Olá, pessoal! Esta é a surpresa, o “doce” que eu havia prometido no último post. Existe um texto em inglês que rola há um certo tempo na Internet com este título. O diretor, roteirista, editor, compositor, cinegrafista, editor de som, cameraman, ator, produtor e… enfim, o orgasmo múltiplo em pessoa, Robert Rodriguez, explica em dez minutos como fazer um filme. Na verdade, esse texto é uma versão resumida de um capítulo do livro Rebel Without a Crew que, infelizmente, não foi publicado em português (eu não entendo o motivo, essas editoras deixam passar cada livro ótimo!). Ele foi editado em 1996 pela Editora Plume, então de lá para cá muita coisa mudou em relação à tecnologia cinematográfica, mas a ideia geral continua válida e atual.
Aviso, antes de mais nada, que esta (como aliás todas as outras deste blog) é uma tradução livre. Não sou tradutora profissional e faço o meu melhor de acordo com minhas limitações linguísticas. No caso deste livro, o autor tem um estilo de escrever um tanto divagante, mais perto da língua falada do que da escrita. Ele gosta de fazer frases muito longas que começam com um assunto e terminam em outro, quase sem vírgulas e pontuação, o que dificulta muito na compreensão do texto. Por isso, eu o adaptei da melhor forma que pude para a nossa língua, quebrando as frases em outras menores quando dava, reformulando a pontuação para o texto ficar mais claro, sempre tentando ser o mais fiel possível ao original. Foi difícil, mas espero que tenha ficado a contento.
P.S.: Descobri posteriormente a causa do estilo de escrita dele: este capítulo é uma transcrição de um trecho da palestra-seminário que ele apresentou há vários anos, chamada “Guerrilla Filmmaking”. Ou seja, o texto realmente vem de uma linguagem falada.
“Rebelde Sem Uma Equipe – Como Um Cineasta de 23 Anos Tornou-se Um Artista Hollywoodiano”
Eu traduzi o capítulo completo em três partes, porque ele é meio longo. Procurei na Internet e não encontrei nenhuma versão em nossa língua, vocês estão pegando em primeiríssima mão!!
Obs.: Como eu sempre digo quando traduzo algum capítulo de um livro americano, se e quando este livro for editado em nosso idioma, eu retirarei imediatamente estes posts do ar, ok?
Então vamos aprender em 10 minutos a fazer filmes:

Companheiro Cineasta:
Então você quer ser um cineasta? O primeiro passo para se tornar um cineasta é parar de dizer que você quer ser um cineasta. Eu levei uma eternidade para ser capaz de falar com uma expressão honesta no rosto que eu era um cineasta, até estar bem avançado em minha carreira. Mas a verdade é que eu tenho sido um cineasta já desde o dia em que fechei os meus olhos e me imaginei fazendo filmes. O resto era inevitável. Então, você não quer ser um cineasta, você é um cineasta. Vá fazer um cartão de visita para si. Próximo!
Bem, e em relação a todo o conhecimento técnico básico que você precisa para realmente fazer um filme? Eu acho que algum cineasta famoso disse uma vez que todas as coisas técnicas que você precisa saber para fazer filmes podem ser aprendidas em uma semana. Ele estava sendo generoso.
Você pode aprender isso em dez minutos.
Com a informação a seguir você pode embarcar na elaboração de seus próprios ótimos filmes, tudo por si só, sem uma equipe de filmagem (e, confie em mim, existem benefícios enormes em ser capaz de entrar neste ramo sendo completamente auto-suficiente. Isto assusta as pessoas. Seja assustador).
É bom ser auto-suficiente em um negócio onde as pessoas estão acostumadas a contar com as outras para conseguir que qualquer coisa seja feita. Porque daí percebem que você pode se mandar e fazer o seu próprio ótimo filme sem elas, então elas deixam você fazer do seu jeito. É por isso que você precisa ser educado em todas as áreas de produção. Se não por outro motivo, para que ninguém tire vantagem de você ou lhe dê informações falsas.
Eu sabia muito menos do que isto aqui quando comecei a rodar El Mariachi (Idem, 1992) e me saí bem, então você deve se sair melhor ainda. A maior parte disto eu aprendi de fato enquanto estava filmando. Mas estou lhe entregando isto agora, um presente meu por você ter comprado o meu livro.
Aqui vamos nós…
O Curso de Cinema em 10 Minutos de Robert Rodriguez
A primeira lição nesta escola de pensamento cinematográfico é que não é a sua carteira de dinheiro que faz um filme, não importa o que lhe digam em sua escola ou em Hollywood. Pense nisso. Qualquer macaco pode se esgotar financeiramente ao fazer um filme. A ideia é se esgotar criativamente primeiro.
De qualquer forma, o que é um filme? É simplesmente um empreendimento criativo. Quanto mais criatividade você empregar para resolver os seus problemas, melhor o filme poderá ser. Problemas surgem o tempo todo, não importa o quão grande seja o seu orçamento. Mas em um filme de grande orçamento, um problema surge e, já que os bolsos do estúdio são profundos, o dinheiro é prontamente disponibilizado. Então o problema geralmente não é resolvido criativamente; ao invés disso ele é rapidamente lavado para longe com a mangueira do dinheiro.
Porém, quando você não tem dinheiro e está trabalhando por conta própria as suas habilidades de resolução de problemas são desafiadas, a sua criatividade tem de trabalhar, e você conserta o problema criativamente. E isso pode fazer toda a diferença entre algo novo e diferente e algo industrializado e antiquado.
A coisa mais importante e útil que você precisa para ser um cineasta é de “experiência em filmes”, em oposição a “experiência de filmes” [N.T.: O autor fez um trocadilho entre “experience in movies” e “movie experience”. Esta foi a melhor tradução que encontrei]. Existe uma diferença. Eles sempre lhe dizem na faculdade de cinema e em Hollywood que, para se tornar um cineasta, você precisa arranjar “experiência de filmes” para que você possa trabalhar e ir subindo na hierarquia do negócio. O raciocínio é que, trabalhando em outros filmes, mesmo que seja como um assistente de produção, você consegue ver em primeira mão como os outros fazem filmes. Bem, esse é exatamente o tipo de experiência de que você não precisa. Você não quer aprender como outras pessoas fazem filmes, especialmente filmes hollywoodianos de verdade, porque nove em cada dez dos métodos usados são perdulários e ineficazes. Você não precisa aprender isso!
“Experiência em filmes”, por outro lado, é onde você mesmo arranja uma câmera de vídeo ou outro aparelho de gravação emprestado e grava imagens, para então manipulá-las em algum tipo de ambiente de edição. Não importa se você for usar os velhos sistemas de edição de vídeo ¾’’, VCR para VCR, ou mesmo edição no computador. Qualquer coisa que você possa arranjar. A ideia é experimentar criar as suas próprias imagens ou histórias, não importa o quão brutas elas sejam, e então manipulá-las através da edição.
Eu acho que todo mundo tem mais ou menos uma dúzia de filmes ruins dentro delas; quanto mais cedo você tirá-los de si, em melhor situação você estará. É melhor fazê-los numa plataforma barata como vídeo, deste modo você não se quebra financeiramente após se ensinar. E assim você poderá produzir tanto quanto puder, o mais rapidamente que puder. Não existe nada melhor do que entrar numa rotina criativa. Se você puder começar e terminar um projeto em vídeo em uma semana por ser barato, então faça isso. É melhor do que prolongar a produção de um filme em algo mais caro como 16mm, que você só pode trabalhar em semanas ou meses alternados porque se esgotou financeiramente. A prática de fazer os seus próprios experimentos do seu jeito irá lhe dar a confiança e a experiência necessárias antes de encarar o seu projeto dos sonhos. E se você fizer tudo isso sozinho, ficará ainda mais confiante, porque não há nada que dê uma sensação melhor do que saber que você é completamente auto-suficiente, e que não tem de perder o seu tempo tentando convencer um bando de pessoas a lhe ajudar.
Durante a minha curta experiência na faculdade de cinema eu vi o que acontecia com os alunos que não arranjavam a “experiência em filmes” de que estou falando. Quando alguns de nós entramos no curso de cinema, já tínhamos brincado por aí com câmeras de vídeo emprestadas e editando filmes de curta-metragem inexpressivos. Entretanto, a maioria dos outros estudantes não tinha feito isso. Eles imaginavam que tudo o que precisavam aprender eles aprenderiam com o professor, mas estavam errados. Não existe nenhum modo de você ir para uma aula e esperar aprender todos os aspectos técnicos de se fazer um filme, além de aprender como contar uma história e, mais tarde, montar efetivamente essa história através da edição. Tem muita coisa para se aprender. Você precisa se introduzir nisso sozinho, em seu próprio ritmo, de seu próprio jeito, antecipadamente. Pense nisso como pesquisar e estudar antes do grande teste. Se você entrar um dia na sala para fazer um teste e não tiver feito algum dever de casa ou estudado por conta própria, você vai se dar mal. Por mais que isso faça sentido, muitos estudantes ainda não tinham feito nada. Então, compreensivelmente, eles fizeram os seus primeiros filmes durante a aula e gastaram cerca de 1.000 dólares em seus projetos, já que eram em 16mm, e os projetos saíram capengas porque eles estavam tentando aprender tudo de uma vez. E esperavam que os resultados fossem melhores. Eu falei com alguns desses estudantes que estiveram falando o semestre inteiro sobre o quanto queriam ser diretores. Eles fizeram os seus filmes e estes foram menos do que esperavam. Eles sentiram-se desencorajados. Eles desistiram e disseram: “Eu não quero mais ser um diretor, eu não acho que esta seja a minha praia. O que eu realmente quero fazer é produzir!”.
Está vendo? Em primeiro lugar, é daí que surgem os produtores. Em segundo, eles não teriam ficado tão desencorajados e desistido tão facilmente se tivessem simplesmente continuado. Os meus primeiros 15 ou 20 curtas em vídeo eram ‘inassistíveis’, mas eu aprendi muito com eles e continuei fazendo-os porque eu me divertia mais com o processo do que com o resultado. Em terceiro lugar, quanto mais experiência você se permitir, melhor preparado você estará para o próximo projeto. Se quiser ser uma estrela do rock, você irá para uma escola de rock e esperará sair como Jimi Hendrix após umas poucas aulas curtas? É claro que não. Não seja preguiçoso, você sabe o procedimento. Você tem de se trancar em sua garagem e praticar até que os seus dedos sangrem.
E na verdade é melhor se você aprender a fazer filmes por conta própria, sem treinamento formal – de outro modo os seus filmes serão formais demais. Agora, você pode ouvir o tempo todo que você precisa aprender as regras para que possa quebrá-las. Não se importe com isso. Eu descobri que é mais eficaz ignorar tudo e questionar tudo. Porque tudo isso pode ser repensado e melhorado, e no final das contas as únicas técnicas que vale conhecer são aquelas que você mesmo inventa.
A teoria de que hoje em dia você pode aprender a fazer filmes gravando vídeos caseiros deixa um monte de cineastas nervosos. É claro, porque isto sugere que qualquer pessoa criativa aí fora pode agora mesmo fazer ótimos filmes imaginativos, significando que poderia haver mais competição em um mercado já competitivo. Mas é verdade. E eles deveriam ter medo. Deveriam ter muito medo.

ESCREVENDO O ROTEIRO
Quando for aprender a escrever roteiros, é melhor começar com material original, ao invés de adaptar o trabalho de outra pessoa. Você também deveria tentar aprender sem pegar um parceiro ou parceiros de escrita. A experiência é muito mais recompensadora e você aprenderá muito mais. É mais assustador, é claro, porque se você fracassar não poderá culpar mais ninguém. Além disso a carga de trabalho é enorme e a única pessoa que tem para lançar ideias é você mesmo. Mas o que você quer é ser tão auto-suficiente quanto possível. Porque não importa quantas pessoas você arraste com você para criar aquela sensação de segurança grupal que você procura ao formar a equipe, em algum ponto tudo dependerá de você e você precisa estar preparado para isto.
