Dicas de Roteiro

31/12/2009

Os Oito Heróis Arquetípicos

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 10:40

Continuando o artigo de Tami Cowden, Personagens que Repercutem nos Leitores:

O CHEFE: Um líder dinâmico, ele não tem tempo para nada além de trabalhar. Ele pode ter nascido para liderar, ou talvez ele tenha conquistado seu lugar até o topo, mas de qualquer modo, ele é durão, decidido e determinado a conquistar suas metas. Isso significa que ele também é um pouco dominador, arrogante e inflexível. Pense em Yun-Fat Chow em Anna e o Rei (Anna and the King, 1999), Harrison Ford em Sabrina (Sabrina, 1995), ou Marlon Brando em  O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972).

O BAD BOY: Perigoso, ele gosta de viver selvagemente. Este é o rebelde, o garoto do lado pobre da cidade. Ele é amargo e inconstante, um idealista oprimido, mas também é carismático e sabe sobreviver nas ruas. Pense em James Dean em Juventude Transviada (Rebel Without a Cause, 1955), Matt Damon em Gênio Indomável (Good Will Hunting, 1997), Patrick Swayze em Dirty Dancing – Ritmo Quente (Dirty Dancing, 1987), Kurt Russell em Fuga de Nova York (Escape From New York, 1981).

O MELHOR AMIGO: Doce e digno de confiança, ele nunca deixa ninguém na mão. Ele é gentil, responsável, decente, um Sr. Cara Legal comum. Este homem não gosta de confrontos e pode ocasionalmente ser indeciso porque ele não quer ferir os sentimentos de ninguém. Mas ele sempre estará lá para quem contar com ele. Pense em Jimmy Stewart em A Felicidade Não Se Compra (It’s a Wonderful Life, 1946), Adam Sandler em Afinado No Amor (The Wedding Singer, 1998), Hugh Grant em Quatro Casamentos e Um Funeral (Four Weddings and a Funeral, 1994), Kevin Spacey em Beleza Americana (American Beauty, 1999).

O ENCANTADOR: Mais que um gigolô, ele cria fantasias. Ele é divertido, irresistível, um manipulador afável, mas não muito responsável nem confiável. Ele pode ser um playboy ou um malandro, e não se compromete facilmente com uma mulher. Pense em Leonardo DiCaprio em Titanic (Titanic, 1997), James Garner & Mel Gibson em Maverick (Maverick, 1994), Don Johnson na série Nash Bridges (Nash Bridges, 1996 – 2001), Dustin Hoffman em Perdidos Na Noite (Midnight Cowboy, 1969).

A ALMA PERDIDA: Um ser sensitivo, ele compreende as coisas. Torturado, reservado, meditativo, e rancoroso. Assim é este homem. Mas ele também é vulnerável. Ele pode ser um viajante ou um pária. No trabalho ele é criativo, mas provavelmente também um solitário. Pense em Shrek em Shrek (Shrek, 2001), Mel Gibson em Máquina Mortífera (Lethal Weapon, 1987), David Duchovny na série Arquivo X (The X-Files, 1993-2002), a Fera em A Bela e a Fera (Beauty and the Beast, 1991).

O PROFESSOR: Analista frio, ele sabe a resposta. Ele é lógico, introvertido e inflexível, mas verdadeiro em seus sentimentos. No trabalho ele gosta de fatos duros e frios, mas ele também é honesto e fiel e não deixará você na mão. Pense em Leonard Nimoy na série Jornada Nas Estrelas (Star Trek, 1966-1969), Robin Williams em Flubber – Uma Invenção Desmiolada (Flubber, 1997), Kelsey Grammer na série Frasier (Frasier, 1993-2004), Russell Crowe em Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind, 2001).

O VALENTÃO: O Sr. Agitação é um aventureiro. Este cara é ação, ação e mais ação. Ele é audacioso e fisicamente ativo. Corajoso, ele é um atrevido ou um explorador. Ele necessita de excitações e calafrios para manter-se feliz. Pense em Antonio Banderas em A Máscara do Zorro (The Mask of Zorro, 1998), Michael Douglas em Tudo Por Uma Esmeralda (Romancing the Stone, 1984), Harrison Ford em Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark, 1981).

