Dicas de Roteiro

28/12/2009

Flashforward

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 10:58

Muitos livros de roteiro dizem que deve-se começar o filme com cenas instigantes para fisgar o espectador logo nos primeiros 10 minutos, caso contrário o interesse dele estará perdido. Por causa disso é muito comum os roteiristas (ou o diretor e o editor) colocarem parte da cena final na abertura do filme. O que deveria ser o clímax final passa a servir de chamariz no começo. Este artifício é um tipo de trapaça que prejudica o espectador. Aliás, flashforwards são, na maioria das vezes (há exceções), trapaças. São usados com a finalidade de encher linguiça ou atrair os incautos. Poucas vezes eles têm sido usados com mestria e no momento certo. Mostrar o final do filme no começo tira boa parte do mistério e da emoção do filme. Se o roteirista acha que tem um começo pouco atraente, deveria ralar para melhorá-lo, sem estragar o final ao fazer isso. Começando um filme pela cena final você torna a história toda um grande flashback, afinal estamos voltando ao passado para explicar como aquela cena final pôde acontecer.

Como William C. Martell disse no artigo de ontem, “se você quer começar o seu roteiro no final cronológico, você está livre para fazer isso”. Ele tem razão, o filme é seu e você tem toda a liberdade para fazer o que quiser,  mas pense bem se é mesmo necessário e recomendável tirar parte do suspense, do mistério e da tensão da sua história para ter um começo mais excitante. Tente encontrar outros meios de adicionar emoção ao Ato I de seu roteiro. Vou citar dois exemplos de filmes que, na minha opinião, poderiam ter evitado este estratagema, e teriam tido muito mais suspense sem o flashforward: O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno – 2006) e Garota Infernal (Jennifer’s Body – 2009). Assista a esses filmes e analise se, sem ter visto o flashforward, você não teria tido muito mais suspense. Quando você mostra qualquer coisa do final no começo de um filme, principalmente num de suspense e/ou terror, você já fica sabendo se tal personagem está vivo ou não, e se estiver vivo, você não sentirá tanta ansiedade se o personagem estiver sendo perseguido, com a vida correndo risco. Já sabemos que ele sobreviverá mesmo, pelo menos até chegar àquela cena do flashforward no final. Isso estraga boa parte da graça do filme.

Alguns argumentariam que o flashforward serve para fisgar a curiosidade do espectador. A pessoa continuaria assistindo ao longa para saber o que aconteceu para que o personagem chegasse àquela situação. Mas este é o objetivo de todo filme! Vamos ao cinema para ver o que vai acontecer naquela história. Esse é o ponto principal de se assistir a qualquer filme. O público não deveria precisar de mais artifícios para se interessar pelo que vai acontecer, além de uma história bem contada, com cenas instigantes desde a apresentação. Porém a decisão final é e sempre será sua. Se você achar que mostrar o final no começo é absolutamente imprescindível e desejável, se isto poderá fazer o seu filme melhor, manda ver. Apenas procure ficar alerta para estraga-prazeres evitáveis.

Um exercício: Tente lembrar de filmes que usaram flashforwards tanto de forma agradável quanto desagradável para o seu gosto. Imagine o que você faria para melhorar a história sem o uso de flashforwards. Ou pense num modo de inserir flashforwards de forma interessante e original em qualquer filme a que você tenha assistido ultimamente.

Boa escrita pra você!

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2 Comentários

  1. oi Valéria.
    Ontem assisti “Um Sonho Possível” (The Blind Side), e logo no começo tem uma parte do personagem principal, Michael Oher (Quinton Aaron,)em uma situação de interrogatório.
    Depois passa a descrever toda a historia desde o começo. Esta parte que iniciou o filme aparece depois no final.
    Este flashforwards me deixou com mais curiosidade de ser resolvido conforme fui vendo o decorrer da história. Não sei se foi somente para mim, mas neste caso o flashforwards me deu mais vontade de ver o filme, foi como se eu tivesse mais pressionada a me envolver com a historia a fim de saber o porque o personagem Michael Oher acabou passando por aquela situação. O pior foi que quando passou a cena .. foi decepcionante.. rss.. Acabei criando uma falsa espectativa em cima do decorrer da cena. (este foi o lado negativo do flashforwards).
    Bjo. Obrigada pelo post. Estou lendo todos, desde o primeiro.

    Comentário por ana catrin — 17/07/2010 @ 16:16

    • Olá, Ana, estou super feliz que você esteja “descobrindo” o blog e nos acompanhando! Isso é super legal! Obrigada!

      Quanto a esse filme, eu não o assisti, mas sei bem como é, essa é a qualidade principal do flashforward, chamar a atenção e prendê-la, e é por isso que ele é amplamente usado. Mas o flashforward também tem esse lado ruim, é muito difícil a gente não se desapontar de uma forma ou de outra por causa dele! Se você mostra uma parte do clímax do filme logo de cara, isso terá efeitos insuspeitáveis nos espectadores. Por isso que eu não gosto muito desse artifício. Mas, se utilizado com muita inteligência, talvez até seja uma arma interessante! Vai depender da inspiração e da criatividade de cada um, não acha?

      Um beijo grande, Ana, e muito obrigada pelos ótimos comentários! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 17/07/2010 @ 18:51


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