Dicas de Roteiro

30/06/2010

Escreva o Que Você Sabe

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 13:50
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Hoje temos um artigo escrito pelo 8th Samurai para o site Filmmaker IQ. Amanhã postarei um outro texto que complementa esse aqui.

escreva

Eu não produzi muitos desses negócios de “como fazer” desde o Verão, pois fui arrastado por este projeto, por coisas de trabalho e por tragédias recentes, então eu acho que agora é hora.

Esta frase do título é lançada para os escritores-bebês com tanta frequência quanto "mostre, não conte", e, provavelmente, recebe o mesmo número de acenos de cabeça discretos combinados com expressões enfadonhas.

O que diabos ela significa?

É uma que os escritores-bebês gostam de discutir – como você pode escrever sobre duendes, dragões e tal, se você NÃO PODE conhecê-los – eles são imaginários.

Trata-se de escrever coisas que você experimentou e entende, com certeza. Quando uma pessoa chega lá pelos 15 anos, ela entende de saudade, gafes sociais, a dor do fracasso etc. Seria um pouco mais difícil para alguém desta idade escrever sobre o funcionamento interno de um casamento de longo prazo a partir de dentro, ou convincentemente representar um engenheiro industrial a partir de uma base matemática.

Escrever não trata-se de fatos, trata-se de personalidades e emoções. À medida que você envelhece, você conhece mais personalidades, e as relações se tornam mais complexas.

O cerne desta teoria é que um escritor principiante terá uma dificuldade maior em escrever algo com que ele não tenha familiaridade nenhuma, tanto do ponto de vista técnico quanto emocional.

Eu nunca fui um oficial de polícia. Eu poderia escrever um? Claro. Eu precisaria fazer bastante pesquisa para torná-lo plausível, no entanto. Quanto tempo é o treinamento? (Depende do tipo de oficial). Como funciona a hierarquia, quais são as competências básicas, o ambiente social, o comportamento aceitável/típico etc. O personagem saberia dessas coisas.

Para alguém que esteja apenas começando, toda essa pesquisa poderá revelar-se assustadora, e impedir o avanço da prática.

Se alguém nunca esteve apaixonado, experimentou grandes perdas, esses serão mais um desafio para imaginar.

Isso é o que a frase realmente significa – ir aos bocadinhos. Começar com o território familiar como um ponto de partida.

E pode ser muito mais agradável para o escritor começar em algum lugar que seja interessante para ele. Ama dragões e duendes? Então eu aposto que você já leu folclore suficiente para saber a diferença entre um duende e um skeltie [N.T.: Me pegou, não tenho ideia do que seja um skeltie.]. Adora armas de fogo? Então você tem uma base para diferençar uma Firestar de um mosquete – e conhecimento suficiente para esboçar que tipo de personagem usaria cada uma, e como.

Ou o mundo do fisiculturismo competitivo, o de apostas, o de galerias de arte… a lista poderia continuar para sempre!

Conforme você ganha experiência, a sua base de conhecimento e de interesses irá ampliar-se, e você será capaz de escrever mais de improviso sobre uma variedade de situações, objetos, períodos históricos etc., e torná-los reais.

O que sempre parecerá mais legítimo, serão as coisas que você conhece melhor. Então escreva o que você sabe.

E você sabe muito.

bloco do saber

Boa escrita pra você hoje!

Contos do Script: 5 Coisas Que Aprendi Entrevistando Roteiristas

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 12:50
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Oi! O artigo de hoje foi tirado do site Writers Store e escrito pelo escritor e cineasta Peter Hanson, co-organizador do livro Tales From The Script – 50 Hollywood Screenwriters Share Their Stories [Contos do Roteiro – 50 Roteiristas Hollywoodianos Compartilham Suas Histórias] (também em DVD):

Tales from the Script_Covers

Ter conversas íntimas com dúzias dos melhores roteiristas de Hollywood foi uma experiência transformadora. Embora eu tenha sido um roteirista profissional por muitos anos, a maior parte do meu trabalho foi no reino do cinema independente, então coletar material para o Tales From The Script me deu um curso intensivo sobre a realidade de escrever filmes nos níveis superiores da indústria.

