Dicas de Roteiro

31/01/2010

Organização

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 01:00

Preciso confessar um segredo: Sou compulsiva por organização quando se trata de escrever roteiros. Eu já testei várias maneiras de me organizar, verti suor e lágrimas até descobrir a melhor para mim, e descreverei todas aqui, pode ser que alguma delas seja de utilidade para você.

O INFERNO DA BIBLIOTECÁRIA

Galinha: Esses livros não estão em ordem alfabética!

Galinha-capeta: E eles nunca estarão!

Em primeiro lugar, eu costumava fazer todas as minhas anotações no computador. Isto realmente não funcionou para mim, por várias razões:

1- Se você tem um super laptop sempre à mão, esta dica pode ser inútil para você. Já eu, como muitos por aí, tenho apenas um computador para a família toda. Portanto, nem sempre ele está disponível para o meu uso. E quando as ideias surgem, devemos anotá-las imediatamente. Já perdi várias delas ao deixar para anotar “daqui a pouquinho”. Quando o “daqui a pouco” chegava, já era tarde demais, eu já tinha esquecido tudo, ou de muitos detalhes. Por isso tenho sempre cadernos, cadernetas, agenda, ou bloquinhos à mão. Fiquei traumatizada! (Ah, se eu tivesse um iPad! E cadê o dinheiro?!)

2- Se o computador está desligado e você está ocupado com outras coisas e tem a ideia para uma simples fala de diálogo, interromper o que você está fazendo e ligar o computador só para inserir aquela frase no roteiro dá uma canseira danada e às vezes não dá realmente para interromper as suas outras atividades. Aí você acaba deixando para “daqui a pouquinho”. Nem preciso dizer que perdi um monte de diálogos interessantes por causa disso. Fiquei traumatizada! (Ah, se eu tivesse um iPad!)

3- Já aconteceu uma vez de eu quase perder tudo. O computador deu pau e precisou ser formatado. Graças a Deus eu tinha salvo um backup num disquete (sim, sou jurássica!). Acontece que, quando eu fui abrir o desgramado do disquete, ele também deu pau! E só não fiquei com aquela patética cara de tacho de quem perdeu tudo porque eu havia imprimido todos os roteiros antes. Aliás, SEMPRE IMPRIMA TUDO.  Não confie em disquetes, discos rígidos, CDs, DVDs, pen drives ou o escambau a quatro. Vai que todos os computadores se rebelem contra a Humanidade e o mundo entre em parafuso. Você nunca mais poderá ler aquele seu roteiro-emocionante-que-poderia-ter-virado-filme para alegrar os desamparados sobreviventes! Por isso, garanta-se, imprimindo tudo!

4- Como eu disse, eu escrevia tudo no computador, desde as primeiras ideias. Acontece que a maioria dos escritores, eu inclusive, não tem um método de trabalho linear. Hoje a gente tem uma ideia fantástica, amanhã a gente acha tudo uma bobagem e reescreve de outra forma, no dia seguinte a gente decide que a primeira ideia é que era realmente fantástica, onde a gente estava com a cabeça de pensar o contrário, e por aí vai. Quando eu fazia isso no computador, eu perdia todas as primeiras anotações. Eu apagava e reescrevia, e me arrependia amargamente nos dias seguintes. Com papel isso não acontece (a não ser que você jogue tudo fora). Quando eu risco algum texto, posso voltar a lê-lo, ele não se perdeu para sempre. É claro que você pode escrever no computador sem apagar as anotações anteriores, mas eu acho mais organizado no papel mesmo.

Eu gosto de escrever no papel primeiro, não apenas os argumentos, mas a primeira versão do roteiro também, e depois passo tudo à limpo no computador. As versões posteriores eu corrijo no roteiro impresso ou direto no computador e imprimo cada versão terminada.

Eu costumava escrever os roteiros em blocos de papel com folhas grandes. Não funcionou muito. Sabe quando você usa o bloco de um lado, vira a página e escreve atrás? Eu sempre escrevia a página da frente de cima para baixo, e a página de trás de baixo para cima (deu para entender?). O fato é que a frente e o verso estavam escritas em direções opostas, e, depois de arrancadas, era terrível para fazer revisões (é, eu sei, a solução simples seria a idiossincrática aqui prestar mais atenção e escrever tudo num sentido só, mas na hora da inspiração a gente escreve do modo mais confortável possível, não dá para se desconcentrar por causa disso).

Por este motivo eu passei para os cadernos. Mas também não funcionou muito bem. Às vezes você já está com o caderno cheio e quer acrescentar uma cena no meio de outra, ou acrescentar algo a uma cena já pronta, e não dá mais para escrever nada ali. Então eu usava adesivos post-its. Mas isso não dava certo com grandes cenas, e o meu caderno ficava parecendo festa junina, cheio de bandeirinhas. Passei, portanto, a escrever num novo caderno. Mas aí surgia uma nova ideia para desenvolver. E eu colocava neste caderno já começado. E voltava para o roteiro anterior. E tinha uma nova ideia para a outra história. No fim das contas ficava tudo uma confusão dos diabos, ideias e cenas desencontradas de roteiros diferentes (eu não ia começar um caderno novo a cada pequenina ideia que tivesse) e uma pilha de cadernos totalmente desorganizados. Até eu achar a cena ou diálogo que eu queria corrigir, era um suplício!

A solução que eu tive foram as folhas soltas. Mas elas se perdiam, voavam, caíam no chão e desorganizavam tudo, até eu conseguir encontrar a ordem em que estavam, era uma tortura (eu tô falando, o que eu já sofri nessa vida…!).

Enfim, encontrei a solução: FICHÁRIOS! (Demorou para cair a ficha!). Ufa!

Com os fichários eu escrevo tanto em cadernos (aqueles que já vem com furos), quanto em folhas soltas (refis para fichários), ou até, se eu me aventurar, em blocos (também já furados); como eu quiser. E é muito fácil acrescentar cenas, é só inserir a(s) folha(s) no lugar certo. Muito fácil, prático e organizado! Existem muitos modelos de fichários (e de cadernos com furos, e de folhas decoradas para eles). Tem os masculinos, os universitários, os fofinhos e os femininos (que também podem ser fofinhos).

