Dicas de Roteiro

04/12/2009

O que escrever

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 15:49

Agora é o momento. Você está sentado em frente a uma página em branco, pronto para escrever uma obra-prima que irá emocionar milhões de pessoas e abrir as portas do sucesso na sua vida. Por alguns instantes você não tem idéia do que vai escrever. Os minutos passam. E nada. As horas, os dias, as semanas correm céleres e já parece que a tal página em branco está rindo sarcasticamente da sua cara. “Você não consegue, não consegue!”, ela parece cantar para você numa vozinha infantilóide irritante. A página em branco é um dos maiores terrores para qualquer escritor. Existe um nome para isso. É o famoso “bloqueio de escritor”. Esse problema acomete principiantes e profissionais sem distinção nem piedade.

Nessas horas de desespero evite apelar para a violência. Não jogue seu caderno pela janela, não maltrate seu computador, não chute seu gato. Para tudo há uma solução, se não definitiva, ao menos temporária, para que você volte aos trilhos no caminho certo para escrever seu roteiro.

A criatividade é um daqueles mistérios do universo que todos desejam e tentam desvendar mas ninguém ainda conseguiu. Nem mesmo aqueles abençoados que estão quase sempre acompanhados por ela. Como desvendá-la está além de nosso alcance, o jeito é encontrar modos de nos aproximarmos dela o máximo que pudermos.

Existem softwares para roteiristas (infelizmente apenas em inglês) que praticamente seguram o escritor pela mão e os orienta passo a passo na construção de um roteiro (para cinema ou TV), desde o princípio. Ele irá lhe dar várias opções para criar os personagens, a storyline, a sinopse e, finalmente, o roteiro final. Você tem um menu à disposição e vai escolhendo o que quer: Seu protagonista é homem ou mulher? Rico ou pobre? Gordo ou magro? Humano ou alienígena? Quais serão os desafios que ele encontrará? Injustiça, traição? Traído pela esposa ou pelo melhor amigo? Quem o ajudará?

E por aí vai. São muitas as opções e incontáveis as combinações entre elas. Alguns acham isso um exagero, o cúmulo; a mania dos americanos de criar guias e fórmulas levada ao extremo. Eu mesma nunca usei esses softwares, mas tem muita gente que os louva como a salvação da lavoura. Acredito que sejam parecidos com uma questão de múltipla escolha. Quando você está seguro para responder a uma pergunta, tanto faz se a resposta será discursiva ou de múltipla escolha. Você sabe a resposta, basta escrevê-la. Mas quando você tem dúvidas, ou deu aquele branco, saber as opções à disposição pode fazer seu cérebro desempacar e encontrar a resposta que procurava.

Os softwares mais famosos deste estilo são o Movie Magic Screenwriting, o Dramatica Pro e o Movie Outline. Abaixo vão alguns links com informações sobre eles e lojas onde comprá-los.

http://www.storyscribe.com/software.php
http://www.writersstore.com/product.php?products_id=47&cPath=22_44_62&affiliate=ZAFFIL068
http://en.wikipedia.org/wiki/Movie_Magic_Screenwriter
http://en.wikipedia.org/wiki/Movie_Outline

“Ah, mas eu não falo inglês!”, ou “Não tenho a grana preta para comprar esses softwares e mesmo que tivesse, não teria paciência de aprender a lidar com eles.”, poderiam argumentar. Tudo bem, nem tudo está perdido. Existem livros em português que dão uma mãozinha. Eu gosto muito dos livros sobre criatividade da Julia Cameron que, além de escritora e palestrante também é roteirista profissional. O primeiro se chama Guia Prático Para a CriatividadeO Caminho do Artista, seguido do Criatividade – A Mina de Ouro (ambos da Ed. Ediouro). Eles são recheados de exercícios para alimentar, mimar,  incentivar e enriquecer de criatividade seu artista interior.

Ela diz, entre muitas outras coisas, que devemos estar sempre “enchendo o poço” da criatividade. Quando escrevemos uma história, esvaziamos nosso poço um pouco. Se passamos anos escrevemos, de repente nos vemos com o poço vazio, sem inspiração nenhuma. Isso porque utilizamos todas as  informações e vivências que tivemos na vida para alimentar aquelas histórias, não sobrou quase nada. Para evitar isso, devemos costantemente encher nosso poço com o máximo de informações que pudermos. E das mais variadas possíveis. Leia de tudo, desde bula de remédio até enciclopédias, passando por revistas, jornais e livros. Não fique apenas naquilo que é familiar e confortável para você . Se você não gosta de esportes, ou culinária, por exemplo, se force a conhecer um pouco desses assuntos também. Tudo tem seu lado pitoresco e fascinante, é só dar uma chance para descobrir.

“Livros são os mais silenciosos e constantes amigos, os mais acessíveis e sábios conselheiros, e os mais pacientes professores.” – Charles W. Elliot

“Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem!” – Mario Quintana

“Não acredite numa única palavra do que ler, mas leia sempre e tudo.” – Princípio número um da Cabala

“Não acreditem em nada só porque lhes foi dito. Não acreditem na tradição apenas porque foi passada de geração em geração. Não acreditem em nada só porque está escrito nos seus livros sagrados. Não acreditem em nada apenas por respeito à autoridade de seus mestres. Mas em qualquer coisa que, depois do devido exame e análise, vocês vejam que leva ao bem, ao benefício e ao bem-estar de todos os seres.” – Buda

Não fique apenas na leitura. Assista filmes, dos mais diferentes gêneros e nacionalidades, vá a exposições de arte, a óperas e recitais, a museus, a shows, a peças de teatro, viaje, faça amizades, converse com desconhecidos. Não é especialmente necessário ter dinheiro para encher o poço. Olhe ao seu redor e veja de fato, perceba o que se passa à sua volta, mesmo que seja durante o seu percurso para ir à padaria, ou dentro do metrô a caminho do trabalho. Quantos personagens ou detalhes interessantes você pode estar perdendo por andar distraído por aí! O seu material de trabalho e inspiração pode estar andando ao seu lado e você não estar percebendo.

Infelizmente esses dois livros da Julia Cameron estão esgotados nas livrarias, mas dá para achar no sebo. Procurem aqui:

http://www.estantevirtual.com.br/

Uma coisa que eu aprendi com essa prática de encher o poço foi que o cérebro é uma máquina surpreendente. Você coleta informações sobre ciência, psicologia, arquitetura e decoração, esportes, história, política, artes, mecânica, moda, fofocas e amenidades em geral e tudo o mais que possa cair em suas mãos, e pensa que apenas está perdendo tempo enchendo seus neurônios com lixo, que você vai esquecer mesmo tudo logo em seguida. Mas num belo dia, quando estiver tomando banho distraído, por exemplo, uma idéia prontinha vai lhe assaltar de surpresa. E será uma idéia realmente original, uma mistura de informações que aparentemente não tinham nenhuma relação possível mas que agora passaram a ter tudo a ver. Como um chef de cozinha que cria uma receita deliciosa e original misturando ingredientes exóticos, sua mente fará associações que conscientemente você jamais faria. E esse será o primeiro passo para uma verdadeira obra-prima, algo que ninguém havia pensado antes porque só você tinha todas as informações necessárias e a mente alerta para fazer isso.

Lembre-se de encher seu poço todo dia um pouquinho, e boa escrita!

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