O GUERREIRO: Um nobre campeão, ele age com honra. Este homem é ou o salvador relutante ou o cavaleiro na armadura brilhante. Ele é nobre, persistente, incansável, e sempre defende os oprimidos. Para quem precisa de um protetor, ele é o cara. Ele não se rende às regras e nem concorda com algo só para se dar bem com as pessoas. Pense em Tom Hanks em Estrada Para Perdição (The Road To Perdition, 2001), Clint Eastwood em Perseguidor Implacável (Dirty Harry, 1971), Russell Crowe em Gladiador (Gladiator, 2000), Mel Gibson em Coração Valente (Braveheart, 1995), Tobey Maguire em Homem-Aranha (Spider-Man, 2002).

Amanhã falaremos sobre os arquétipos de heroínas. Desejo-lhe um excelente Ano Novo e um 2010 repleto de roteiros interessantes em seu currículo!

Até o ano que vem e uma boa festa pra você!

30/12/2009

Arquétipos

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:52

Esta é uma tradução livre de um artigo de Tami Cowden dividido em 5 partes, que serão postadas um dia cada. Ela é co-autora do livro The Complete Writer’s Guide to Heroes and Heroines: Sixteen Master Archetypes (“O Guia Completo do Escritor para Heróis e Heroínas: Os Dezesseis Principais Arquétipos”). O artigo chama-se “Personagens que Repercutem nos Leitores”:

Os seres humanos têm contado histórias por um longo, longo tempo, bem desde os dias de caçada ao mamute e coleta de frutinhas. Nós contamos fábulas de homens e mulheres que nos protegem, nos excitam, nos inspiram. Desde os tempos primitivos os escritores de ficção têm tecido contos sobre heróis e heroínas, fiado teias e construído labirintos através dos quais personagens devem encontrar seus caminhos para a verdade, para a felicidade, para seus destinos. Algumas vezes os homens e mulheres fictícios têm sido maiores que a vida, e outras vezes eles têm sido cidadãos comuns. Mas de todo modo, as histórias dos personagens que sobrevivem dos tempos antigos até hoje são aquelas que soam verdadeiras.

Grandes heróis e heroínas surgem na literatura de tempos em tempos. Estes personagens recorrentes são instantaneamente simpatizados pelo público por causa da clareza de suas motivações. Tempo, lugar, ações, circunstâncias podem variar, mas os personagens dentro da história são reconhecíveis e compreendidos. Carl Jung teorizou que os seres humanos têm um inconsciente coletivo, “depósito de experiências constantemente repetidas da humanidade… um tipo de prontidão para reproduzir muitas e muitas vezes as mesmas, ou semelhantes, idéias místicas…”. De acordo com Jung, apenas a camada superficial de nosso inconsciente é pessoal e individual. Todos os seres humanos têm uma camada muito mais profunda que não se desenvolve individualmente. Jung chamou essa parte do inconsciente de “inconsciente coletivo”.

Um inconsciente pessoal contém pensamentos e material aprendido inicialmente de forma consciente, mas que foi então enterrado no inconsciente. Porém o inconsciente coletivo subjacente contém matéria nunca antes consciente e nem aprendida individualmente. Estas imagens embutidas incluem os heróis, heroínas e vilões arquétipos. Esta memória compartilhada de experiências resultou numa ressonância dos conceitos de herói e heroína que transcendem tempo, lugar e cultura. Jung chamou estas personalidades recorrentes de “arquétipos”, da palavra grega archetypos, que significa “primeiro de seu tipo”.

Os personagens que se encaixam nesses arquétipos estrelam em história após história, entretendo e informando a experiência humana por milênios. A revisão dos mitos, lendas, contos de fadas, poemas épicos, romances e filmes revelam que os protagonistas recorrentes nestas histórias caem em dezesseis categorias distintas, oito para heróis e oito para heroínas. Os vilões também se encaixam em dezesseis categorias, oito para homens e oito para mulheres. A partir de amanhã iremos explorar estes personagens arquetípicos.

