Dicas de Roteiro

05/12/2009

Ética

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 09:38

“Eu usava a comédia para aquecer a platéia. Primeiro eu os fazia rir, para depois, talvez, deixá-los abertos para aceitar um preceito moral.”
Frank Capra, diretor de Mr. Smith Goes to Washington (Título nacional: A Mulher Faz o Homem) – 1939

“Para mim era um filme sobre compromisso. Ilustrava o ditado que diz que o caráter de um homem é seu destino.”
Fred Zinnemann, diretor de High Noon (Título Nacional: Matar ou Morrer) – 1952

“O tema de Operação França, é claro, era a tênue linha que separa o policial do criminoso. E isso não poderia ser melhor ilustrado do que na hora em que o tira desobedece todas as leis de trânsito enquanto persegue um bandido.”
William Friedkin, diretor de The French Connection (Título nacional: Operação França) – 1971
Locutor:  “Tornou-se a sequência marcante do filme. É dela que  falam ao comentar Operação França, e o que todos vêm copiando desde então.”*

“Seu código de vida é a decência, que ele tenta passar para os filhos. Acho que desperta alguma coisa nas pessoas que nos faz reagir. E que nós prezamos. Porque, meu Deus, é tão raro nos filmes vermos heróis que podemos admirar e dizer: ‘Eu gostaria de ser como ele’.”
Horton Foote, roteirista de To Kill a Mockingbird (Título nacional: O Sol é Para Todos) – 1962

“É da natureza do cinema permitir que você troque de lugar com alguém da tela e viva as suas experiências. É extremamente catártico porque nos permite ser pessoas, ir para lugares e fazer coisas que, em circunstâncias normais, não teríamos coragem ou inteligência para fazer. Este filme é um ótimo exemplo disso. Embarcamos numa jornada com ele, e ele representa o melhor de nós.”
David Puttnam, produtor, se referindo ao filme To Kill a Mockingbird (O Sol é Para Todos)

[Retirado do programa 100 Anos… 100 Filmes – 100 Anos de Cinema, ano 2000,  1º Episódio: Heróis e 2º Episódio: Acima da Lei*]

Existem livros e sites muito bons sobre ética, portanto não me deterei em explicar o significado da palavra aqui, já que outros explicaram bem melhor que eu. Abaixo listo 3 sites que resumem bem os vários sentidos que ela possui:

http://blogpensar.blogspot.com/2007/04/o-que-tica.html
http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2009/01/etica-das-virtudes.html
http://insani.com.br/blog/archives/category/job-02-etica

Para facilitar, o sentido que uso aqui é o de integridade moral. O que me espanta na grande maioria dos filmes e seriados americanos atuais é a absoluta falta de ética de seus personagens. E a atitude de absoluta normalidade que isto causa nas pessoas. Ninguém fica indignado, chocado, revoltado. O protagonista é invariavelmente um anti-herói que, para salvar sua esposa (ou filha ou periquito de estimação) comete mais crimes, e com muito mais crueldade, do que os próprios vilões. Eles se transformam em tratores que atropelam qualquer incauto que tiver o azar de cruzar seu caminho e atrapalhar a sua “jornada”. “Os fins justificam os meios” se tornou o mote destes personagens. E de Hollywood.

Mas nem sempre foi assim. Hollywood produziu muitos dos filmes mais inspirados e inspiradores da história do cinema mundial. Não tenho nada contra anti-heróis, existem vários exemplos de personagens interessantíssimos com este perfil. Só gostaria de ver alguns verdadeiros heróis, humanos, honrados, dignos, íntegros e moralmente corajosos nas telas para variar. Aliás, conflitos morais são raros de se ter nos filmes de hoje.

Mas existem exceções. Um dos últimos filmes a que assisti que tinha uma mensagem ética foi o neozelancês/sul-africano Distrito 9 (District 9), do roteirista e diretor Neill Blomkamp (co-roteirizado por Terri Tatchell). Ele conseguiu fazer uma ficção científica original e usar uma metáfora interessante para falar de relacionamentos humanos e sociais atuais.

Mas o povo que tem feito as melhores obras de ficção com ética ultimamente, é o japonês. Principalmente em termos de mangás e  animes. Quanto aos doramas (que é como os japoneses pronunciam ‘drama’), eu prefiro os coreanos, já que os atores japoneses são muito caricatos e atuam muito exageradamente, o que combina apenas com um tipo específico de comédia-pastelão. Doramas são séries semanais, estilo novela, que podem ser curtos (uns 13 episódios), médios (uns 24 a 40 episódios) ou longos (mais de 100 episódios). Apesar do nome eles variam de estilo e gênero, podendo ser épicos, históricos, de romance, comédia, terror, ação, policial, suspense etc.

Na internet pode-se baixar muitos dessas obras traduzidas para o português por fãs, já que nem a TV aberta, nem a paga os transmitem por aqui. Raros são os DVDs que saem, geralmente apenas de animes japoneses. O Brasil tem muito a aprender com o trabalho dos japoneses e coreanos, temos mais em comum com eles do que se supõe. O Brasil é um país com muitas obras audiovisuais com ética, principalmente na TV, em novelas e minisséries. Mas também costuma copiar muita porcaria americana. Assistir a obras de várias nacionalidades é um bom antídoto contra a mediocridade.

Aqui vão alguns sites onde se pode baixar animes e doramas legendados em português:

http://www.haitou.org/
http://bt.mdan.org/login.php
http://tracker.jdrama-fansubs.com/login.php

Onde comprar DVDs e mangás:

http://www.comix.com.br/distinction.php
http://www.animepro.com.br/loja/distinction.php

Nota: Em termos de ética, os animes japoneses de terror e hentai (pornô) são o oposto do resto. Tudo quanto é tara e perversão está lá. Até aquelas mais barra pesada. Vai entender. É, onde existe o bem também existe o mal, não é mesmo?

Falando em bem e mal, ao sugerir personagens e histórias éticas, não quero dizer que sejam sem conflitos ou que os vilões não possam fazer suas vilanias. O bem só aparece em contraste com o mal, e uma história sem conflitos não é história. Ninguém é perfeito, temos muitos defeitos, perfeição não existe e se existisse um ser humano perfeito, que nunca tivesse errado na vida, ele daria um péssimo roteirista. Porque escrever roteiros é se pôr na pele de seus personagens, se identificar com eles (até mesmo com os vilões), entender suas motivações e ter compaixão por eles. E só quem já falhou consegue fazer isso.

Eu acredito firmemente que os escritores aprendem com seus personagens. Crescemos e amadurecemos ao escrevê-los. Quando nossos personagens se esforçam para se tornarem pessoas melhores, nós também nos tornamos. Quando um personagem luta para superar seus preconceitos, nós também lutamos contra os nossos. Ser escritor é lutar contra nossos próprios demônios com uma caneta e papel. E vencê-los, cada dia um pouquinho, cada página um pouquinho.

Boa escrita pra você!

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