1. Boas coisas vêm para aqueles que esperam… e esperam… e esperam.

Um tema recorrente em todas as entrevistas neste projeto é a longa (e dolorosa) lacuna de tempo que se estende desde o momento em que alguém decide tornar-se um roteirista até o momento em que o sonho se torna realidade. Mas, como pode ser visto na seguinte observação de Frank Darabont, o escritor/diretor indicado ao Oscar por Um Sonho de Liberdade, há um modo de fazer um bom uso dessa inatividade excruciante: “Não fale sobre ser um roteirista. Sente o seu traseiro na cadeira e, mesmo que leve dez anos para começar a trabalhar como um profissional, desenvolva e aprimore as suas habilidades. Não pense que a primeira coisa que você escrever vai ser vendida por um milhão de dólares, porque eu tenho novidades para você: Não vai.” Stephen Susco, que escreveu a versão americana de O Grito, bem como sua seqüência, coloca a mesma ideia em perspectiva numérica, explicando que ele escreveu vinte e cinco roteiros antes de conseguir crédito em um filme produzido. Moral da história? Vencer a corrida do roteirismo não tem a ver com velocidade. Trata-se de resistência.

2. Não espere em pé se você estiver vendendo uma história original.

Tales From The Script é recheado de histórias inspiradoras sobre escritores que lançaram suas carreiras ao criarem histórias originais que agitaram a comunidade hollywoodiana – de Paul Schrader (Taxi Driver) e Ron Shelton (Sorte no Amor) a Justin Zackham (Antes de Partir). Mas, no clima de hoje, o escritor que ergue-se da obscuridade sobre a força de um simples roteiro de especulação é uma criatura rara. Estamos na era das adaptações e refilmagens e continuações, assim, muitas vezes, a melhor esperança do escritor emergente com um roteiro de especulação é conseguir ser notado e, então, contratado para uma tarefa em um projeto já existente. Quão ruim é o clima para histórias novas? Vou deixar que John August, o roteirista da versão de Tim Burton de A Fantástica Fábrica de Chocolate, responda essa: “Você tende a ter um monte de ideias que gostaria de ver transformadas em filmes, mas a realidade é que a maioria das coisas que realmente tornam-se filmes não são ideias novas em folha. No momento atual, os filmes que são feitos são baseados em alguma obra pré-existente de propriedade intelectual.” Para derramar um pouco de sal sobre a ferida, reflita sobre este comentário do autor de Atirador, Jonathan Lemkin: “Se eu pudesse apresentar a ideia de “Wheaties – O Filme” amanhã [N.T.: Wheaties é um clássico cereal matinal americano], eu teria uma chance melhor de vendê-la do que eu teria com uma ideia original. ‘Lá está uma caixa de cereais, pessoal!’ É uma época muito estranha.”

3. Não subestime o valor do cinismo.

Ok, eu estou tapeando neste ponto, porque se há uma coisa que eu já valorizava muito antes mesmo de começar a trabalhar no Tales From The Script, era o cinismo. Eu parei de esperar que as coisas dessem certo logo após os meus dias de estudante na NYU, quando percebi que o mundo não estava esperando ansiosamente a chegada das minhas grandes demonstrações artísticas. O resultado de me desfazer da ingenuidade juvenil foi descobrir a importância da diligência, e aprender que uma carreira no cinema é construída tijolo por tijolo, meticulosamente. Ao falar com os escritores que participaram do Tales From The Script, no entanto, eu encontrei uma nuance interessante relativa ao cinismo: com moderação, pode ser uma força positiva. Ninguém falou sobre este ponto de forma mais eloqüente (ou mais divertida) do que John D. Brancato, que, com o seu parceiro de escrita Michael Ferris, tem sobrevivido trabalhando em espetáculos de grande orçamento que incluem Mulher-Gato, O Jogo e os dois últimos filmes de O Exterminador do Futuro. Aqui está o que ele disse: “Eu li roteiros, muitos deles, onde o escritor, obviamente, odeia o que ele está fazendo, e acha que é uma bobagem. Esse tipo de cinismo é pernicioso. Ele prejudica o projeto. Prejudica os filmes em geral. Então eu tento não ser cínico em relação ao roteiro, em relação ao filme – embora sendo cínico em relação à todas as outras coisas ligadas à ele. Permanecer inocente no processo criativo é o negócio.”