A seguir está um trecho de um artigo do site 10emtudo sobre Carl Jung onde o inconsciente coletivo é melhor explicado:
http://www.10emtudo.com.br/imprimir_artigo.asp?CodigoArtigo=53

Carl Jung foi um dos maiores psiquiatras do mundo. Fundador da escola analítica de Psicologia, ele introduziu termos como extroversão, introversão e o inconsciente coletivo. Jung ampliou as visões psicanalíticas de Freud, interpretando distúrbios mentais e emocionais como uma tentativa do individuo de buscar a perfeição pessoal e espiritual.

Uma das teorias pela qual Jung é mais reconhecido é a teoria do inconsciente coletivo. Essa teoria foi adotada somente por algumas escolas psicológicas.

Segundo Jung, o inconsciente coletivo não deve sua existência a experiências pessoais; ele não é adquirido individualmente. Jung faz a distinção: o inconsciente pessoal é representado pelos sentimentos e idéias reprimidas, desenvolvidas durante a vida de um indivíduo. O inconsciente coletivo não se desenvolve individualmente, ele é herdado. É um conjunto de sentimentos, pensamentos e lembranças compartilhadas por toda a humanidade.

O inconsciente coletivo é um reservatório de imagens latentes, chamadas de arquétipos ou imagens primordiais, que cada pessoa herda de seus ancestrais. A pessoa não se lembra das imagens de forma consciente, porém, herda uma predisposição para reagir ao mundo da forma que seus ancestrais faziam. Sendo assim, a teoria estabelece que o ser humano nasce com muitas predisposições para pensar, entender e agir de certas formas. Por exemplo, o medo de cobras pode ser transmitido através do inconsciente coletivo, criando uma predisposição para que uma pessoa tema as cobras. No primeiro contato com uma cobra, a pessoa pode ficar aterrorizada, sem ter tido uma experiência pessoal que causasse tal medo, e sim derivando o pavor do inconsciente coletivo. Mas nem sempre as predisposições presentes no inconsciente coletivo se manifestam tão facilmente.

Os arquétipos presentes no inconsciente coletivo são universais e idênticos em todos os indivíduos. Estes se manifestam simbolicamente em religiões, mitos, contos de fadas e fantasias. Entre os principais arquétipos estão os conceitos de nascimento, morte, sol, lua, fogo, poder e mãe. Após o nascimento, essas imagens preconcebidas são desenvolvidas e moldadas conforme as experiências do indivíduo.  Por exemplo: toda criança nasce com o arquétipo da mãe, uma imagem pré-formada de uma mãe, e à medida que esta criança presencia, vê e interage com a mãe, desenvolve-se então uma imagem definitiva.

Jung acreditava que na vida cada individuo tem como tarefa uma realização pessoal, o que torna uma pessoa inteira e sólida. Essa tarefa é o alcance da harmonia entre o consciente e o inconsciente.

Jung explorou outras áreas da psicologia, tais como o desenvolvimento da personalidade, identificação de estágios da vida, as dinâmicas da personalidade, sonhos e símbolos, entre outras. Suas teorias tiveram um grande impacto sobre o campo da filosofia e são amplamente estudadas e praticadas até os dias de hoje.

Amanhã continuaremos com o artigo de Tami Cowden. Boa escrita e até lá!

29/12/2009

Cinema Brasileiro

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 09:45

Quando eu estava na Faculdade de Cinema da UFF em meados dos anos 1990, pouco após a chamada Retomada do Cinema Nacional,  eu participei de uma pesquisa sobre cinema brasileiro. Eu fazia algumas perguntas às pessoas, como: Qual o último filme a que você assistiu? e Qual o seu filme brasileiro favorito?, coisas assim. A maioria das pessoas que eu entrevistei dizia que não assistia a filmes brasileiros porque eles não tinham história, eram muito malucos, cheios de sexo e palavrão. E quando eu indagava a qual filme brasileiro elas haviam assistido, elas diziam que nunca haviam assistido a nenhum! Então como elas sabiam que os filmes eram todos assim? Elas respondiam que seus pais disseram isso. Por este motivo nunca tiveram interesse em assistir a filmes brasileiros. É impressionante o impacto que filmes, bons e ruins, causam na vida das pessoas, afetam até a geração seguinte!

