Dicas de Roteiro

09/12/2009

Gurus de roteiro

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 16:40

Um dos alunos da primeira turma de Roteiro de Syd Field no Rio de Janeiro perguntou a ele quais seriam os outros livros importantes para a formação de um roteirista. Syd respondeu:

“Nenhum. Basta que você estude meus livros e consiga dominar o procedimento que eu indico. Pronto, não precisa ler mais nada. Aí tem de escrever roteiro; escrever muito, reescrever; dedicar seu tempo e energia ao seu ofício. Se você quer ser roteirista e não professor, crítico, erudito no assunto, que utilidade pode ter essa quantidade enorme de livros sobre roteiro que entopem as prateleiras das livrarias? Você não precisa deles.”

[Trecho extraído do livro O Poder do Clímax – Fundamentos do roteiro de cinema e TV, de Luiz Carlos Maciel, Editora Record (págs. 19  e 20)]

Quando qualquer pessoa diz que apenas um livro deveria existir e ser lido, lembra os fanáticos de todas as épocas e culturas que queimavam as bibliotecas de seus conterrâneos e os registros de povos estrangeiros porque só o Corão, ou a Bíblia, ou o Livro Vermelho de Mao, ou Minha Luta de Hitler, ou o que quer que fosse, bastava. Quando a pessoa que diz isso é o próprio autor do livro que ele exalta, aí bate o sentimento de que aquela pessoa é extremamente vaidosa e arrogante. Qualquer livro que mereça estar no topo de todos os livros já feitos pela Humanidade não perderá nada com a comparação com outros livros. Ao contrário, se destacará. Se um indivíduo ler 10 ou 100 ou 1000 outros livros, aquele livro especial passará a ser mais especial ainda,  já que a pessoa terá conhecido apenas obras inferiores. Agora, se a obra em questão não merecer estar no topo, a leitura de outras obras comprovará isso. Isso sem falar que não existe nenhum livro no mundo capaz de resumir todo o conhecimento da Humanidade. A Bíblia não é um tratado de Engenharia, nem de Medicina, nem de Química, nem de Roteiro. Nenhuma obra, excelente ou não,  nunca mereceu nem merecerá que outros livros sejam queimados (ou ignorados) em seu nome.

Em segundo lugar, concordo com Syd Field de que o roteirista deve escrever sempre, e reescrever até estar satisfeito com seu trabalho. E concordo que as prateleiras das livrarias (americanas, no caso) estão abarrotadas de livros de roteiros, todo mês pelo menos mais um é lançado, e a maioria é medíocre, querendo ganhar dinheiro às custas do desespero do roteirista principiante ansioso por se destacar. Aliás, recomendo a leitura dos livros do Syd Field. São muito bons para quem está começando do zero. Porém, quando vamos colocar a mão na massa surgem muitas dificuldades que ele está longe de solucionar.

Por exemplo, existem livros especializados em ensinar como escrever diálogos suscintos, leves, diretos e originais. E livros que ensinam a escrever roteiros de curta-metragens. E livros que ensinam a escrever apenas comédias românticas. Livros que se especializaram na formatação do roteiro e nos muitos erros que os roteiristas inexperientes cometem. Livros que ensinam a escrever cenas engraçadas. Livros que ensinam a escrever filmes de ação. Ou programas de TV. Ou personagens bem-construídos. Ou a superar bloqueios de escritor. Ou a ver o roteiro com os olhos dos outros profissionais envolvidos, o produtor, o diretor, o ator, o fotógrafo, o cenógrafo, o editor etc, e como escrever melhor pensando em quem irá transformar sua história em filme. Falando assim, podem até parecer meio caça-níqueis, mas já li excelentes livros de roteiro além dos do Syd Field.

Nos Estados Unidos, mais famoso até que o Syd Field é o Robert McKee. Ele é um super-guru de roteiro que faz seminários de 4 dias que custam quase 700 dólares: http://www.mckeestory.com/

O problema com esses gurus de roteiro é que eles não têm como ensinar coisas abstratas como criatividade, talento, inspiração e originalidade. Portanto eles se atêm apenas ao aspecto quantificável e analisável que é a estrutura da história.  Esse aspecto é importante, mas está longe de ser tudo. E quando você supervaloriza apenas um aspecto da construção de um roteiro, cria aberrações como produtores perguntando se você fez um ponto de virada na página 30 ou se cumpriu com o arco do personagem antes da página 100 e por aí vai. Eles passam a acreditar que sabem o que faz um roteiro funcionar apenas observando essas regras, e não confiam mais em seus instintos e inteligência emocional para saber se uma história é boa ou não. Ou eles até podem sentir isso, mas decidem retalhar o roteiro todo porque ele ficaria melhor se se adequasse às regras ditadas pelos gurus. Acabam ficando com um “roteiro-Frankenstein” nas mãos que acabará apenas pegando poeira nas prateleiras. E se for produzido será um fracasso.

Isso acontece principalmente porque esses gurus não são roteiristas. Eles nunca ganharam a vida escrevendo nem possuem o hábito de escrever, mesmo que seja por hobby. Quem não escreve diariamente jamais deveria ter o posto de guru de roteiro.  Porque eles não se colocam na pele do escritor, não sentem as dificuldades da escrita. Por exemplo: McKee diz que se você precisar decidir qualquer coisa a primeira idéia deveria ser descartada. Porque a primeira idéia é geralmente uma droga. Em seguida você deveria inventar uma dúzia de soluções diferentes para só então escolher a melhor. Mas escrever não é assim. As escolhas de um roteirista são subjetivas, dependem de sua criatividade, intuição e talento e, quem sabe, a primeira idéia foi mesmo a melhor. Ou a segunda. Então se você multiplicar por 12 as respostas a todas as questões que um roteiro suscita, que são incontáveis, vai acabar num hospício ou desistindo da carreira de escritor.

Por isso que escrevemos e reescrevemos. Sabemos quando o roteiro não está bom. E continuamos a aprimorá-lo, pouco a pouco, dia a dia, às vezes jogando todas as mudanças fora e voltando à idéia original para daí chegar onde queremos. Os gurus do roteiro não são infalíveis nem donos da verdade, mas têm algumas coisas importantes a nos ensinar. O importante é separar o joio do trigo.

Boas escritas pra você!

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