Eu uso dois fichários: um para o roteiro que estou escrevendo no momento, e outro com ideias para desenvolver, ou roteiros inacabados. Tome cuidado ao comprar o seu fichário, uma vez eu comprei um importado dos EUA e acabei jogando ele de lado: os americanos usam fichários de três argolas, e é difícil achar refis para eles (vide o exemplo abaixo, e este é brasileiro mesmo! Talvez seja produto para exportação). Dê preferência aos de 4 argolas, é o mais comum aqui no Brasil.

Então você já escreveu o seu roteiro, já o imprimiu e quer passar para o próximo. O que fazer a seguir? Você pode guardar o seu manuscrito numa pasta com clipe ou com prendedor tipo romeu-e-julieta (vide abaixo). Eu prefiro usar os prendedores soltos mesmo, sem a pasta. São baratinhos, dá para comprar um saco com 50 deles de uma vez, ou avulsos, na papelaria. Existem esses prendedores de plástico e de metal. NUNCA use prendedores, clipes ou pastas com metal. Em pouquíssimos anos estará tudo enferrujado, e suas páginas, todas manchadas. Plástico é mais seguro e garantido.

Agora junte seu manuscrito com o seu roteiro impresso em uma pasta. Pode ser uma pasta fina comum ou uma tipo sanfona, onde cada divisória guardará um roteiro. Conheço gente que prefere pastas suspensas. Também fica legal e organizado. Se você utiliza o sistema de cartões para organizar as suas cenas, guarde-os num envelope junto com o manuscrito e o roteiro. De preferência, guarde um CD com uma cópia do roteiro também. Deixe o seu pen drive para o dia-a-dia (backups, backups, faça muitos backups! Vários escritores já perderam suas obras quase acabadas por falta de backup. O Jô Soares passou por isso e agora salva suas obras em 5 mídias diferentes para se garantir!).

Bom, você já organizou o seu material de escrita. Agora precisa organizar a sua área de trabalho.Tenha uma mesa limpa, um ambiente bem iluminado e arejado para trabalhar. Pense na sua saúde a longo prazo. Você passará anos escrevendo e precisa de um cantinho tranquilo e organizado para que suas ideias fluam com naturalidade. Evite a todo custo um ambiente assim:

Ou assim (Deus me livre!):

Eu sei, eu sei, os jornais, revistas, livros, DVDs, roteiros, e as páginas impressas da Internet se acumulam sem que a gente nem perceba. Por isso defina um dia por mês para fazer uma boa faxina, separar o que você não está lendo ou usando no momento, e liberar a área de trabalho. Garanto-lhe que você se sentirá bastante aliviado.

O ideal é você arrumar a sua mesa, mas se você não tiver talento nenhum para isso, pode comprar a utilíssima Push Table, mesa criada pela designer Jennifer Hing:

Ela deve servir bem, pelo menos até os bagulhos acumulados desabarem numa avalanche sobre o chão.


Uma mesa atravancada é um sinal de uma mente atravancada. Ou de um braço fraco.

Mas existem exceções. A escritora J. K. Rowling é uma desorganizada assumida. Ela gostava de escrever em blocos, sentada num pub e bebendo uma xícara de chá ou café (quase todos os seus manuscritos têm uma mancha marrom com a forma do fundo da xícara!). Agora, após a fama, ela tem de escrever em casa mesmo, e sua mesa é uma zona!

Ela mostrou num programa as anotações antigas que fez para a série de livros Harry Potter: estavam guardadas em várias caixas, maçarocadas de qualquer jeito, sem nenhuma ordem. Ela disse que ia até as caixas, puxava alguns papéis, se inspirava para escrever e devolvia o papel à maçaroca. Ela, como alguns escritores polivalentes, não apenas escrevia, mas desenhava o que lhe vinha à mente. Por isso seus papéis tinham de tudo o que se imagina.

J. K. Rowling, seu desenho original e o livro baseado no manuscrito leiloado

Mas ela também capricha quando quer. Após terminar de escrever a série Potter, ela fez cinco volumes manuscritos para presentear as quatro pessoas que mais a incentivaram no começo de sua carreira. O quinto livro foi leiloado, comprado por uma editora, e os lucros do leilão foram para caridade. Chama-se Os Contos de Beedle, O Bardo. Os desenhos são dela mesma:

Os Contos de Beedle, O Bardo original, que foi leiloado

Para que a J. K. Rowling não se sinta humilhada (até parece!), eis a bagunça do escritório do Al Gore:

Computador com três telas, heim? Nem tô com inveja.

Já que mostrei muitas fotos de escritórios bagunçados, agora preciso mostrar o ambiente ideal:

Repare que caixas, muitas caixas, ajudam bastante na organização:

E tem mais!

Muito mais!

Você nem precisa ser tão impecável, mas cuide de sua organização com carinho. Encontre a melhor maneira que combine com o seu jeito (mande um comentário dando as suas dicas, compartilhe conosco a sua experiência!).

Com um ambiente organizado você ficará mais confortável e apto a dedicar toda a sua atenção ao seu roteiro.

Boa escrita e excelente organização para você!

30/01/2010

Sinopses São Um Perigo!

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 05:31

Em primeiro lugar, preciso definir o que seria uma sinopse. Há muita confusão de termos, com inúmeras variações, e não quero piorar as coisas. Aqui no Brasil a maioria das pessoas chama de sinopse um resumo da história em cerca de 3 a 7 linhas, contando apenas o enredo principal da história, com começo, meio e fim, sem detalhes, sem diálogos, sem as histórias paralelas nem os personagens secundários (a não ser que sejam fundamentais para a compreensão da história), e sempre escrita no tempo presente. Nos EUA isso se chama Story line ou Log line, ou pré-sinopse, e a synopsis seria o que chamamos de argumento, um texto de várias páginas, contando a história diretamente, com muito mais detalhes, mas ainda sem diálogos nem divisão de cenas. O argumento seria escrito antes do roteiro, e a sinopse, após o roteiro pronto.

