Ter conversas íntimas com dúzias dos melhores roteiristas de Hollywood foi uma experiência transformadora. Embora eu tenha sido um roteirista profissional por muitos anos, a maior parte do meu trabalho foi no reino do cinema independente, então coletar material para o Tales From The Script me deu um curso intensivo sobre a realidade de escrever filmes nos níveis superiores da indústria.
1. Boas coisas vêm para aqueles que esperam… e esperam… e esperam.
Um tema recorrente em todas as entrevistas neste projeto é a longa (e dolorosa) lacuna de tempo que se estende desde o momento em que alguém decide tornar-se um roteirista até o momento em que o sonho se torna realidade. Mas, como pode ser visto na seguinte observação de Frank Darabont, o escritor/diretor indicado ao Oscar por Um Sonho de Liberdade, há um modo de fazer um bom uso dessa inatividade excruciante: “Não fale sobre ser um roteirista. Sente o seu traseiro na cadeira e, mesmo que leve dez anos para começar a trabalhar como um profissional, desenvolva e aprimore as suas habilidades. Não pense que a primeira coisa que você escrever vai ser vendida por um milhão de dólares, porque eu tenho novidades para você: Não vai.” Stephen Susco, que escreveu a versão americana de O Grito, bem como sua seqüência, coloca a mesma ideia em perspectiva numérica, explicando que ele escreveu vinte e cinco roteiros antes de conseguir crédito em um filme produzido. Moral da história? Vencer a corrida do roteirismo não tem a ver com velocidade. Trata-se de resistência.
2. Não espere em pé se você estiver vendendo uma história original.
Tales From The Script é recheado de histórias inspiradoras sobre escritores que lançaram suas carreiras ao criarem histórias originais que agitaram a comunidade hollywoodiana – de Paul Schrader (Taxi Driver) e Ron Shelton (Sorte no Amor) a Justin Zackham (Antes de Partir). Mas, no clima de hoje, o escritor que ergue-se da obscuridade sobre a força de um simples roteiro de especulação é uma criatura rara. Estamos na era das adaptações e refilmagens e continuações, assim, muitas vezes, a melhor esperança do escritor emergente com um roteiro de especulação é conseguir ser notado e, então, contratado para uma tarefa em um projeto já existente. Quão ruim é o clima para histórias novas? Vou deixar que John August, o roteirista da versão de Tim Burton de A Fantástica Fábrica de Chocolate, responda essa: “Você tende a ter um monte de ideias que gostaria de ver transformadas em filmes, mas a realidade é que a maioria das coisas que realmente tornam-se filmes não são ideias novas em folha. No momento atual, os filmes que são feitos são baseados em alguma obra pré-existente de propriedade intelectual.” Para derramar um pouco de sal sobre a ferida, reflita sobre este comentário do autor de Atirador, Jonathan Lemkin: “Se eu pudesse apresentar a ideia de “Wheaties – O Filme” amanhã [N.T.: Wheaties é um clássico cereal matinal americano], eu teria uma chance melhor de vendê-la do que eu teria com uma ideia original. ‘Lá está uma caixa de cereais, pessoal!’ É uma época muito estranha.”
3. Não subestime o valor do cinismo.
Ok, eu estou tapeando neste ponto, porque se há uma coisa que eu já valorizava muito antes mesmo de começar a trabalhar no Tales From The Script, era o cinismo. Eu parei de esperar que as coisas dessem certo logo após os meus dias de estudante na NYU, quando percebi que o mundo não estava esperando ansiosamente a chegada das minhas grandes demonstrações artísticas. O resultado de me desfazer da ingenuidade juvenil foi descobrir a importância da diligência, e aprender que uma carreira no cinema é construída tijolo por tijolo, meticulosamente. Ao falar com os escritores que participaram do Tales From The Script, no entanto, eu encontrei uma nuance interessante relativa ao cinismo: com moderação, pode ser uma força positiva. Ninguém falou sobre este ponto de forma mais eloqüente (ou mais divertida) do que John D. Brancato, que, com o seu parceiro de escrita Michael Ferris, tem sobrevivido trabalhando em espetáculos de grande orçamento que incluem Mulher-Gato, O Jogo e os dois últimos filmes de O Exterminador do Futuro. Aqui está o que ele disse: “Eu li roteiros, muitos deles, onde o escritor, obviamente, odeia o que ele está fazendo, e acha que é uma bobagem. Esse tipo de cinismo é pernicioso. Ele prejudica o projeto. Prejudica os filmes em geral. Então eu tento não ser cínico em relação ao roteiro, em relação ao filme – embora sendo cínico em relação à todas as outras coisas ligadas à ele. Permanecer inocente no processo criativo é o negócio.”
