Dicas de Roteiro

29/12/2009

Cinema Brasileiro

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 09:45

Quando eu estava na Faculdade de Cinema da UFF em meados dos anos 1990, pouco após a chamada Retomada do Cinema Nacional,  eu participei de uma pesquisa sobre cinema brasileiro. Eu fazia algumas perguntas às pessoas, como: Qual o último filme a que você assistiu? e Qual o seu filme brasileiro favorito?, coisas assim. A maioria das pessoas que eu entrevistei dizia que não assistia a filmes brasileiros porque eles não tinham história, eram muito malucos, cheios de sexo e palavrão. E quando eu indagava a qual filme brasileiro elas haviam assistido, elas diziam que nunca haviam assistido a nenhum! Então como elas sabiam que os filmes eram todos assim? Elas respondiam que seus pais disseram isso. Por este motivo nunca tiveram interesse em assistir a filmes brasileiros. É impressionante o impacto que filmes, bons e ruins, causam na vida das pessoas, afetam até a geração seguinte!

Já foi dito que o Cinema Novo divorciou o público do cinema nacional. Isso já causou muita polêmica por aí. É verdade que houve grandes sucessos de público na década de 1960 e 1970, porém, é verdade também que o espectador brasileiro passou a rejeitar este tipo de filme e estética. Muitos filmes dessa época a que eu assisti realmente não tinham enredo nenhum e eram recheados de cenas de sexo gratuitas e diálogos em que, de cada 10 palavras, 11 eram palavrões. Qualquer um que queira pode conferir se isto é verdade ou não. O Cinema Novo se inspirou no Neorealismo italiano, fazendo filmes politizados para criticar a sociedade. Isto é uma ambição venerável. A estética “pobre”  e “doida” do Cinema Novo também pode ter surgido de uma busca pela liberdade criativa, o que também é louvável. Porém, acredito que deve existir espaço para todos.

Muitos críticos e professores de cinema rejeitam o tal “Cinema Clássico Narrativo”, ou seja, o cinemão americano de Hollywood, com seu enredo estruturado e sua história com começo-meio-fim, como se isto fosse uma heresia, ou uma ofensa pessoal. Não é o enredo estruturado que faz um filme bom ou ruim. No entanto, a falta dele tem um impacto direto sobre a história que se quer contar e a compreensão que o espectador tem sobre ela. E envolver e conquistar o espectador deveria ser o objetivo final de todo filme. Filmar é muito caro e envolve trabalho e gente demais para que o produto final seja assistido apenas pela equipe que o criou e seus amigos e familiares.

Eu não assisti ao filme abaixo, mas pela propaganda dá para ver que o preconceito contra escrever roteiros estruturados continua firme e forte entre nossos cineastas:

Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça. Bem Cinema Novo. Mesmo assim este longa pode ser bom, excelente até, quem sabe? Assista e julgue por si mesmo. Depois me conte o que achou!

Nos últimos 15 anos o cinema nacional reconquistou muito do público que o rejeitava, mas tem muito terreno para explorar ainda. Como roteirista, estude a história do cinema brasileiro. Leia livros sobre o assunto e assista a todos os filmes que puder com um olhar crítico, garimpando as qualidades e reconhecendo os defeitos de nossa história cinematográfica, para incorporar as primeiras e evitar os últimos em seu próprio trabalho. A TV Brasil exibe muitos filmes raros que não se encontram em locadoras. Vale a pena conferir.

Não adianta idolatrarmos o passado, nem tampouco demonizá-lo. Tudo faz parte de nossa trajetória e de nosso aprendizado como povo. Nenhuma cinematografia do mundo é perfeita, feita apenas de filmes maravilhosos. Devemos abraçar nossos acertos e aprender com nossos erros, com orgulho de sermos brasileiros, sempre.

Boa escrita pra você!

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2 Comentários

  1. Eu penso que se pode fazer o que deseja. Muito filme, ou registro, deve ser feito apena spara ser guardado e se você defede uma estética, como muitos o fizeram, vale a pena fazer o filme do modo que quiser. Quando citamos filmes comerciais, como na música, todos os autores usam o mesmo caminho ou “modo de fazer”, tipo receita de bolo. cabe para o mercado. Mas há autores que testam suas estéticas. Como fazer filme é caro é impossivel muiutos testes. Se pudéssemos testar sempre os que estudam chegariam a estética definidas e testadas. Sugiro que testemos nos curtas. O cinema americano impõe regras e os colonizados as seguirão. É isso.

    Comentário por COELHO DE MORAES — 04/02/2011 @ 18:21

    • Oi de novo, Coelho de Moraes! :mrgreen:

      Eu acredito que o cinema americano está numa fase decadente e acho interessante as pessoas fazerem experimentos com a linguagem e a estética, porém, não aprecio a inovação apenas pela inovação. Eu acredito que a fase de ouro de Hollywood ocorreu porque todas as inovações (de efeitos especiais, de linguagem, de fotografia, tecnologia etc.) estavam totalmente a serviço da história, o que é praticamente o oposto do que ocorre hoje. Vamos ao cinema para assistir ao 3D e aos efeitos especiais, e não a história. Eu acredito que os americanos não estão errando na forma, mas sim no conteúdo. E para o conteúdo não há receita de bolo, é necessária muita criatividade, inteligência e talento para isso, qualidades que são raridades neste ramo atualmente. Simplesmente porque é bem mais fácil investir num novo efeito especial espetacular.

      Concordo que as pessoas devam experimentar novas estéticas nos curtas, mas mesmo neles, as inovações deveriam servir para algo, para transmitir uma emoção, para contar a história de uma forma mais interessante, para envolver e surpreender mais o público. Os americanos, depois de muitos testes e experiências, encontraram seu melhor método de contar histórias (a estética), linguagem esta compreensível para pessoas de todas as nacionalidades e culturas do mundo, o que é algo realmente admirável (inclusive, talvez este resultado foi conquistado porque a história do cinema americano tem sido escrita por profissionais de muitos países). E é esta cinematografia, o chamado cinema comercial, que sustenta o cinema “independente” (quando não são os governos que o subsidiam). Eu digo isso porque nossa arte é para as pessoas, para o público, e não apenas para nós mesmos, e, infelizmente, várias vezes já vi gente saindo da platéia no meio da sessão xingando os curtas em festivais que assisti, principalmente por conta de uma estética vazia. E este tipo de reação é algo que eu realmente não quero para mim nem para ninguém. Fazer filmes é algo muito caro, demorado e difícil, e acredito que todos os artistas sonhem em encontrar o sucesso de público, mas é necessário fazermos nossa parte para que isso aconteça.

      É por isso que fiz este blog, para que não tenhamos de reinventar a roda, e que nossas invenções e inovações sejam sempre bem aplicadas, para contarmos histórias cada vez melhores e melhor, afinal este é o objetivo do Cinema, não é mesmo?

      Um grande abraço, Coelho de Moraes, e uma ótima semana pra você!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 06/02/2011 @ 18:55


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