Dicas de Roteiro

13/12/2009

Roteiro versus teatro e romance

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 17:58

“Os pensamentos voam e as palavras andam a pé. Esse é o drama de quem escreve.” – Julien Green

“Ser claro é o primeiro dever de quem escreve, encantar e agradar são graças que se adquirem mais tarde.” – Brander Matthews

“Uma boa regra geral, ao redigir, é ir riscando uma palavra a cada duas que você escreveu; você nem imagina quanto vigor isso pode dar ao seu estilo.” – Sydney Smith

“Procure todos os palavreados da moda que aparecem no que você escreveu e livre-se deles. Evite todos os termos e expressões, velhos ou novos, que tenham um ar afetado.” – Jacques Barzun

Segundo Charles Deemer, professor de Roteiro da Universidade de Portland State, o roteiro é diferente das outras formas de escrita de dois modos:

1) Roteiro é, na essência, uma forma colaborativa de escrita.

2) Em roteiros a história é mais importante que a retórica.

Apesar de escrever peças de teatro também ser uma forma colaborativa, onde uma história escrita será interpretada pelos atores e não lida diretamente pelo público, na peça de teatro o diretor e os atores não podem mudar uma palavra sem a permissão do autor, ele está sempre no controle. Já com o roteirista isso é o contrário. Ele só está no controle se produzir e dirigir o próprio filme. Por isso escrever roteiro é uma forma colaborativa de escrita. Você está escrevendo para outros, que irão se apossar de seu trabalho como se fosse deles e transformarão sua visão na visão deles.

Escrever roteiros não é uma forma narrativa que exija refinamento de linguagem, ao contrário. O roteirista deve escrever sua história de forma sucinta, direta, atrativa e eficiente, usando apenas vocabulário de nível de Ensino Fundamental II ou Médio (exceto nos diálogos). Escrever prosa rebuscada não é o objetivo do roteirista. Ele pode até caprichar no diálogo, mas sem exageros, pois num livro o leitor tem tempo de ler em seu próprio ritmo e digerir as palavras. No cinema não há tempo para captar toda aquela retórica floreada. Os diálogos são despejados com muita rapidez, se forem muito complexos o público irá tirar um cochilo, pois ficará boiando. E o diálogo deve sempre ficar em segundo plano em relação à ação, à movimentação em cena.

Um roteiro tem vários propósitos: é uma proposta de trabalho, um convite para fazermos um filme juntos; é a base do orçamento e do plano de arrecadação de fundos; é a planta-baixa de um filme para todos os outros artistas envolvidos. E sempre pensando no produto final e no público final, os espectadores. Se você não se importa com seu público, vá ser um poeta, romancista ou cronista. Se você escreve por escrever e não se importa se será lido ou não, se você vê a escrita como um fim em si mesma, não como uma arte colaborativa, não seja roteirista. Mesmo que seja um bom escritor.

Segundo Ronald B. Tobias, roteirista e professor de Roteiro e de Produção de Filmes da Universidade de Montana State , vários grandes romancistas, como William Faulkner, F. Scott Fitzgerald, George S. Kaufman, entre outros, tentaram a vida em Hollywood como roteiristas e fracassaram retumbantemente. São modos de escrita e de ver o trabalho totalmente diferentes. Um livro gasta apenas papel e tinta para ser produzido (e o tempo e trabalho de poucas pessoas além do escritor). Um filme envolve muita gente, tempo e dinheiro, e não pode ficar à mercê dos caprichos de apenas um profissional. Bestsellers são vendidos às centenas de milhares. Um super-bestseller alcança alguns poucos milhões de cópias vendidas. Já um filme blockbuster atrai dezenas de milhões, até mesmo centenas de milhões de espectadores. Apenas George Bernard Shaw, que fez apenas um roteiro em toda sua carreira, ganhou um Oscar de Melhor Roteiro em 1938 por Pigmalião (Pygmalion).

David Trottier, autor de livro de roteiro, diz que um romance descreve os pensamentos e emoções do personagem, página após página. É um grande meio para conflitos internos. Uma peça de teatro é exclusivamente verbal. O conflito numa peça de teatro se expressa através do diálogo. Novelas e seriados tipo sitcom entram nesta categoria. Um filme é primariamente visual, com algum diálogo. Pode até lidar com sentimentos, mas é primariamente um meio visual que requer escrita visual. É claro, existem exceções. Mas você deve usar o ponto forte do meio para o qual escolheu escrever. Faça seu roteiro visualmente poderoso. Roteiros de principiantes geralmente têm muito diálogo e pouca ação, muita tendência a falar ao invés de mostrar. Preste atenção nisso.

Boa escrita!

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2 Comentários

  1. Olá…

    gostei das dicas aqui no site.
    Quero saber se posso fazer algumas perguntas sobre como montar cenário por exemplo, vestuário entre outras coisas ligados ao roteiro.

    Obrigada,

    att.
    Vanessa Viana.

    Comentário por Vanessa Viana — 23/02/2011 @ 17:48

    • Olá, Vanessa!

      Cenografia e figurinos fazem parte da arte cinematográfica, mas infelizmente não são minha especialidade, sei muito pouco sobre isso. Talvez você encontre as informações que procura em sites mais especializados, aqui tratamos basicamente da arte de escrever roteiros, para cinema e TV.

      Um beijo e boa sorte!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 23/02/2011 @ 19:37


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