Dicas de Roteiro

12/01/2010

Personagens Irredimíveis

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 14:12

Todo roteirista deve prestar muita atenção ao criar as características de seus personagens. Quando um protagonista tem mais defeitos que qualidades, ou quando é cheio de qualidades mas possui um defeito muito ruim, isto acaba tornando-o irredimível. Por exemplo, seu protagonista é um bêbado que maltrata a mulher e os filhos, é péssimo no trabalho, péssimo amigo, um cínico que só fala palavrão. Mas ama os animais e moverá mundos e fundos para mandar o gracioso golfinho de um parque de diversões de volta para o mar. Não adianta. Ele até pode ter a determinação, a coragem e a força de vontade de conseguir salvar o golfinho, ser bem-sucedido nesta empreitada contra tudo e contra todos, mas o público já o terá abandonado nos primeiros 10 minutos de filme. Mesmo que as pessoas não saiam do cinema ou virem de canal e assistam o longa até o fim, elas não estarão mais nem aí para a história, para os dramas do protagonista, nem para o resultado final. Os defeitos dele o tornaram irredimível. Se ele mudasse da água para o vinho, tornando-se um cara sóbrio, bom marido, bom pai, bom funcionário e bom amigo que se expressa com respeito e dignidade, ninguém iria acreditar. Não cola. Uma das características de um personagem irredimível é que seus defeitos são tão marcantes que ele pode mudar à vontade que o público não o perdoará. Todos querem que ele se ferre. Este é um sentimento que deveria ser dirigido apenas aos vilões da história, jamais para o protagonista.

Não confunda personagem irredimível com maniqueísmo. Não estou dizendo que os protagonistas devam ter apenas qualidades e nenhum defeito. Nem que os vilões devam ter apenas defeitos e nenhuma qualidade. Mas o mocinho(a) deve agir como tal, e não como um vilão. Vou dar outro exemplo: ontem eu assisti ao primeiro capítulo da novela das 7h da Rede Globo, Tempos Modernos. Sendo o primeiro capítulo, esta é a apresentação de todos os personagens, portanto, cada cena é primordial para passar a impressão certa para o público. Em uma das primeiras cenas em que aparece, Hélia Pimenta, personagem de Eliane Giardini, vai até o escritório de Leal Cordeiro (Antônio Fagundes) e reclama da injustiça de se construir um prédio-mastodonte no lugar de uma galeria tradicional do centro de São Paulo. Até aí, tudo bem, ela supostamente está defendendo os pobres e oprimidos. Porém, ao sair da sala, furibunda, pois seu pedido não foi atendido, ela empurra para o lado, com força, uma assistente do Leal que parecia ser gente boa, e que estava em seu caminho para a porta.

Numa outra cena, Nelinha (Fernanda Vasconcelos), filha favorita de Leal e protagonista da novela, está dirigindo seu carro (um buggy) em alta velocidade numa estrada para chegar à festa de lançamento do prédio-mastodonte do pai. Vinícius Porto, o ‘Portinho’ (Felipe Camargo), seu ex-cunhado, amigo e parceiro de trabalho, está ao lado dela implorando para que ela vá mais devagar. Ela argumenta que havia prometido ao pai estar lá e que, apesar de discordar da construção do prédio-mastodonte, ela amava demais o pai e estaria sempre ao lado dele. De repente, eles se acidentam, saindo da estrada. O carro capota de lado, no meio do mato. Na cena seguinte ela liga para o pai pelo celular e diz que está tudo bem. Portinho ainda está preso ao cinto de segurança, caído de lado junto com o carro. Ele se esforça para se soltar, grita pela ajuda de Nelinha, mas ela está falando com o pai e ainda faz cara feia por ele estar atrapalhando sua conversa. O pai dela oferece ajuda, alguém para pegá-los, mas ela rejeita. Quando desliga, ela ainda joga na cara de Portinho que ele só está ainda ali porque nunca quis fazer rapel com ela, senão ele saberia se livrar daquela situação sozinho. Passa um carro. Ela olha, ansiosa. Portinho, percebendo o sentimento dela, manda ela ir em frente, pegar uma carona para não se atrasar para a festa do pai. Ela vai, alegremente, e o deixa preso quase de cabeça para baixo, se debatendo para sair. Ele grita para que ela chame alguém para tirá-lo dali. Nelinha não está nem aí e nem pensou em deixar seu celular com ele. Ela pára o carro (que, por acaso, estava indo na direção contrária ao que ela estava indo) e ordena ao motorista surpreso que ele vá para onde ela quer ir.

Em ambas as cenas a tentativa de fazer humor criou características irredimíveis para os personagens, características perfeitas para vilões. Existem várias maneiras de se consertar estas cenas, cada escritor pode criar variações infinitas delas. Eu, pessoalmente, faria a assistente de Leal uma mini-vilã, alguém que quer conquistar o coração do patrão para poder usufruir da fortuna dele. Porém ele não percebe isso e nem sente um pingo de atração por ela. Mas sente por Hélia. E Hélia já sacou as intenções da assistente. As duas seriam rivais. Quando Hélia tenta sair do escritório, a assistente propositalmente se coloca na frente, para que a outra peça licença para passar, de forma submissa a ela. Hélia não pediria. Nem tampouco a empurraria. Apenas seu olhar fulminante e sua postura firme encarando-a, fariam a assistente se acovardar e sair do caminho com o rabinho entre as pernas. Esta seria uma solução. Eu deixaria o humor para os personagens cômicos (apesar de que, com a direção certa, esta situação poderia ter humor embutido).