A sinopse tem três objetivos muito importantes:

1- Clarear a mente do roteirista. Você acabou de escrever o seu roteiro, ou mesmo apenas o seu argumento, e quer saber se tem uma história coerente nas mãos. A sinopse o forçará a resumi-la de forma a ver apenas o esqueleto dela, o enredo principal, e se há uma história coesa ou não. A sinopse é uma ferramenta muito útil para ajudá-lo a se afastar um pouco do roteiro, recheado de tantos diálogos, cenas e personagens, e se capaz de ver apenas o essencial.

2- Vender o filme após pronto. Neste caso, a sinopse será totalmente diferente. Você não quer contar o começo, meio e fim de sua história para o público, quer? A sinopse aqui é uma ferramenta de venda, de propaganda para atrair a atenção e o desejo do espectador para assistir ao seu filme. E quem fará a sinopse neste caso geralmente não é o roteirista, mas o pessoal de marketing e divulgação do filme. Muitas vezes também serão os próprios jornalistas ou críticos de cinema dos jornais e revistas que farão o seu próprio resumo, ou seja, isto está além de sua alçada. Eis abaixo um exemplo deste tipo de sinopse:

Reparou que esta sinopse não conta absolutamente nada do enredo nem das ações dos personagens? No entanto, é uma propaganda original, bem-humorada e instigante, que pode atiçar a curiosidade do espectador e atraí-lo para o cinema.

Agora leia as sinopses dos filmes abaixo:

Quais destes filmes você teve vontade de assistir, e por quê? O que havia nas sinopses que lhe atraiu? E o que havia (ou faltava) nas outras que o repeliu?

Uma boa forma de estudar este tipo de sinopse é ler os resumos de filmes em revistas e jornais. Compare as sinopses de um mesmo filme publicadas em várias fontes diferentes. Faça isso tanto com filmes a que você já assistiu, para analisar como a história foi resumida, quanto com filmes a que você ainda não assistiu, para ver qual forma de “vender o peixe” foi mais atraente e por qual motivo. Não subestime uma boa sinopse: muita gente escolherá ou rejeitará seu filme por causa de poucas linhas num jornal. A maioria das pessoas decide qual filme assistirá através dessas sinopses. Você não?

Eis mais um exemplo:

Este resumo acima é um exemplo típico de sinopse que fala além da conta. Não assisti ao filme, mas aposto que já conta a história quase toda. Bruno e Valeria devem se apaixonar lá pelo meio do filme, e isto não deveria constar da sinopse. O público quer saber basicamente o que acontecerá nos primeiros 15 ou 20 minutos, a introdução da história. Contar mais que isso é estragar a surpresa. Já li sinopses que contavam tudo, quase até o final! E eu ficava esperando acontecer mais alguma coisa, não poderia ser só aquilo, como o jornal poderia ter resumido a história toda?! Porém, não acontecia praticamente mais nada! O pior é que essa situação é mais comum do que se imagina.

3- A sinopse também serve de ferramenta de venda do roteiro. Muitos diretores, produtores e concursos exigem a sinopse da história antes de ler o roteiro. Aí é que está o perigo. Quando elas são exigidas, você não tem como evitar, deve escrevê-las e enviá-las. Mas, se você tiver escolha, não as envie. Numa carta de apresentação, diga apenas qual é o gênero de seu filme: comédia, terror, drama, etc. Não dê detalhes da história. Já mencionei algumas vezes que o pessoal de cinema adora filmes, mas odeia ler. Se você oferecer qualquer chance para o diretor ou produtor não ler o seu roteiro, ele a aproveitará. Uma sinopse não consegue comunicar os detalhes do seu roteiro, o sabor de sua história, o carisma de seus personagens, as peripécias, o senso de humor, enfim, tudo o que pode fazer uma grande diferença. Digamos que você tenha escrito uma comédia romântica. Todas as comédias românticas têm um padrão semelhante: o já batido boy meets girl. O cara encontra a garota, se apaixona pela garota, fica com a garota, perde a garota, sofre pela garota, recupera a garota. Vá fazer uma sinopse assim. O diretor/produtor vai pensar, “Já vi este filme um milhão de vezes”. Mas ele não viu o seu filme. O seu roteiro pode ter cenas engraçadíssimas, diálogos impagáveis, personagens complexos que qualquer ator ou atriz mataria para representar, e um romance de arrancar suspiros dos corações mais endurecidos. Se ele não ler o seu roteiro, ele jamais saberá, porque uma sinopse não pode conter nenhum desses elementos.

Este tipo de sinopse, se tiver de escrevê-la, seria uma mistura das duas primeiras. Além de ser um resumo completo e brevíssimo da história, ainda deve incentivar o diretor/produtor a ler o roteiro (e, de preferência, a também fazer o filme). Você precisa mais do que o talento de um roteirista para escrever uma boa sinopse assim: precisa do talento de um publicitário. Deve vender a sua idéia, com precisão e objetividade, exaltando todas as suas qualidades, com o mínimo de palavras possível. Bons publicitários ganham os tubos porque este não é um trabalho simples e fácil, exige capacidade de síntese, lábia de vendedor, talento para saber o que o comprador quer e a capacidade de convencê-lo de que o seu “produto” irá suprir as necessidades dele. Uma sinopse envolvente e cativante irá passar de mão em mão juntamente com o seu roteiro. Um filme é um trabalho em grupo, e quando o produtor quiser convencer o diretor ou algum ator de destaque de que aquele é um trabalho que vale a pena, ele também poderá acabar usando a sua sinopse como ferramenta de persuasão.

Por isso, leve muito a sério quando estiver escrevendo a sinopse do seu trabalho duro de um ano inteiro. Aquelas poucas palavras podem abrir, ou fechar de vez, as portas para o seu filme.

