Dicas de Roteiro

06/02/2012

Scott Myers – Como Eu Escrevo Um Roteiro (Parte 6)

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Aqui está mais uma parte desta série do site Go Into The Story, escrita pelo roteirista Scott Myers.

Nota: A palavra “outline” pode significar tanto esboço quanto uma espécie de argumento. Neste caso, optei pelo termo “esboço”, pois o autor inclui nele mais coisas do que se costuma colocar num argumento convencional, como: diálogos, sentimentos dos personagens, transições etc.

screenplay scribble

PARTE 6: ESBOÇO

Eu começo transcrevendo o conteúdo das fichas em um novo arquivo do Word, chamado Esboço da História. Geralmente, eu terei anotado observações e ideias nas fichas relacionadas a cada cena ou acontecimento, de forma que essa informação entra no esboço também.

[Nota: Existem muitos programas de computador hoje em dia que são construídos para fazer o esboço.]

O objetivo aqui é criar um esquema com Cena 1, seguida pela Cena 2, Cena 3, seguindo até a última cena e o FADE OUT. O trabalho duro aqui é certificar-me da melhor maneira possível de que a história acompanha e lida com todas as subtramas. Uma consideração final é pensar nas transições, como fazer cada uma mudar de uma cena ou sequência para a próxima o mais suave e naturalmente possível.

Além de trancar a estrutura da história, eu também penso em cada cena, fazendo uma série de perguntas:

* Qual é o objetivo da cena?

* Qual é o Começo, o Meio e o Fim da cena?

* Quais personagens devem estar na cena, e por quê?

* Como eu entro / saio da cena?

Isso pode mudar na escrita efetiva do roteiro – bem como a ordem das cenas – mas eu gosto de pensar as minhas cenas com antecedência.

Os meus esboços podem ser bastante longos. Eu acabei de puxar um de meus arquivos, que é de 22 páginas em espaço simples. Mas, então, eu gosto de inserir tudo o que eu cavo sobre cada cena: imagens, pedaços de diálogos, dinâmicas do Mundo Interior, transições, e assim por diante.

Ok, agora eu quero que você respire fundo e perceba algo:. Tudo isso – o conceito da história, o processo de brainstorm, a pesquisa, o desenvolvimento do personagem, a criação do enredo, e o esboço – e eu ainda não escrevi uma palavra do roteiro de fato. Eu descobri que fazer o trabalho duro antes, o que eu chamo de escrita preparatória, me dá mais espaço para o pensamento criativo no meu processo de escrever a página.

Deixe-me explicar: eu não estou dizendo que todo escritor tem que trabalhar desta maneira. Cada escritor tem de encontrar a abordagem que funciona para si. Por exemplo, Neil Simon evita esboços:

Quando eu comecei, eu pegava os blocos de páginas amarelas e esboçava a peça inteira. Então eu começava a escrever a peça, e os personagens começavam a querer sair em deriva, em direção aonde queriam ir. Então eu os empurrava de volta para o esboço, e eles diziam: Nós não gostamos daqui deste esboço, queremos entrar num outro bloco amarelo. Este bloco amarelo fede. Então, eu só ficava tentando forçá-los lá, e eu percebi que não poderia fazer isso.

A esta altura, eu não faço mais esboço nenhum. Eu faço um esboço apenas em minha mente. Se eu posso dizer duas ou três frases sobre a peça, então eu tenho uma peça.

Isso é o máximo de esboço de que preciso, porque quando escrevo algo, eu quero ser tão surpreendido – e isso vale para roteiros também, em termos de roteiro original – eu quero ser tão surpreendido quanto o público será. Se eu sei tudo de antemão, isso torna-se um emprego. Apenas deixo acontecer e vejo aonde isso me leva.

Ok, esse é um extremo. Por outro lado, há o roteirista e diretor Paul Schrader, que é conhecido por elaborar esboços tão extensos que ele pode prever dentro de um quarto de página quão longa é cada cena antes de escrevê-la. Sua opinião:

Pergunta: Você ainda faz o esboço em uma página?