No caso da cena da Nelinha, em primeiro lugar, eu não a colocaria dirigindo o carro. Ela até poderia pedir que Portinho dirigisse mais rápido, mas a culpa do acidente não poderia ser dela (na história a culpa foi de uma capivara, ou algo do gênero, mas o bicho não apareceu em cena e a impressão que ficou é de que a culpa foi da garota mesmo, por estar dirigindo rápido demais e distraída conversando ao volante). Em segundo lugar, eu daria um pequeno defeito para a protagonista: ela teria todas as qualidades que tem, seria forte, justa (?), se preocuparia com o próximo (?), ocasionalmente um tanto turrona, inteligente, trabalhadora, pé no chão apesar de ter um pai podre de rico, e carinhosa (?); mas seria um pouco atrapalhada. Essa seria a solução para fazer cenas de humor com este personagem. Ela tentaria de tudo para ajudar Portinho a sair do carro, mas acabaria perdendo seu celular e fazendo tudo errado. Ele não se feriu no acidente, mas acaba levando uma traulitada atrás da outra a cada tentativa honesta dela para ajudá-lo (sempre lembrando de fazê-la se desculpar por cada trapalhada). Então, quando um carro passa, ele implora para que ela vá embora, para a festa do pai (pedindo de uma forma desesperada mas gentil, afinal eles são amigos e ele gosta dela). Ela pára o carro, pede que ajudem-na a tirá-lo dali, o motorista vai até Portinho, preocupado e prestativo, e Nelina pede carona ao carro seguinte, ao ver que o amigo está sendo socorrido e seguro.

Estas talvez não sejam as melhores soluções, mas posso dar melhores exemplos de personagens com defeitos e redimíveis. Não costumo assistir a novelas, se eu acompanho uma a cada 3 anos é muito, mas tenho assistido Cama de Gato desde o começo. O personagem Gustavo Brandão (Marcos Palmeira), o protagonista da história, tem muitas qualidades, mas um defeito terrível: ele era a arrogância em pessoa no começo da novela. Ele pisava e humilhava todos à sua volta, até sua família e amigos. Com as maquinações de sua esposa, Verônica Brandão (Paola Oliveira), ele perde tudo e come o pão que o diabo amassou. Com isto aprende a ser humilde e a valorizar o ser humano pelo que é e não pelo que tem. Agora, ao voltar ao seu lugar de direito, ele está na corda-bamba, esforçando-se para não voltar aos antigos hábitos. É um personagem humano, nem um pouco maniqueísta, que tem um grande defeito que pode e deve ser superado (não sem muitas dificuldades) para que encontre a redenção no final.

Já a vilã, em minha opinião uma das melhores dos últimos tempos e soberbamente interpretada por Paola Oliveira, tem muitas qualidades: é de longe a personagem mais inteligente da novela, tem a força, a coragem e a determinação de uma leoa, tem foco, sabe o que quer e o que fazer para consegui-lo; todas qualidades que seriam excepcionais em uma mocinha, mas são terríveis em uma vilã. Ela é uma psicopata fria e calculista, que nunca matou ninguém por simples azar, pois já mandou assassinarem seus dois maridos e sua enteada. Se dependesse apenas dela, todo mundo que cruzasse seu caminho e atrapalhasse seus planos seria metralhado sem dó nem piedade. Dizem que a maioria dos psicopatas (ou sociopatas, como são chamados atualmente) não é criminosa, apenas age em proveito próprio às custas do bem-estar dos outros. São uns canalhas sacanas, mas ainda não existe punição oficial para isto. Os sociopatas só se transformariam em serial killers ou criminosos profissionais se tivessem algo em seu passado que os empurrasse para isto. No caso de Verônica, foi a relação de seu pai com sua mãe. Ele deu o golpe do baú, casando com uma mulher rica que era doce, submissa e que o amava, mas ele a traía com outras e torrou todo o seu dinheiro em jogatina. A mulher nunca reclamou ou o recriminou por isso, porém acabou morrendo de desgosto muito jovem, deixando uma filha revoltada, traumatizada e sem dinheiro. Com isto, Verônica se casa sem amor com o apaixonado Gustavo, dando o golpe do baú nele para ter como sobreviver (repetindo a história do pai, afinal ela é mais parecida com ele do que com a mãe passiva).  Resumindo, uma vilã humana, factível, com muitos defeitos e muita crueldade, mas nem assim apelando para o maniqueísmo.

Preste atenção na construção de seus personagens, principalmente na apresentação dos protagonistas. Crie um personagem irredimível e você o terá matado para o público logo de cara.

Boa escrita pra você!

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