Uma boa escrita, com excelentes sinopses, para você!

29/01/2010

Não seja o melhor: Faça o seu melhor

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 06:48

Herman Melville e sua Moby Dick

Resenha do livro Moby Dick, de Herman Melville, da editora Nova Cultural:

“A descrição feita por Herman Melville (1819-1891), em 1851, da caça à baleia-branca é uma alegoria da luta do homem contra as forças da natureza, avassaladoras e destruidoras, que, no entanto, se encontram presentes dentro do próprio homem. Nem a obra nem o autor foram compreendidos à época, o que fez de Moby Dick um fracasso. O tempo se encarregaria de fazer justiça: Moby Dick é considerado por muitos, hoje, o maior romance já escrito nos Estados Unidos.”

Edgar Allan Poe e o seu Histórias Extraordinárias

Trecho do divertido livro A Vida Secreta dos Grandes Autores, de Robert Schnakenberg, Ediouro:

“Atualmente pode-se encontrar o rosto de Edgar Allan Poe (1809-1849) reproduzido em tudo, desde paredes de livrarias até garrafas de cerveja. Mas nem sempre foi assim. O mais famoso produto de exportação literário dos Estados Unidos morreu na miséria e amplamente antipatizado em seu próprio país. Coube aos franceses (que insistem em se referir a ele como “Edgar Poe”, por razões desconhecidas) ressuscitar a sua reputação e elevá-lo ao status de ícone que ele desfruta hoje em dia. Edgar Allan Poe foi o pai da ficção macabra, um escritor cujas histórias sinistras e poemas pertubadores pavimentaram o caminho para H. P. Lovecraft e Stephen King. Ele também tinha medo do escuro. “Acredito que os demônios se aproveitam da noite para enganar os incautos”, ele certa vez confessou a um amigo. “Embora, é claro”, apressou-se em acrescentar, “eu não acredite neles.””

Nota: Foi Baudelaire quem publicou na França, em 1849, ano da morte de Poe, o livro Contos do Grotesco e do Arabesco, que lá (e aqui) ficou com o título de Histórias Extraordinárias. Este livro contém alguns dos contos mais famosos de Poe (e que inspiraram muitos filmes).

Eu acho que é natural a ambição de qualquer profissional, de qualquer área, querer ser o melhor no que faz. Isto inclui os roteiristas, é claro. Querer ser o melhor é um desejo genuíno, mas também pode lhe causar uma úlcera. Porque ser o melhor está além do alcance de qualquer pessoa. Nenhum ser humano tem controle sobre isto. Por outro lado, nós podemos, e devemos, fazer o nosso melhor. Muitos artistas morreram na miséria e sem reconhecimento nenhum. Alguns só tiveram seu trabalho reconhecido após a morte, mesmo assim apenas aqueles que puderam registrar (e ter conservada) a sua arte, como escritores, compositores, pintores e escultores. Atores e músicos talentosos, antes do advento do cinema e das gravações sonoras, não puderam deixar as suas obras para a posteridade.

No topo?!

Todos sabem que Van Gogh vendeu apenas um quadro na vida, e mesmo assim para o seu irmão. Hoje suas obras são as mais caras da história, e não se compra uma das mais baratinhas por menos de algumas dezenas de milhões de dólares. Vários artistas estavam muito além de seu tempo e não puderam desfrutar do suor de seu trabalho quando vivos. Isso não significa que eles não fossem talentosos e geniais, apenas estavam no lugar errado, na época errada. Mas suas sementes permaneceram e germinaram, inspirando muitos outros que passaram a admirar suas obras.

Eu não quero dizer com isto que devamos ralar até os 105 anos de idade, na maior miséria, e ficarmos felizes por conseguirmos a fama 5 minutos após a nossa morte. Se este for nosso destino, estará além de nosso alcance mudá-lo. Por isso mesmo devemos nos concentrar no que podemos fazer, no que podemos mudar. Caso estejamos na profissão que amamos, ralar para vivê-la, para realizá-la, mesmo que aparentemente tudo esteja contra nós,  não será um fardo tão pesado quanto parece, pois nosso espírito estará tranquilo por fazer o que quer, da maneira que acredita ser a mais acertada. Tem muito escritor famoso que começou escrevendo durante as horas da madrugada, dormindo umas 5 horas por dia, trabalhando o dia inteiro num emprego maçante para poder pagar as contas, e só depois de muitos anos conseguir viver de sua arte. Eles precisavam fazer isso porque seu espírito exigia se expressar. Dormir 8 ou 9 horas por dia não era o que os realizaria e deixaria felizes. Quando damos o melhor de nós mesmos, mais cedo ou mais tarde somos recompensados, e, mesmo que a fama e o reconhecimento ocorram apenas após a nossa morte, o importante é que tentamos.

Dando o melhor de si

Você pode até continuar querendo ser o melhor, mas  lutar dia a dia, hora a hora para fazer “apenas” o seu melhor lhe dará muito mais satisfação e tranquilidade na vida. Mesmo que não tenha o reconhecimento que acha que merece, ao fazer o melhor possível, você poderá colocar a cabeça no travesseiro todas as noites e dormir o sono dos justos. E se, em comparação com todos os roteiristas do mundo, você ficasse em último lugar, ao saber que fez o melhor que pôde, você teria uma paz interior que nenhum dinheiro poderia comprar.

Tô tranquilão…!

A competição não está fora de nós, mas dentro. Deveríamos competir apenas com nós mesmos. Deste modo, mesmo que cheguemos ao topo do mundo, ainda teremos motivação para seguirmos em frente e melhorarmos todos os dias, porque nosso maior competidor ainda estará na luta e com muito a aprender. Nossa evolução é eterna. E isso é que é divertido!

Um abração, boa escrita, muita paz de espírito, e até amanhã!