4. Aprenda a amar as suas neuroses. Já vi colegas exaurirem as suas vidas por causa dos altos e baixos de buscar uma carreira em Hollywood.

Os agentes perdem o interesse, os contratos de opção expiram, os filmes que parecem perto de serem produzidos perdem o impulso… é um ciclo desolador, e até mesmo as pessoas mais fortes sentem insegurança depois de revés após revés. A única esperança que os novos escritores têm é que, uma vez que se tornarem escritores estabelecidos, as coisas vão ficar mais fáceis. Acontece que esse não é necessariamente o caso. Claro, o lado financeiro das coisas pode se tornar muito mais confortável uma vez que o escritor comece a vender os seus originais e a arranjar trabalhos. Mas depois que o sucesso chega, um novo conjunto de dificuldades torna-se parte da vida cotidiana. Competição mortal entre seus pares. Enlouquecedoras observações sem sentido do estúdio. Talentos egomaníacos influentes. E, para completar, a pressão constante de tentar superar, ou pelo menos igualar, o tipo de sucesso que coloca os escritores no mapa, para começo de conversa. É verdade que alguns dos escritores veteranos no Tales From The Script parecem capazes de manter Hollywood em perspectiva; todos nós deveríamos ser tão confiantes quanto o eternamente jovem Larry Cohen (Por Um Fio). Mas eu certamente me reconheço, e a quase todos os escritores no Tales From The Script, neste comentário do roteirista-que-se-tornou-psicoterapeuta, Dennis Palumbo (Um Cara Muito Baratinado): “Um escritor amigo meu uma vez descreveu os roteiristas como ‘egomaníacos com baixa auto-estima’.”

5. Vale a pena.

Vamos encarar: Reclamar de Hollywood e a coisa mais fácil do mundo. Qualquer um que embarca nessa imediatamente descobre que a indústria cinematográfica é um asilo de loucos, porque não há um caminho claro para se tornar um roteirista, não há um caminho claro para preservar a integridade dos roteiros, e não há nenhum caminho claro para manter uma carreira longa em roteirismo. Como William Goldman disse muitas vezes, e repetiu durante a sua extraordinária entrevista no Tales From The Script, “Ninguém sabe de nada.” Estamos todos inventando à medida que avançamos, tentando descobrir como escrever um grande trabalho, como conseguir que outras pessoas invistam nesse trabalho e, então, como garantir que o trabalho atinja as telas mantendo alguma semelhança com a sua forma original. Então, por que se preocupar? Por que não simplesmente publicar romances por conta própria ou ler poesia nas esquinas? Existem maneiras mais fáceis de compartilhar a sua arte, e o número de escritores que atingem o sucesso em Hollywood é excedido pelo número de escritores que não conseguem. O motivo pelo qual o sonho vale a pena ser perseguido é que as recompensas estão além da imaginação. Nada toca o público com o mesmo poder de um grande filme hollywoodiano, e se você alcançar o topo desta montanha em particular, poderá desfrutar de um estilo de vida espetacular. A razão pela qual alcançar o sucesso escrevendo roteiros é tão difícil, é que para aqueles poucos sortudos do topo, vale a pena. Vou deixar Gerald DiPego, o maduro escritor de sucessos que incluem Os Esquecidos e Fenômeno, falar por experiência própria: “Eu sabia que queria ser um escritor por volta de meus doze anos de idade, e há um momento em cada produção onde eu tenho doze anos de novo. O que é mais frágil do que uma história? É uma coisa sutil que você inventa em sua cabeça. E ver os atores em carne e osso andando por aí, sendo os seus personagens, e ver os carpinteiros construindo os edifícios, e tudo isso saiu daquele sonho… Ainda há um momento onde eu sou um garoto de doze anos dizendo: ‘Uau, olha só isso’.”

Tales from the Script

Boa escrita pra você hoje!

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