4. Aprenda a amar as suas neuroses. Já vi colegas exaurirem as suas vidas por causa dos altos e baixos de buscar uma carreira em Hollywood.
Os agentes perdem o interesse, os contratos de opção expiram, os filmes que parecem perto de serem produzidos perdem o impulso… é um ciclo desolador, e até mesmo as pessoas mais fortes sentem insegurança depois de revés após revés. A única esperança que os novos escritores têm é que, uma vez que se tornarem escritores estabelecidos, as coisas vão ficar mais fáceis. Acontece que esse não é necessariamente o caso. Claro, o lado financeiro das coisas pode se tornar muito mais confortável uma vez que o escritor comece a vender os seus originais e a arranjar trabalhos. Mas depois que o sucesso chega, um novo conjunto de dificuldades torna-se parte da vida cotidiana. Competição mortal entre seus pares. Enlouquecedoras observações sem sentido do estúdio. Talentos egomaníacos influentes. E, para completar, a pressão constante de tentar superar, ou pelo menos igualar, o tipo de sucesso que coloca os escritores no mapa, para começo de conversa. É verdade que alguns dos escritores veteranos no Tales From The Script parecem capazes de manter Hollywood em perspectiva; todos nós deveríamos ser tão confiantes quanto o eternamente jovem Larry Cohen (Por Um Fio). Mas eu certamente me reconheço, e a quase todos os escritores no Tales From The Script, neste comentário do roteirista-que-se-tornou-psicoterapeuta, Dennis Palumbo (Um Cara Muito Baratinado): “Um escritor amigo meu uma vez descreveu os roteiristas como ‘egomaníacos com baixa auto-estima’.”
5. Vale a pena.
Vamos encarar: Reclamar de Hollywood e a coisa mais fácil do mundo. Qualquer um que embarca nessa imediatamente descobre que a indústria cinematográfica é um asilo de loucos, porque não há um caminho claro para se tornar um roteirista, não há um caminho claro para preservar a integridade dos roteiros, e não há nenhum caminho claro para manter uma carreira longa em roteirismo. Como William Goldman disse muitas vezes, e repetiu durante a sua extraordinária entrevista no Tales From The Script, “Ninguém sabe de nada.” Estamos todos inventando à medida que avançamos, tentando descobrir como escrever um grande trabalho, como conseguir que outras pessoas invistam nesse trabalho e, então, como garantir que o trabalho atinja as telas mantendo alguma semelhança com a sua forma original. Então, por que se preocupar? Por que não simplesmente publicar romances por conta própria ou ler poesia nas esquinas? Existem maneiras mais fáceis de compartilhar a sua arte, e o número de escritores que atingem o sucesso em Hollywood é excedido pelo número de escritores que não conseguem. O motivo pelo qual o sonho vale a pena ser perseguido é que as recompensas estão além da imaginação. Nada toca o público com o mesmo poder de um grande filme hollywoodiano, e se você alcançar o topo desta montanha em particular, poderá desfrutar de um estilo de vida espetacular. A razão pela qual alcançar o sucesso escrevendo roteiros é tão difícil, é que para aqueles poucos sortudos do topo, vale a pena. Vou deixar Gerald DiPego, o maduro escritor de sucessos que incluem Os Esquecidos e Fenômeno, falar por experiência própria: “Eu sabia que queria ser um escritor por volta de meus doze anos de idade, e há um momento em cada produção onde eu tenho doze anos de novo. O que é mais frágil do que uma história? É uma coisa sutil que você inventa em sua cabeça. E ver os atores em carne e osso andando por aí, sendo os seus personagens, e ver os carpinteiros construindo os edifícios, e tudo isso saiu daquele sonho… Ainda há um momento onde eu sou um garoto de doze anos dizendo: ‘Uau, olha só isso’.”