28/01/2010

Ernest Lehman – Parte 7

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 20:37

Olá! Esta é a sétima e (ufa!) última parte da tradução livre da longa matéria da edição de junho/julho de 2001 da revista Written By, que reproduz alguns trechos do livro de Ernest Lehman, How The Hell Should I Know? – Tales from my anecdotage (Como Diabos Eu Ia Saber? – Contos de minha senilidade).

Me parece que este livro jamais foi editado, ele não o terminou antes de morrer. Pelo menos procurei na Internet e não encontrei nada. Uma pena, deve ter várias outras situações impagáveis que nunca conheceremos. Mas vamos aos últimos episódios da matéria (hoje tem mais coisas picantes!):

Ernest Lehman

Quem Tem Medo de Virgínia Wolf? (Who’s Afraid of Virginia Woolf?, 1966) foi a minha primeira experiência como produtor (além de também fazer o roteiro), e, por motivos além da minha compreensão, eu tive que ter uma terceira linha de telefone instalada em minha casa.

Batalhando muito para conseguir o ator certo para o papel de George, rasgando lista após lista de atores, de repente eu escutei o novo telefone tocar! O novo telefone! Pela primeiríssima vez! E o instalador tinha acabado de sair!

— “Ernie?” – uma voz brusca.

— “Sim, mas como diabos…”

— “Aqui é Burt Lancaster”. Quase raivoso.

Susan Harrison e Burt Lancaster em Sweet Smell of Sucess

— “Como diabos você conseguiu este número?” – A minha mão tremia.

— “Isso não importa. Eu só quero que você saiba que eu quero ser considerado para o papel no Virgínia Wolf!”

— “Você está brincando, Burt? Eu estou sentado aqui com uma lista, e você está…”

— “Eu quero estar nessa lista!”

— “Burt, você está brincando? É claro que você está nela!”

— “Ainda bem!” – e ele desligou. E a minha mão ainda estava tremendo quando eu adicionei mais um nome à lista.

Ernest Lehman e Elizabeth Taylor

(Nota da Tradutora: Richard Burton, na época casado com Elizabeth Taylor, abocanhou o papel de George).

*****

Ernest Lehman (à direita) dirigindo Richard Benjamin em O Complexo de Portnoy

Eu deveria escrever, produzir e dirigir (pela primeira vez) a versão filmada de O Complexo de Portnoy (Portnoy’s Complaint, 1972) de Philip Roth. Richard Benjamin já tinha sido contratado para representar Portnoy, e eu estava entrevistando atrizes para interpretar a namorada dele, a “Macaca”. Dick Benjamin me suplicou para que eu escolhesse a sua esposa, Paula Prentiss. Eu fui firme ao dizer não; ela não servia para o papel. Ele veio à minha casa e fez mais uma súplica apaixonada. Eu continuei dizendo não. Finalmente chegou o dia da entrevista particular dela. Ela deitou no carpete do meu escritório e gritou que jamais sairia dali até que eu desse a ela o papel. Ela estava soluçando amargamente, desamparadamente, enquanto eu a encaminhava para a porta de saída.

De leste a oeste do país os críticos de cinema denominaram O Complexo de Portnoy O Pior Filme do Ano.

Trinta anos depois, Paula e Dick Benjamin são um dos casais mais bem casados de Hollywood.


Paula Prentiss e Richard Benjamin

*****

Lehman com Gene Kelly e Barbra Streisand no set de Alô, Dolly! – 1968

Escrever e produzir a versão cinematográfica do necessariamente opulento Alô, Dolly! (Hello, Dolly!, 1969), com os justificavelmente caros e extremamente talentosos diretor, coreógrafo, diretor de fotografia, diretor de arte e figurinista, e os sets mais caros da história do cinema, sem esquecer da Barbra Streisand e do Walter Matthaw, e dos 7.000 — note bem, 7.000 extras; em suma: tinha peso suficiente sobre os ombrinhos desta pessoa aqui para causar um colapso nervoso em Fort Knox. Eu aparecia para almoçar todos os dias no restaurante executivo, encarando homens cujo primeiro pensamento ao me ver entrando era, eu tenho certeza, “Quantas centenas de milhares de dólares ele nos custará hoje, para ajudar a acelerar o fim do estúdio?”

Nesta tarde em particular eu chego, como de costume, e o restaurante está abarrotado de gente, com apenas um lugar disponível, como se estivesse à espera de alguém, com um estranho sino de prata sobre a mesa, em frente à cadeira vazia. Quando eu entrei, todos os olhares pareciam se dirigir a mim (todos os olhos estão sempre sobre mim a vida toda, e seus olhares são sempre de reprovação).

Eu sentei e esperei, desconfortável. Os Engravatados, para minha surpresa, estão sorrindo para mim, como um tipo de estranha cordialidade. Eu esperei pela garçonete, dedos batucando constrangidamente na mesa, e esperei, e esperei, e esperei.

— “Onde diabos está a garçonete?”, eu me queixei. “Eu tenho um filme de 20 milhões de dólares lá fora à espera de ser produzido!” (O pequeno figurão e chefe de estúdio) Richard Zanuck, na cabeceira da mesa, diz:

— “Por que você não toca o sino à sua frente?”, ele aponta.

— “Ah, o sino? Eu nunca vi este sino aqui antes”. Eu o peguei e o badalei como se toda a 20th Century Fox estivesse pegando fogo.

Eu estou de costas para a entrada. Por que eu imagino que todos os olhares estão sobre mim, como se o toque daquele sino, o que todos eles obviamente estavam esperando, era mais impactante do que Paul Revere cavalgando?

Subitamente, finalmente, um cardápio me é entregue por trás.

— “Já era tempo! O que você recomenda?”, eu meio que resmunguei.

— “Que tal eu?”, uma doce voz respondeu. (Seria alguém novo?)

— “Olha, eu tenho só uns 11 minutos e um filme de 20 milhões de dólares para fazer” (homem importante na área). “O que você sugere?”

Com ainda mais doçura: “Que tal eu?”