Já foi dito que o Cinema Novo divorciou o público do cinema nacional. Isso já causou muita polêmica por aí. É verdade que houve grandes sucessos de público na década de 1960 e 1970, porém, é verdade também que o espectador brasileiro passou a rejeitar este tipo de filme e estética. Muitos filmes dessa época a que eu assisti realmente não tinham enredo nenhum e eram recheados de cenas de sexo gratuitas e diálogos em que, de cada 10 palavras, 11 eram palavrões. Qualquer um que queira pode conferir se isto é verdade ou não. O Cinema Novo se inspirou no Neorealismo italiano, fazendo filmes politizados para criticar a sociedade. Isto é uma ambição venerável. A estética “pobre”  e “doida” do Cinema Novo também pode ter surgido de uma busca pela liberdade criativa, o que também é louvável. Porém, acredito que deve existir espaço para todos.

Muitos críticos e professores de cinema rejeitam o tal “Cinema Clássico Narrativo”, ou seja, o cinemão americano de Hollywood, com seu enredo estruturado e sua história com começo-meio-fim, como se isto fosse uma heresia, ou uma ofensa pessoal. Não é o enredo estruturado que faz um filme bom ou ruim. No entanto, a falta dele tem um impacto direto sobre a história que se quer contar e a compreensão que o espectador tem sobre ela. E envolver e conquistar o espectador deveria ser o objetivo final de todo filme. Filmar é muito caro e envolve trabalho e gente demais para que o produto final seja assistido apenas pela equipe que o criou e seus amigos e familiares.

Eu não assisti ao filme abaixo, mas pela propaganda dá para ver que o preconceito contra escrever roteiros estruturados continua firme e forte entre nossos cineastas:

Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça. Bem Cinema Novo. Mesmo assim este longa pode ser bom, excelente até, quem sabe? Assista e julgue por si mesmo. Depois me conte o que achou!

Nos últimos 15 anos o cinema nacional reconquistou muito do público que o rejeitava, mas tem muito terreno para explorar ainda. Como roteirista, estude a história do cinema brasileiro. Leia livros sobre o assunto e assista a todos os filmes que puder com um olhar crítico, garimpando as qualidades e reconhecendo os defeitos de nossa história cinematográfica, para incorporar as primeiras e evitar os últimos em seu próprio trabalho. A TV Brasil exibe muitos filmes raros que não se encontram em locadoras. Vale a pena conferir.

Não adianta idolatrarmos o passado, nem tampouco demonizá-lo. Tudo faz parte de nossa trajetória e de nosso aprendizado como povo. Nenhuma cinematografia do mundo é perfeita, feita apenas de filmes maravilhosos. Devemos abraçar nossos acertos e aprender com nossos erros, com orgulho de sermos brasileiros, sempre.

Boa escrita pra você!

28/12/2009

Flashforward

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 10:58

Muitos livros de roteiro dizem que deve-se começar o filme com cenas instigantes para fisgar o espectador logo nos primeiros 10 minutos, caso contrário o interesse dele estará perdido. Por causa disso é muito comum os roteiristas (ou o diretor e o editor) colocarem parte da cena final na abertura do filme. O que deveria ser o clímax final passa a servir de chamariz no começo. Este artifício é um tipo de trapaça que prejudica o espectador. Aliás, flashforwards são, na maioria das vezes (há exceções), trapaças. São usados com a finalidade de encher linguiça ou atrair os incautos. Poucas vezes eles têm sido usados com mestria e no momento certo. Mostrar o final do filme no começo tira boa parte do mistério e da emoção do filme. Se o roteirista acha que tem um começo pouco atraente, deveria ralar para melhorá-lo, sem estragar o final ao fazer isso. Começando um filme pela cena final você torna a história toda um grande flashback, afinal estamos voltando ao passado para explicar como aquela cena final pôde acontecer.

Como William C. Martell disse no artigo de ontem, “se você quer começar o seu roteiro no final cronológico, você está livre para fazer isso”. Ele tem razão, o filme é seu e você tem toda a liberdade para fazer o que quiser,  mas pense bem se é mesmo necessário e recomendável tirar parte do suspense, do mistério e da tensão da sua história para ter um começo mais excitante. Tente encontrar outros meios de adicionar emoção ao Ato I de seu roteiro. Vou citar dois exemplos de filmes que, na minha opinião, poderiam ter evitado este estratagema, e teriam tido muito mais suspense sem o flashforward: O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno – 2006) e Garota Infernal (Jennifer’s Body – 2009). Assista a esses filmes e analise se, sem ter visto o flashforward, você não teria tido muito mais suspense. Quando você mostra qualquer coisa do final no começo de um filme, principalmente num de suspense e/ou terror, você já fica sabendo se tal personagem está vivo ou não, e se estiver vivo, você não sentirá tanta ansiedade se o personagem estiver sendo perseguido, com a vida correndo risco. Já sabemos que ele sobreviverá mesmo, pelo menos até chegar àquela cena do flashforward no final. Isso estraga boa parte da graça do filme.