Paul Schrader: Sim. E então faço o re-esboço. Neste aqui, eu fui direto do esboço para o roteiro. Mas, geralmente, se eu tiver alguma dúvida se a ideia vai realmente funcionar, então eu passo para uma análise sequencial.

Tudo o que uma análise sequencial é… digamos que em um filme médio existam cerca de 45 – 55 – 60 coisas acontecendo. Esse é o seu esboço, a lista de coisas que acontecem. Essa não é a lista de tomadas, ou a lista de cenas, apenas as coisas que acontecem. Tipo, eles se encontram no Hotel Chelsea, voltam ao escritório, fazem chamadas telefônicas, o que for.

Então você pega cada um daqueles itens do seu esboço e transforma-o em um parágrafo. Daí, agora você está começando a incluir o diálogo.

Pergunta: De 5 a 8 linhas?

Paul Schrader: Sim. Então, agora, em vez de um esboço de uma página, você tem cerca de uma análise de 15 páginas, em espaçamento simples. E se a sua ideia ainda sobreviver a tudo isso, então há uma chance muito boa de que ela vá funcionar. Eu já tive ideias que funcionavam no estágio de esboço, mas morreram na fase de análise sequencial.

E quando uma ideia morre em você, essa é, de fato, uma das melhores coisas que pode acontecer. Porque você acabou de poupar-se uma enorme quantidade de tempo e dor. Algumas ideias simplesmente não querem ser escritas. Elas não querem ser escritas por você. Algumas ideias já lhe enganaram para fazer você pensar que elas tinham mais poder do que, de fato, tinham. Se você descobrir isso depois de escrever uma primeira versão, terá desperdiçado muito tempo e também terá perdido a fé em si mesmo, porque você acreditou em algo e não conseguiu ser bem sucedido naquilo.

Então, dois extremos. E um escritor deve encontrar a sua própria abordagem, não há "certo" ou "errado", apenas o que funciona para você.

Dito isto, eu realmente encorajo todos os aspirantes a roteirista a tentarem uma abordagem de escrita preparatória imersiva (como a que eu apresentei até agora nesses seis posts) pelo menos uma vez. Se funcionar, ótimo. Se não, você está livre para ir atrás do Neil Simon e mandar ver ao estilo livre com ele.

Você pode ler a entrevista completa com o Paul Schrader aqui.

Amanhã, a Parte 7: Diário de Roteiro.

Nota: Como eu já afirmei neste blog muitas vezes antes, "Não existe maneira certa de escrever". Cada escritor é diferente. Cada história é diferente. E, francamente, meus pontos de vista já evoluíram desde que eu escrevi esta série para um curso de roteiro, quase uma década atrás. Ao ler estes 10 posts, por favor, tenha em mente que, ao final da série, eu vou postar uma espécie de "argumento" para contrabalançar o que está proposto aqui.

*****

Nos comentários, o leitor Mike escreveu:

Fazer perguntas sobre cada cena é fundamental. Isso é bem na mesma veia do filtro de Mamet:

1. Quem quer o quê (nesta cena)?
2. O que acontece se eles não conseguirem?
3. Por que AGORA?

Se uma cena não tem nenhuma resposta para estas três questões, diz Mamet, ela não é dramática.

Num dos comentários antigos, o leitor unpaid villain [vilão não remunerado] escreve sobre uma das partes anteriores desta série:

Em relação ao bloco de notas ao lado da cama para pensamentos dispersos, eu assisti a uma palestra dada pela escritora Janet Evanovich, que admitiu que nunca usou um, e que tinha esquecido algumas coisas que realmente desejava poder lembrar. Ela finalmente se rendeu à pressão de ter uma caneta e um bloco à mão para o insight cego das três da madrugada.

Ela foi devidamente para a cama, acordou como previsto, pegou a caneta e o papel, e anotou tudo.

Quando acordou, ela descobriu que tinha escrito: “Não devo esquecer isto. Não devo esquecer isto.”

outline

- Parece que você está fazendo um bom progresso no seu romance!

- Eu também acho. E isto é apenas o esboço!

Boa escrita pra você hoje! =D

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