Raivosamente eu comecei a me virar, mas nunca cheguei a fazê-lo porque, com uma graça e rapidez belamente calculados, o corpo de uma jovem nua, com magníficos e fartos seios, pernas compridas e nem um único pedacinho de pano, havia deslizado e deitado em meu colo, ela olhava para mim, enquanto o som estrondoso de gargalhadas estourava, e Richard Zanuck quase explodia de rir. Eu não sabia onde botar os meus olhos, exceto no teto, que era muito baixo, ou nas faces contorcidas ao redor da mesa, ou na coisinha nua, jovem e doce, que sorria para a minha face enrubescida. E eu, com uma das mãos agarrando o cardápio e a outra mão livre apontando para Zanuck, gritava:

— “Que maldito sino, heim!”

E aquela voz, ah, aquela voz! (ah!, aquilo tudo!), murmurando para mim: “Vamos lá, que tal eu?”

Eu baixei os olhos para ela.

Como eu disse, uma de minhas mãos estava livre. Eu joguei o cardápio longe.

Para o inferno com o filme.

*****

Quando eu estava escrevendo o roteiro do último filme de Hitchcock, Trama Macabra (Family Plot,1976), eu nunca visitei o set ou estive nas locações de filmagens. Eu devia estar trabalhando em outra produção noutro lugar. Eu tenho, no entanto, um vívida lembrança que realmente não tem nada a ver com o filme.

Alfred Hitchcock com o elenco de Trama Macabra (no centro, com Barbara Harris)

Hitch não havia aparecido no estúdio por uma semana inteira. Eu havia sido informado de que ele havia escorregado num pequeno tapete em casa, caído, e se machucado.

Quando ele voltou, nós estávamos de pé no meio de seu escritório quando eu expressei a minha felicidade de vê-lo novamente.

Eu disse: “Foi uma queda feia?”

Ele disse: “Olha.”

Eu olhei.

Ele havia baixado suas calças e sua cueca até o chão.

Foi eu que quase caí duro.

*****

É isso aí, pessoal, infelizmente acabou. Espero que tenham se divertido tanto quanto eu. Amanhã continuaremos com assuntos diversos, mas todos relacionados com roteiro.

Um abração, boa escrita e até lá!

27/01/2010

Ernest Lehman – Parte 6

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 15:06

Hoje já estamos na penúltima parte da tradução livre da longa matéria da edição de junho/julho de 2001 da revista Written By, que reproduz alguns trechos do livro de Ernest Lehman, How The Hell Should I Know? – Tales from my anecdotage (Como Diabos Eu Ia Saber? – Contos de minha senilidade). Vamos a ela:

Ernest Lehman

Já contei esta história várias vezes, sempre que sentia que o meu público poderia aguentar a sua duração, suas viradas e reviravoltas, e, talvez, a sua aparente implausibilidade. De qualquer modo, nós estamos em meados dos anos 1960 e Darryl F. Zanuck tinha acabado de sair vitorioso de uma batalha de sucessão como o presidente e CEO da 20th Century Fox Film Corporation, que estava financialmente para expirar para sempre. Seus escritórios e palcos de som estavam desertos, seus restaurantes e lanchonetes fechados, algumas poucas propriedades de filmes em potencial paradas e intocadas em suas prateleiras, com o jovem filho Richard Zanuck relegado por seu pai a uma posição sem nome, com uma mesa e um telefone em um dos bangalôs externos. (O próprio Darryl tinha de fazer os seus serviços presidenciais a partir da suíte do Hotel St. Regis em Nova York, porque uma ameaça legal de sua ex-mulher, Virginia, estava à espera de qualquer aparição dele no estado da Califórnia).

Darryl F. Zanuck e seu filho, Richard Zanuck

A cidade inteira, bastardos invejosos e desprezíveis que eram, esperava impacientemente que suas preces fossem atendidas, e que os portões da Fox fossem oficialmente fechados para sempre.

Mas eu tinha viajado para a cidade de Nova York e fui assistir a um musical da Broadway em sua segunda semana de exibição. Apesar dos comentários indiferentes (o Herald Tribune havia sido especialmente cruel), eu tinha dito para a minha esposa, durante o intervalo: “Eu não ligo para o que os outros dizem; algum dia eles farão um filme de muito sucesso.” E quando nós voltamos para casa em Brentwood, eu repeti isto para outras pessoas, inclusive para o executivo David Brown, meu grande amigo desde que eu tinha 9 anos. O conteúdo de minha tagarelice espontânea foi espalhada por ele para o alto escalão da 20th e logo a seguir Dick Zanuck me convidou para o seu bangalô e disse: “Cê sabe, Ernie, como a Fox fez O Rei e Eu (The King And I, 1956) a um tempo atrás, nós conseguimos a primazia aos direitos dos futuros musicais de Rodgers e Hammerstein, e foi assim que aconteceu de termos A Noviça Rebelde (The Sound Of Music) juntando poeira em nossa estante.”

— “Você quer dizer que a Fox possui os direitos da Noviça Rebelde?”

— “Por um milhão e meio.”

— “Eu tinha falado sobre isso por todo lado. Eu nunca sonhei…”

— “Foi o que eu escutei de Dave Brown.” (pausa que muda uma vida) “Você quer escrever o roteiro?”

Ele parecia estar falando sério. “Mas todo mundo diz que o estúdio está fechando.”

— “Deixe-os continuar dizendo isso”, disse Dick, indignado. “Você quer escrever o roteiro?”

— “Jesus, sim, mas eu posso falar com os meus representantes na Agência Morris?”

— “Claro. E, ouça, apenas como um sinal de boa vontade, eu lhe darei dois e meio por cento dos lucros.”

Eu não caí exatamente de joelhos de gratidão.

— “Eu sei”, ele disse. “É apenas uma amostra de boa vontade.”

Um dos meus agentes, que estava na cidade, vindo de Nova York, disse: “Você não quer se envolver nisso, Ernie.”

— “Eu sei. Eu vi como estão as coisas lá. Mas eu vou dizer sim.”