Alguns argumentariam que o flashforward serve para fisgar a curiosidade do espectador. A pessoa continuaria assistindo ao longa para saber o que aconteceu para que o personagem chegasse àquela situação. Mas este é o objetivo de todo filme! Vamos ao cinema para ver o que vai acontecer naquela história. Esse é o ponto principal de se assistir a qualquer filme. O público não deveria precisar de mais artifícios para se interessar pelo que vai acontecer, além de uma história bem contada, com cenas instigantes desde a apresentação. Porém a decisão final é e sempre será sua. Se você achar que mostrar o final no começo é absolutamente imprescindível e desejável, se isto poderá fazer o seu filme melhor, manda ver. Apenas procure ficar alerta para estraga-prazeres evitáveis.

Um exercício: Tente lembrar de filmes que usaram flashforwards tanto de forma agradável quanto desagradável para o seu gosto. Imagine o que você faria para melhorar a história sem o uso de flashforwards. Ou pense num modo de inserir flashforwards de forma interessante e original em qualquer filme a que você tenha assistido ultimamente.

Boa escrita pra você!

27/12/2009

Estrutura não é sobre tempo

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 13:40

Trecho de um artigo do roteirista William C. Martell:

Um engano comum é achar que estrutura tem alguma coisa a ver com cronologia dos eventos. Estrutura em um roteiro é a ordem dos incidentes da história, e não tem nada a ver com ordem cronológica. É possível ter uma história onde os incidentes que iniciam a história (Ato Um) tomam lugar um ano depois do que o resto da história. Cães de Aluguel (Reservoir Dogs) usa flashbacks para aumentar paulatinamente seu conflito, criando um Ato Dois que acontece semanas antes do Ato Um. Corra Lola Corra (Run Lola Run) tem três atos que ocorrem no exato mesmo tempo… paralelos um ao outro.

Memento de Chris Nolan abre com o final e então vai para trás, cena a cena, para mostrar COMO o final se tornou aquele. Nós finalmente chegamos à centelha que iniciou a história – e esse é o final do filme! A maioria das histórias são sobre O QUÊ acontece, mas esta história é sobre POR QUÊ as coisas acontecem. É semelhante a um mistério de assassinato, onde o detetive termina com a solução do mistério. Como um mistério de assassinato, Memento foca nos motivos – POR QUÊ o evento ocorreu. Apesar de Memento parecer ter uma estrutura bizarra, porque a história é contada ao contrário, é de fato um esquema de três atos tradicional.

Mesmo que o final cronológico aconteça no meio do filme, ou no começo, ou no final mesmo, a maioria dos filmes segue a estrutura básica de 3 atos baseada na importância dos acontecimentos para os personagens. Estrutura não é sobre tempo, é sobre história. A estrutura padrão de 3 atos não impede você de criar histórias originais e audaciosas, é simplesmente uma ferramenta para ter certeza de que você tem uma história. Se você quer começar o seu roteiro no final cronológico ou no meio cronológico, ou jogar a cronologia totalmente fora ao ligar as cenas por importância de eventos, você está livre para fazer isso!

Sinta-se livre para brincar com o tempo num roteiro se isso fizer sua história mais envolvente emocionalmente para o público… apenas lembre-se que toda história inicia o conflito, aumenta o conflito e então resolve o conflito. É sobre isso que a estrutura de 3 atos trata – não tem nada a ver com tempo.

Um exercício: Pegue um filme como Cidade de Deus, que não segue uma cronologia linear, e faça uma sinopse da história descrevendo os acontecimentos em ordem cronológica. Note se a história é simples ou complexa, veja se há mais de um enredo correndo paralelo. Analise se, contando a mesma história em outra ordem qualquer, o filme ficaria melhor ou não. Faça uma lista de filmes que usaram uma ordem cronológica irregular e pense nas qualidades e defeitos desse estilo de montagem dos eventos.

