seven Brides For Seven Brothers – 1954). Posso ter exagerado um pouquinho (só um pouquinho) mas este é um padrão em filmes musicais. A falta de timing na inserção de músicas é o que mais me exaspera ao assistir a este gênero cinematográfico. É uma total falta de naturalidade. Os meus musicais norte-americanos favoritos são aqueles que cometeram menos este erro (ainda não encontrei um que não escorregasse em uma cena ou outra). No topo de minha lista está A Noviça Rebelde (The Sound Of Music – 1965), seguida de Cantando Na Chuva (Singin’ In The Rain – 1952). A lista acaba aí. Como seus personagens principais eram cantores na história, muitas de suas cenas (mas não todas) tinham razão de ser, eram naturais, factíveis. É duro assistir a um grupo de jovens conversando quando de repente começam a cantar, saltitar, rebolar, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Infelizmente, acho que não tenho a capacidade suficiente de suspender a minha descrença para conseguir apreciar este gênero. Isto está além do meu alcance.

Bem, de qualquer modo, hoje falarei sobre escrever roteiros de musicais. Em primeiro lugar, nunca vi ninguém escrever um musical para vender. Todos os musicais são projetos de produtores e estúdios, que contratam os roteiristas para escrever o que eles querem. Em segundo lugar, o roteirista é apenas um dos autores. O outro é o compositor das letras das músicas, o letrista, e o terceiro é o compositor das músicas. O roteirista, de posse da sinopse e do tratamento, escreve algumas cenas soltas e vê se são aprovadas pelo produtor. Elas então são mandadas para o letrista que, após escrever sua parte, manda as cenas para o compositor. Depois de tudo pronto, o compositor manda o pacote todo de volta para o produtor aprovar. Se ele não gostar, começam tudo de novo. Às vezes, ao juntar as cenas prontas num roteiro só, a coisa toda fica parecendo um Frankenstein, uma parte não encaixa direito na outra e o produtor decide começar tudo de novo (do zero ou aproveitando algo do original). Muitos filmes da Disney das últimas décadas foram feitos assim, principalmente aqueles que acabaram sendo fracassos na bilheteria. Não me admira esse resultado.

E não são apenas os desenhos que devem ser escritos assim. Filmes com atores também. Você reparou nos clichês dos recentes musicais da Disney para adolescentes? Temos o mocinho gostosão por quem todas as garotas babam, inclusive a vilã, que é sempre uma riquinha metida a besta que sacaneia todo mundo o filme inteiro mas facilmente se redime no final; uma mocinha insossa mas muito posuda; e alguns personagens secundários para fazerem uma piadinha ou outra e encherem linguiça. Exemplos: Camp Rock (Idem – 2008) que foi uma cópia de High School Musical (Idem – 2006, 2007, 2008) que, por sua vez, se inspirou abertamente em Grease – Nos Tempos Da Brilhantina (Grease – 1978) (o próprio diretor de HMS admitiu isto) e por aí vai. Quanta falta de originalidade, gente!

Se você tem uma ideia maravilhosa para um musical tipo norte-americano, se você compõe músicas ou conhece alguém que possa compô-las para você, acho que tem mais chances de se dar bem no teatro. Se sua peça for um sucesso, pode até acabar virando um filme, como Rent – Os Boêmios (Rent – 2005), que começou num teatro off-off-Broadway, foi subindo de categoria até chegar à própria Broadway e, por fim, a Hollywood.

O Brasil tem um exemplo excelente de musical, apesar de ser mais uma cinebiografia do que um musical tradicional. Me refiro ao primeiro longa do diretor Breno Silveira, 2 Filhos de Francisco – A História de Zezé Di Camargo e Luciano (Idem – 2005), escrito pelas roteiristas Patrícia Andrade e Carolina Kotscho. É um musical emocionante, com uma boa história, personagens interessantes, com músicas de sucesso inseridas nos momentos certos, tudo caprichado. Resultado: sucesso estrondoso de público e crítica (apesar de que sempre tem aqueles que odeiam). Acho que este estilo de filme pode ser escrito por conta própria pelo roteirista para depois ver se algum produtor se interessa. A vantagem é que a trilha sonora já estaria pronta. O Brasil tem uma história musical riquíssima, existe espaço para muita cinebiografia musical, temos vários personagens interessantíssimos, vivos e mortos (antigos e recentes).

Uma outra opção é fazer ficção baseado nas músicas de um grupo específico. Uma comédia bem legal que fez isto foi a Febre de Juventude (I Wanna Hold Your Hand – 1978) sobre as loucuras e desventuras de um grupo de fãs para encontrar seus ídolos em pessoa, Os Beatles. O único problema é o grupo não gostar do roteiro e não liberar as músicas para o filme. Sempre se corre este risco. O ideal é escrever um roteiro que possa ser adaptado para outras bandas ou músicos.

Você também pode ousar e criar tipos diferentes de musicais – por que não?!

Amanhã explicarei a parte técnica, sobre como inserir música em um roteiro. Uma boa escrita para você e inté!

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