— “A vida é sua”, falou o agente, mal-humorado.


Duas páginas das anotações que Lehman fez durante seu encontro com Maria Von Trapp, na época em que ele estava escrevendo A Noviça Rebelde; e os verdadeiros Von Trapp.

Por isso que, dois dias depois, tanto a Daily Variety quanto o Hollywood Reporter publicaram em suas principais manchetes a grande novidade da indústria: que a 20th Century Fox não estava para fechar. Em letras garrafais nas primeiras páginas estava: “Fox contrata Lehman para escrever o roteiro de A Noviça Rebelde“. Eu havia pedido que os meus agentes colocassem uma cláusula estranha no contrato: eu seria o único que poderia escrever o anúncio de minha contratação. A Fox naturalmente concordou. Por que não? Eu queria que tudo fosse grandioso (especialmente a minha contratação), por isso precisava fazer o resto parecer grande também. Assim, nas longas notas de imprensa que eu escrevi, eu falei que tinha sido contratado por “Richard D. Zanuck, Vice-Presidente a cargo da Produção da 20th Century Fox”. Eu queria ser contratado por um “chefe de estúdio”, não por um rapaz de bangalô, e assim, acredite se quiser, foi como Richard Zanuck “tornou-se” o chefe de um grande estúdio de cinema (o título colou); ele mudou-se para uma suíte chique no Prédio Principal e foi em frente, sim, pessoal, como ele foi em frente nos anos que se seguiram, agora com o V.P. David Brown ao seu lado, para liderar a Fox por um período de estrondosa prosperidade.

Ernest Lehman e Julie Andrews

Quanto a euzinho, eu era agora apenas um roteirista solitário sem nenhum diretor nem produtor, com apenas um escritório, a minha máquina de escrever e uma boca grande que saiu falando demais num show da Broadway, para corresponder às expectativas criadas. O que fazer? O que fazer?

Robert Wise dirigindo Amor, Sublime Amor

Desapontadoramente, Bob Wise, a primeira escolha óbvia, que havia ganho dois Oscars como produtor e diretor do “meu” Amor, Sublime Amor (West Side Story, 1961), recusou Zanuck logo de cara. Bob tinha ouvido tudo sobre algumas críticas de Nova York — quanto à versão do filme ser “melosa demais para ele”. Além do mais, ele estava para filmar O Canhoneiro de Yang-Tsé (The Sand Pebbles,1966) em Taiwan com o durão do Steve McQueen.

Eu repito, eu estava por conta própria, um escritor sem escrever, atuando como um produtor sem produzir, procurando por um diretor não-existente, e precisando demais de ambos. Eu fiz uma ligação à longa distância para Stanley Donen em Gstaad, na Suíça. “Obrigado, mas não, obrigado”, ele disse da forma mais gentil possível. “Eu já investi muito dinheiro no show. Isso já é o suficiente, você não acha?”. Eu liguei para George Roy Hill. “Eu te amo, Ernie, mas essa não é a minha praia.” Eu dei uma passada na casa de Gene Kelly em Beverly Hills numa noite, e após a minha gentil conversa de vendedor, ele me pegou pelo braço e me levou para fora da casa, através do gramado, dizendo: “Ernest, vá encontrar outra pessoa para dirigir esta merda.”

Os diretores Stanley Donen, George Roy Hill e Gene Kelly

Na Fox, no dia seguinte, eu topei com Burt Lancaster, que estava usando os equipamentos do estúdio para dublar O Leopardo (Il Gatopardo, 1963). “O que você está fazendo aqui?”, ele perguntou.

— “O roteiro de A Noviça Rebelde”, eu disse.

Ele me deu uma boa olhada. “Jesus, você deve estar precisando de dinheiro.”

*****

Ironicamente, A Noviça Rebelde, que custou à Fox cerca de 8,2 milhões de dólares, arrecadou mais de 163 milhões nas bilheterias americanas, e mais de 123 milhões nas bilheterias do resto do mundo (num total de 286.214.286 de dólares de arrecadação), sem contar os DVDs e CDs vendidos até hoje. O filme recebeu vários prêmios, inclusive o Globo de Ouro de Melhor Filme e o de Melhor Atriz para Julie Andrews (que também foi indicada ao Oscar), além de 5 Oscars, entre eles o de Melhor Filme e o de Melhor Direção para Robert Wise (sim, ele acabou mudando de ideia). Só no primeiro mês, sua trilha sonora vendeu mais de um milhão de cópias. Ele quebrou os recordes de bilheteria por todos os lugares em que foi lançado. Mais de um bilhão de pessoas já assistiram a este filme nos cinemas e várias listas dos melhores filmes do século o incluem entre os do topo. Quem diria que Lehman tenha passado por tanto perrengue para arranjar gente para produzi-lo e dirigi-lo?!

Robert Wise no set de filmagens

Para quem lê em inglês e gosta do filme, tem um livro de memórias bem interessante escrito pela atriz Charmian Carr, que atuou como Liesl, a filha mais velha do Capitão Von Trapp. Ela fala como era o dia-a-dia das filmagens e as histórias dos bastidores (infelizmente ainda não tenho o livro, só li as resenhas). Este livro chama-se Forever Liesl: A Memoir Of The Sound Of Music, e pode ser encontrado tanto na Amazon quanto na Livraria Cultura online.

Amanhã será a sétima e última parte desta longa matéria. Espero que estejam gostando. Um abraço, boa escrita para todos, e até lá!

26/01/2010

Ernest Lehman – Parte 5

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 14:43

Olá! Hoje temos mais uma parte da tradução livre da longa matéria da edição de junho/julho de 2001 da revista Written By, que reproduz alguns trechos do livro de Ernest Lehman, How The Hell Should I Know? – Tales from my anecdotage (Como Diabos Eu Ia Saber? – Contos de minha senilidade):


Hitchcock e eu nos fitávamos melancolicamente, sentados na sala de estudos de sua casa, dia após dia, sem ousar informar à diretoria da MGM que nós tínhamos abandonado The Wreck of The Mary Deare (O Naufrágio do Mary Deare) como algo impossível de ser feito, mesmo após o estúdio ter comprado o romance especificamente para Hitch produzir e dirigir e para eu escrever. O quer fazer? O quer fazer no lugar?