Boa escrita para você!

26/12/2009

Espaço branco

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 19:12

Trecho retirado do correio eletrônico Script P.I.M.P. de 6/3/2004, seção Pergunte a um Expert:

Pergunta: O que é exatamente “espaço branco” num roteiro?

Resposta: O termo “espaço branco” (white space) refere-se ao espaço em branco na página. Quando você compara uma página de roteiro com uma página de romance, verá que há muito mais espaço em branco num roteiro. De fato, parágrafos longos de descrição, típicos de romance, ou longos monólogos são geralmente considerados excessos. Roteiros são formatados de um modo que maximize o espaço branco por dois motivos. O primeiro é que isto faz com que sejam fáceis e rápidos de ler. O segundo é que este layout garante que uma página equivalha a aproximadamente um minuto na tela. Isto é algo importante a ser considerado por compradores em potencial, já que quanto mais longo o filme, maior será o custo para produzi-lo.

Script P.I.M.P. de 26/10/2004, seção Pergunte a um Expert:

Pergunta: Eu estava recentemente lendo uma matéria sobre escrever roteiros e foi mencionado o termo “verticalidade”, e como isso deveria ser usado por roteiristas principiantes para fazer seus roteiros fáceis de ler. Entretanto a matéria nunca definiu o termo. O que exatamente é verticalidade e como um escritor principiante deve usá-la?

Resposta: “Verticalidade” é um termo que descreve um estilo de escrita que tem sido aprovada por roteiristas de Hollywood há algum tempo. É também conhecida como “empilhar ações” (stacking actions), “pilhas de ação” (action stacking) ou “página abaixo” (down the page). Isso basicamente significa que a descrição/direção do roteiro é escrita em parágrafos de uma linha muito concisos. Por exemplo:

INT. SERRARIA – NOITE

Jason pula na escada de metal.

Billy corre atrás dele, brandindo a serra elétrica.

Jason dispara para o topo da escada.

Agarra a maçaneta da porta do escritório – trancada.

Ele olha para baixo. Jason está um lance de escadas abaixo.

Billy enrola sua camisa em volta do punho e ESTRAÇALHA a janela do escritório.

Ele tomba para dentro.

Enquanto este tipo de verticalidade bem concisa é melhor talhada para cenas/sequências de ação, a técnica básica pode ser usada em qualquer tipo de roteiro. Um dos primeiros roteiros a empregar este estilo foi Alien – o Oitavo Passageiro, enquanto roteiros mais recentes como O Sexto Sentido devem muito a esta técnica. Como você pode ver pelo exemplo acima, verticalidade faz a ação da história muito mais fácil de se seguir do que densos parágrafos de descrição. Isso dá ao roteiro uma aparência convidativa e contribui para uma leitura mais rápida. É por isso que é preferida pela maioria dos agentes, empresários, executivos etc. Mesmo quando não usam a verticalidade em si, roteiristas contemporâneos deveriam manter sua descrição/direção tão concisas quanto possíveis. Na realidade, o escritor treinado usa substantivos e verbos evocativos para criar uma imagem forte na mente do leitor.

Nota: “Espaço branco” e verticalidade são basicamente sinônimos. Assim como o “espaço branco”, a verticalidade também existe porque nas cenas de ação o que conseguimos descrever em poucas palavras no papel leva mais tempo para acontecer na tela. Se descrevêssemos a movimentação em parágrafos longos, uma página de roteiro não mais equivaleria a cerca de um minuto de filme. Um bom exercício para o roteirista é tentar representar todas as cenas de seu roteiro (dentro de casa mesmo, não é preciso sair explodindo seu carro por aí). O que deve-se fazer é dizer as falas em voz alta, andar quantos passos imagina-se que os personagens precisem andar (ou correr), e tentar fazer a movimentação dentro da história com um cronômetro do lado (usando bastante a imaginação). Isso dará uma idéia de quanto tempo leva a ação do roteiro, além de poder conferir se as falas estão naturais ou forçadas, ajudando o roteirista a ser mais conciso e eficaz nas descrições e diálogos.

Boa escrita pra você!

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