Dicas de Roteiro

06/01/2010

Rima Cinematográfica

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 11:19

Dia 28/12/2009 eu falei sobre Flashforwards e o quanto eles me irritam em filmes de suspense e terror. Porém, só para me contrariar, me aparece um exemplo de flashforward muito bem utilizado. Na nova minissérie da Rede Globo, Dalva e Herivelto – Uma Canção de Amor, o primeiro capítulo abre com uma cena de Dalva criança em 1925 cantando na rua, ao lado de seu pai que toca clarineta. Pula para a cena dela já idosa, em casa, passando mal e indo para o hospital. Ou seja, um flashforward. Daí em diante as cenas se alternam entre a juventude e meia-idade de Dalva, e ela idosa no hospital. Os flashbacks e os flashforwards são unidos pelos personagens, pessoas que fizeram parte da vida dela quando mais jovem e que vêm visitá-la no hospital. Mais do que flashbacks e flashforwards, o roteiro tem uma boa rima cinematográfica.

Rimas cinematográficas geralmente são cenas curtas que costumam evocar um sentimento ou uma lembrança nos personagens. Por exemplo, um personagem está na prisão e vê um pássaro pousando na janela. Ao voar, o pássaro solta uma pena, que o prisioneiro pega, pensativo. Corta para uma cena de um ponto alto de sua vida, algo que ele lembrou por causa do pássaro ou da pena. Ele pode ter sido um aviador famoso, agora prisioneiro de guerra; ou, décadas mais jovem, estar brincando com os filhos (que há muito não vê) de batalha de travesseiros, cujas penas se soltam no ar; ou poderia ser uma cena em que ele está prestes a dar o primeiro beijo no amor de sua vida quando um pombo faz cocô em sua cabeça e ela cai na gargalhada. Tá legal, estes exemplos são terríveis, mas dá para entender o que quero dizer. Outro exemplo banal: Uma cena pode mostrar um maquinista de um trem, e em seguida o detalhe da roda da locomotiva em velocidade; cortar para o detalhe da roda da máquina de costura, da esposa que o espera costurando. Ela tem o dedo perfurado pela agulha, que sangra. A mulher olha para a foto do marido preocupada, segurando o sangramento do dedo. No trem, o maquinista distraído se assusta com uma vaca nos trilhos, tenta parar a locomotiva, mas acaba descarrilhando os vagões e causando um acidente fatal. Só vemos sua mão ensanguentada saindo para fora da locomotiva capotada. Neste último exemplo há a rima com as rodas do trem e da máquina de costura, e as mãos da esposa e do marido sangrando.

Os grandes autores do cinema mudo usavam este recurso com maestria. A rima visual chegou ao ponto de obra-prima naquela época. A rima cinematográfica não precisa ser apenas visual, pode ser também sonora ou apenas narrativa, como é mais utilizada atualmente.

De qualquer modo, esta minissérie tem um roteiro belíssimo de Maria Adelaide Amaral (com a colaboração de Geraldo Carneiro e Leticia Mey), e está sendo muito bem adaptada do livro de Peri Ribeiro, com a excelente direção de Dennis Carvalho (e a colaboração de Cristiano Marques). Recomendo fortemente que assistam aos próximos (e últimos) 3 capítulos. Para quem perdeu os 2 primeiros é possível assistir a alguns trechos no site da minissérie: http://dalvaeherivelto.globo.com/

Se você for assinante do Globo.com, poderá assistir aos capítulos na íntegra, no site. Além do roteiro e da direção, tem a interessante história e a trilha sonora, soberba, mesmo para quem não gosta deste estilo musical. É uma parte importante de nossa cultura que pouca gente conhece atualmente. Uma fascinante aula de História e de música. Recomendadíssimo.

Assistam também aos filmes da época do cinema mudo e aos de Hitchcock para enriquecerem seu repertório de rimas cinematográficas e narrativas visuais. Hoje em dia estamos muito dependentes dos diálogos para contar a história. Parecemos papagaios tagarelas. Na TV ou no Cinema, ainda vale a máxima: “Uma imagem vale por mil palavras”. Ou mil emoções.

Uma boa escrita pra você!

Anúncios

%d blogueiros gostam disto: