Dicas de Roteiro

14/02/2012

Quando Tudo o Que Resta É Escrever: Transformando Ansiedade em Criatividade

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Oi, pessoal! O artigo de hoje foi uma indicação bacana de uma colega nossa do blog. Ele foi escrito por Dennis Palumbo e tirado do site da Writers Store (clique nas capas dos livros para comprá-los na loja online):

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Um antigo comercial de desodorante, uma vez proclamou: “Se você não está um pouco nervoso, não está realmente vivo.”

Conselho muito sábio, mesmo que a única coisa em jogo fosse ficar seco e livre de odores. Mas há algo a ser dito quanto a aceitar – e aprender a navegar – as turbulências menores da vida. Eu estou falando aqui sobre a ansiedade comum de cada dia. O nervosismo. O frio na barriga.

Isto é particularmente verdadeiro para os escritores, cujos próprios sentimentos são a matéria-prima de seu ofício. Não importa o quão mundanas, as pequenas ansiedades podem pulular como abelhas, dificultando o trabalho; distrações, como uma iminente visita dos sogros, preocupações com dinheiro, ou com aquele ruído esquisito que a Honda tem feito.

Então há as ansiedades mais virulentas e específicas da carreira, compartilhadas por poucos em outras linhas de trabalho: O seu agente não tem retornado os seus telefonemas. Você passou três semanas do prazo final do roteiro. Você tem – eu me atrevo a dizer? – problemas com o Ato Dois.

Em outras palavras, você é um clone do personagem de Charlie Kaufman em Adaptação – olhos turvos, a barba por fazer, privado de sono, encarando pateticamente a tela em branco do computador, esperando por inspiração e ansiando por outra xícara de café, e talvez um bom bolinho de banana com nozes. Uma dúzia de pensamentos enervantes de auto-zombaria ecoam em sua cabeça: Você não tem talento, é uma fraude. Você está ficando velho e gordo. Nenhuma mulher (ou homem) jamais vai querer dormir com você novamente. A sua vida está acabada.

Estes tipos de sentimento requerem trabalho, com certeza, se apenas para serem validados (e então gentilmente desafiados) por um terapeuta, companheiro, bom amigo, ou colega escritor amparador que já esteve lá, já fez aquilo. Estes sentimentos profundamente arraigados da Escura-Noite-da-Alma, derivados da infância e aparentemente inescapáveis podem, de fato, ser paralisantes, independentemente do seu nível de habilidade e anos de experiência. E, acredite em mim, quando se trata destes demônios de escritores, todos nós “já estivemos lá, já fizemos isso.”

E, como eu já disse incontáveis vezes para os clientes escritores de minha clínica, lutar com estas dúvidas e medos não diz nada sobre você como escritor. Exceto que você É um escritor.

Francamente, este terreno emocional difícil é onde o escritor vive a maior parte do tempo – em uma matriz de triunfos e derrotas, otimismo e desespero, crenças fortes e esvaziamentos esmagadores. No final, tudo isso é combustível para a usina criativa.

E, creia-me, isto é igualmente verdadeiro tanto para os escritores principiantes quanto para os veteranos realizados e endurecidos de batalha.

Mas há um outro tipo de ansiedade que surge ocasionalmente na vida de um escritor: o tipo de angustiante e vertiginosa revolta vinda de dentro, que lança dúvida sobre tudo o que você sabe, e que lhe assusta até o âmago. Um divórcio arrasador. A morte de um membro da família. Uma série de ataques de pânico súbitos e inexplicáveis. Terrorismo. Guerra.

Então, que bálsamo há para se oferecer – ou para receber – que não pareça trivial ou lamentavelmente inadequado? Catarse e validação, os fundamentos da maioria dos trabalhos psicoterapêuticos, parecem meros jogos de palavras. Medicação, embora muitas vezes apropriada clinicamente, parece, na melhor das hipóteses, uma blindagem contra algo primal que está trabalhando dentro de você.

O que um escritor faz com esse nível de ansiedade?

Usa-a.

Porque quando tudo o que resta é escrever, escrever é tudo o que resta.

Que tipo de escrita? Talvez entorpecida e sem forma a princípio; caótica e insatisfatória. Talvez sombria e feia, ou auto-comiserativa e sem vergonha. Talvez um arranhar cego e raivoso no ar, com palavras e imagens.

A coisa que é importante reconhecer, aceitar e da qual fazer uso, é o fato da ansiedade – seu peso, seu tamanho, e sua implacabilidade [estar] neste momento em sua vida, por qualquer que seja a razão. Ela está lá, tão irremovível quanto um muro de tijolos; tão profunda e insondável quanto um mar.

E, por agora, ela não está indo a lugar algum.

Então você, o escritor, deve fazer-se esta pergunta: Existe um personagem na história que estou trabalhando que sinta tal ansiedade, que se sinta tão oprimido, tão fora de controle, tão aterrorizado quanto eu?