(Nota da Tradutora: O filme foi produzido pela MGM em 1959, com o título nacional de O Navio Condenado, dirigido por Michael Anderson e escrito por Eric Ambler, baseado em livro de Hammond Innes).


Uma dúzia de ideias surgiram e foram rejeitadas. Eu tinha meu lápis e meu bloco de folhas amarelas de prontidão, esperando em vão.

“Cê sabe”, Hitch refletiu, “eu sempre quis fazer a mais longa tomada com dolly da História…”. Eu peguei o meu bloco e o lápis, “…filmado em uma fábrica de automóveis em Detroit, onde nós começamos do princípio, quando a primeira peça de um automóvel aparece, e então a próxima, e a próxima, e a próxima, enquanto a câmera na dolly segue ao longo da linha de montagem, até chegarmos ao final, e um carro completo sai andando da linha de produção”, ele fez uma pausa, “e há um cadáver no banco de trás.” Eu amei aquilo. “Não escreva isso. Eu devo usar isso algum dia.” Eu soltei o lápis.

Dolly – Uma câmera montada sobre um carrinho que geralmente corre sobre trilhos, para fazer uma filmagem com movimentação suave.

Nós nos fitamos mais, muito mais, rejeitando as idéias um do outro, uma após a outra, quando Hitch disse, um tanto desejoso, “Cê sabe, eu sempre quis fazer uma perseguição através dos rostos do Monte Rushmore.”

Eu peguei rapidamente o meu lápis. “Não escreva isso”, ele disse. “Eu posso querer usá-lo algum dia.”

Eu não larguei o meu lápis.

Página do manuscrito de Intriga Internacional

*****

Trabalhando como um roteirista em Hollywood ao longo dos anos, vendo e ouvindo e lendo os diretores roubando todo o crédito, e lendo aqueles malditos críticos de Nova York ignorando os meus roteiros a favor dos produtores e diretores que sempre sobem ao palco para receber os Oscars, agradecendo a todo mundo, inclusive aos assistentes dos assistentes de fotografia, mas nunca ao escritor; isso tudo lentamente, gradualmente, inevitavelmente atacou e inflamou não apenas o meu sentimento de injustiça, mas o meu calcanhar de Aquiles de uma vida inteira – uma tendência assustadora e agonizante para um (talvez-seja-câncer) cólon espasmódico.

Por este motivo eu me encontrei banido pelos médicos do hospital para longe de minha esposa e filhos, para deixar tudo o que estava me matando para trás (ou seja, Hollywood). E lá estava eu, sentado numa lancha aberta numa lagoa em direção à Papeete, Taiti, ao final de uma longa viagem, a-primeira-fora-do-país, do Hospital Cedars of Lebanon através da empresa aérea Tasman Empires Airway Limited, passando pela Samoa Ocidental, pelas Ilhas Cook e por Aitutaki, junto com a minha constante preocupação interior: Onde eu estou? Por que estou aqui? Eu conseguirei voltar? O que aconteceu comigo? Estou a caminho do nada no Taiti.

Eu estou na lancha aberta, a 10.000 milhas de tudo, olho para os meus companheiros de viagem, e eles parecem ávidos e à vontade. Que diabos eles têm de errado? Eles não estão cheios de pavor, com uma terrível dor de barriga e no segundo estágio de um colapso nervoso?

Há um cara jovem em seus 30 e poucos anos acompanhado de uma bela mulher, e ambos parecem tão felizes e à vontade enquanto nos aproximamos da costa que eu queria poder sacudi-los e estapeá-los. Eu estou nos primeiros estágios de um comportamento hipermaníaco latente.

Eu me dirigi a eles. – “Por que diabos vocês dois estão tão felizes?”

– “Oi, eu sou Bill”, diz o cara, alegremente.

– “Eu sou Caroline”, diz a garota dele. “Quem é você?”

– “Ernie”, eu respondo.

Acidamente, Bill diz: – “Nós viajamos 10.000 milhas para ficarmos longe de americanos e aqui estamos nós nos aproximando das praias do Taiti com um americano.”

– “Assim é o show business”, eu respondi bruscamente.

– “Oh, você trabalha no show business?”, Caroline pergunta.

– “Sim”, eu digo, “mas você jamais saberia.”

– “Que tipo de trabalho você faz?”, Bill pergunta.

– “Eu sou um roteirista”. Danem-se eles.

Bill me observa longa e atentamente.

– “Ernie… Ernest: Ernest Lehman: Executive Suite… O Rei e Eu… Sabrina… Sweet Smell of Success…

Eu olhei para ele, profundamente admirado. “Quem é você?”

Ele sorri maliciosamente. “William K. Zinsser, crítico de cinema do New York Herald Tribune.”

William K. Zinsser

– “Oh, meu Deus!”

– A minha lista dos 10 Melhores Filmes está em minha mesa esperando ser publicada quando eu voltar para casa, e por favor, não vá virar esta lancha quando eu lhe contar que o seu Somebody Up There Likes Me (Marcado Pela Sarjeta, 1956) está numa posição proeminente da lista, com muito destaque dado ao roteirista, e você merece isso”, ele diz. “Você é daqueles roteiristas que merecem isso.”

Os médicos tinham dito que eu precisaria de dois meses inteiros no Taiti para me recuperar. Eu consegui em três semanas e voltei para Hollywood para começar a trabalhar em outro filme.

O produtor-diretor e eu nunca conseguimos escolher um título de que nós dois gostássemos, então o filme foi finalmente lançado com o meu título provisório: North By Northwest (Intriga Internacional).

Por hoje é só, pessoal, amanhã tem mais (não, ainda não acabou)! Boa escrita e até lá!

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