Eu acho que o mesmo pode ser aplicado à produção de filmes. Apesar do cinema ser conhecido como uma arte colaborativa, ele não precisa ser. Certamente não há nenhuma regra que diga que tem de ser, e se houver, então sem dúvida, quebre-a. Porque a experiência e o nível de confiança que você vai ter após lidar com o filme sozinho será maior do que qualquer colaboração que você possa conseguir. Como está nos estágios iniciais, você não quer parceiros demais. Se o seu filme for bom, você irá ficar pensando se foram as outras pessoas que o fizeram ser bom; e se for ruim, é fácil demais usar os seus parceiros como bodes expiatórios, e você nunca aprenderá coisa alguma desse jeito.
Se você estiver pensando que talvez ainda precise ir para a faculdade de cinema para aprender um pouco mais… Esqueça a faculdade de cinema! Pegue aqueles 20.000 dólares ou mais que estava planejando gastar na UCLA ou na Faculdade de Cinema da Universidade de Nova York, e ponha-os de volta no seu bolso. Não podem lhe ensinar como contar uma história na faculdade de cinema, e mesmo que pudessem, você não iria querer aprender com eles de qualquer forma. Eles também não lhe ensinarão como fazer um bom filme de baixo orçamento todo sozinho, com muito pouco dinheiro. Ensinam como fazer grandes filmes, com uma equipe grande, para que quando você se formar após gastar 20.000 dólares ou mais em seu diploma, você possa ir para Hollywood e arranjar um emprego puxando cabos no grande filme de alguma outra pessoa.
O maior erro que você pode cometer é tentar fazer um filme de baixo orçamento usando as técnicas de filmes de grande orçamento que lhe são ensinadas na faculdade. Quando você tiver um grande orçamento e muitos equipamentos, descobrirá que uma equipe de cinema vem bem a calhar. Mas até então, eles são peso morto.
A vantagem de filmar no estilo-Mariachi é que nunca haverá nenhum problema de orçamento, porque não há orçamento! Não haverá motins da equipe ou problemas com bufês porque não há equipe e nenhuma comida para alimentá-los!! Não há nenhum problema com equipamento ou luz, porque a quantidade de equipamentos e luzes são mínimas. Mas também você não precisa filmar em estilo-Mariachi para fazer um filme de baixo orçamento altamente criativo. Questione tudo, faça o seu próprio livro de regras e invente os seus próprios métodos. Eu falei com pessoas que estão fazendo os seus próprios filmes sem orçamento, e suas inventividades são inspiradoras. Existe um milhão de modos diferentes de alcançar o mesmo resultado, então descubra o que funciona para você e faça isso.

Faremos uma pausa aqui. Além deste texto, Robert Rodriguez lançou essa Escola de Cinema em 10 Minutos em vídeo, como extras dos DVDs de seus filmes. Infelizmente estão todos em inglês, sem legendas. A seguir estão metade dos links que encontrei com esses vídeos. A outra metade eu passarei nos próximos posts, junto com o resto do capítulo.

P.S.: É muito engraçado os atores mostrando o número da cena com os dedos, pois eles não tinham claquete! Não precisavam chegar a tanto, no curta que fiz num curso de vídeo, nós mostramos a informação da claquete escrita em papel mesmo. Contar nos dedos já é pobreza demais! Também é interessante notar que ele fazia as mudanças de ângulos numa mesma tomada, já prevendo os cortes da edição, economizando deste modo bastante filme.
Divirtam-se com os making ofs!
The Robert Rodriguez 10 Minute Film School – Parte 1 (de El Mariachi)
The Robert Rodriguez 10 Minute Film School – Parte 2
10 More Minutes – Parte 1 [de A Balado do Pistoleiro (Desperado, 1995)]
10 More Minutes – Parte 2
10 Minute Flick School [de Era Uma Vez no México (Once Upon A Time In Mexico, 2003)]
Boa escrita y hasta mañana!
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