Se assim for, mergulhe de cabeça para escrever o máximo daquele personagem, dando a ele ou ela a sua voz, os seus medos, os seus pavores. Crie situações e cenas nas quais estas ansiedades sejam dramatizadas, exploradas, “encenadas”.

Escreva monólogos, discursos retóricos, trocas mordazes entre os personagens, permitindo que paixões e comportamentos surjam de modo que possam surpreender ou alarmar você; que estendam ou distorçam, ou até mesmo botem abaixo a narrativa na qual você esteve trabalhando. Todos estes problemas podem ser tratados, apagados, talvez até tecidos na história mais tarde, à luz fria do dia, quando você tiver algum tipo de perspectiva.

Porque estar verdadeiramente no olho da tempestade emocional, criar a partir de um estado de ansiedade, é renunciar a qualquer fantasia de perspectiva. De fato, no sentido mais puro, esse é o ato máximo de entrega criativa a partir da qual, da provação severa de sua dor mais profunda, você pode descobrir uma surpresa alegre e maravilhosa.

Se, no entanto, você se sentir tão impotente frente à sua ansiedade que não pode nem imaginar utilizá-la deste modo, então escreva sobre esse sentimento – mesmo que não tenha nenhum personagem de cuja voz você possa se apropriar; mesmo que os seus dedos tremam só de pensar em fazer sentido narrativo a partir dos sentimentos incipientes dentro de você.

Faça isto: coloque esses dedos trêmulos no teclado. AGORA MESMO, e comece a amarrar palavras juntas que reflitam como você se sente… sem contexto, ou narrativa, ou personagens. Apenas sentimento puro, em palavras tão vívidas e vivas quanto você puder invocar.

Então veja o que você escreveu. Sinta o que quer que você esteja sentindo. E escreva um pouco mais. Em breve, eu acredito, você sentirá a urgência da expressão criativa, a liberação palpável da ansiedade acumulada. Sem julgar o que surge, sem precisar que seja qualquer coisa, eu penso que você se encontrará escrevendo, mesmo se isso for apenas definido, por agora, como colocar palavras na página.

A própria ideia deste exercício lhe deixa ansioso? Não me surpreende. Todos nós temos muito medo de escrever a partir do próprio espaço emocional que mais gostaríamos de evitar ou negar. É da natureza humana.

Mas, para aqueles artistas que têm a coragem de abraçar seus próprios medos, de ficar consciente e conectado ao que parece ser um mundo cada vez mais perigoso, de coexistir com uma ansiedade potencialmente paralisante e escrever de qualquer modo, as recompensas podem ser significativas.

Além do mais, quando tudo o que resta é escrever…

Escrever é tudo o que resta.

Então confie nisso. Confie em si mesmo.

E escreva.

From Crime to Crime_Mind-Boggling Tales of Mystery and Murder

Uma ótima escrita pra você hoje! (^L^)

6 Comentários

  1. os artigos motivacionais funcionam como mágica nos meus momentos mais críticos (hahah)! valem tanto quanto os de conteúdo técnico.

    Comentário por Natália Leite (@natll) — 14/02/2012 @ 11:56

    • Oi, Natália!

      Que bom que ambos estejam ajudando! Eu também acho a mesma coisa, por isso é que eu tento variar! :mrgreen:

      Um abração, e um excelente carnaval pra você! ^‿^
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 17/02/2012 @ 11:29

  2. sobre: que “tudo o que resta é escrever”…confesso que me ajudou, está me ajudando. : ) tranformando a ansiedade de forma positiva, funciona como mágica mesmo…
    ; )

    Comentário por juliana camargo — 14/02/2012 @ 15:26

    • Oi, Juliana!

      Enfrentar as ansiedades (pequenas e grandes) do dia-a-dia de forma positiva é mesmo um dos maiores desafios da vida. Por isso fico super feliz que o post esteja ajudando. Que essa mágica seja eterna! =)

      Um abração, e um excelente carnaval pra você! ツ
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 17/02/2012 @ 11:39

  3. 4 dias! Esse é o tempo que tenho sem conseguir escrever uma única palavra em meu roteiro de uma história em quadrinhos de 96 páginas! O 1º ATO já está escrito e foi exatamente após escrevê-lo que eu “travei”! Vou usar estas dicas e ver o que acontece, afinal, o que me resta é escrever! Muito obrigado por mais conhecimento!

    Comentário por Alves Filho — 14/02/2012 @ 20:59

    • Oi, Alves!

      Antes de tudo, não há de quê! Espero que você realmente encontre ajuda neste post. Se ainda continuar travado, clique na tag “Motivacional” na coluna à direita do blog, que você encontrará muitos outros textos que podem te dar esse empurrãozinho que você necessita agora.

      Um abraço grande, e um excelente carnaval pra você, Alves, eu espero que antes dele terminar você esteja de volta aos trilhos, a todo vapor! ᵔᴥᵔ
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 17/02/2012 @ 11:44


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