Dicas de Roteiro

02/05/2015

Ponto de Vista: Como os Escritores Podem Dominar Este Crucial Elemento da História

Filed under: Escrita Literária — valeriaolivetti @ 13:10
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O artigo a seguir, complemento dos nossos último e penúltimo posts, foi escrito por Amanda Warner e publicado originalmente no site The Write Life:

Ponto de Vista

Depois de decidir sobre o ponto de vista do seu livro — seja primeira ou terceira pessoa, onisciente ou limitado — a parte mais difícil vem a seguir: permanecer consistente.

Sair fora do ponto de vista (POV) selecionado pode interromper abruptamente a história. Os leitores já não se conectam com o personagem principal, e eles têm dificuldade de seguir o enredo.

Evite estas falhas fatais, mantendo um ponto de vista firme.

É melhor estar atento ao POV enquanto você escreve, porque corrigir erros requer vasculhar cada cena! É possível de se fazer, só que não muito divertido. E a maioria dos agentes literários não vai querer fazer isso por você.

Aqui estão seis dicas para garantir que você mantenha um POV constante em sua história:

1. Só inclua elementos de cenário que o seu personagem-POV notaria

Quando o seu personagem-POV entra pela primeira vez em um aposento, ele não vai notar todos os detalhes — a cor das cortinas, o formato da mesa, o tipo de ladrilho no chão. Embora você deseje descrever o cenário com precisão, você tem que manter em mente o POV. Talvez tudo o que o seu personagem vai notar é o delicioso aroma de comida sendo preparada na cozinha.

Uma das implicâncias dos agentes literários é quando os escritores vão além do que é necessário ao estabelecer a cena. Seja natural ao apresentar detalhes pertinentes, ou até mesmo faça um outro personagem, que está no aposento por algum tempo, apontá-los.

2. Não deixe os personagens descreverem a si mesmos

Seu personagem provavelmente não vai perceber quais expressões faciais está fazendo enquanto outro personagem conta a fofoca do dia. E ele provavelmente não vai notar a comida em seus dentes, a menos que alguém comente sobre isso ou olhe estranho para eles. Esteja consciente de como você descreve os personagens: O que eles realmente teriam notado?

3. Não inclua nada que o seu personagem-POV não teria sabido na época

A menos que este seja uma cartomante.

Mas esta regra se aplica ao conhecimento dos fatos do seu personagem-POV, e não apenas ao dos eventos futuros. Será que ele realmente sabe a marca específica de roupa que um amigo estava vestindo? Se sim, o modo como ele sabia disso deveria estar evidente para o leitor também.

4. Certifique-se de que os julgamentos dos personagens são baseados em sinais perceptíveis ao leitor

Se um personagem acredita que outro é um mentiroso de duas caras, esse julgamento também deve estar evidente para o leitor. Todos os sinais que o personagem viu para chegar a essa decisão, o leitor deve ter visto também.

5. Não pule de cabeça para cabeça

Cada capítulo ou seção deve ser do ponto de vista de um único personagem. Quando o POV muda, certifique-se de que está óbvio na primeira frase.

6. Elimine todo "ele pensou" e "ela viu"

Estas indicações soam destoantes quando os leitores já sentem que estão nos pensamentos do personagem-POV. As pessoas não pensam usando frases como "Eu estou vendo isto" ou "Eu estou pensando nisso". Essas são frases que usamos para expressar a alguém de fora da nossa mente o que nós pensamos ou experimentamos. Ao utilizar estas frases, você bane os leitores da cabeça do seu personagem.

Uma grande bandeira vermelha de alerta aparece quando essas indicações referem-se a outros personagens, já que o seu personagem-POV não seria capaz de saber o que outro personagem estava olhando ou sobre o que estava pensando.

Os leitores querem se perder em uma história. Eles querem pensar e sentir junto com o personagem principal. Quando você conta uma história do ponto de vista de um personagem, você tem o privilégio de escrever a partir de dentro da cabeça do personagem. O mais importante é que você entre em seu personagem principal — para pensar como ele, para ver como ela — e para contar a história como se você a estivesse vivendo.

Se o ponto de vista ainda parece uma imensa habilidade para dominar, consiga ajuda de outros escritores reunindo um grupo de escrita ou mesmo contratando um editor. Quanto mais consciente do ponto de vista você esteja, mais fácil será prevenir-se de sair fora dele.

Como você pode assegurar um POV consistente em sua escrita?

***

Observações da tradutora:

– É interessante notar que diferentes gêneros literários exigem diferentes tipos de ponto de vista. Os livros infantojuvenis e para jovens adultos que estão sendo publicados atualmente (sem falar em toda essa interminável safra de romances eróticos) são quase todos escritos em primeira pessoa [Harry Potter é uma exceção], enquanto histórias de mistério e suspense pedem terceira pessoa limitada (porque se fosse onisciente o leitor já saberia quem é o assassino na primeira página). Teremos outros posts mais completos sobre o assunto no futuro.

– Os textos citados neste artigo (tipos de pontos de vista, dicas de agentes, como conseguir agentes literários, como criar personagens, como criar grupos de escrita) estão na fila para futuras traduções.

Transando no armário em Hogwarts

Boa escrita pra você! (:

26/04/2015

Escrevendo um Romance? 6 Técnicas de Narrativa Visual Para Pegar Emprestado do Cinema e da TV

Filed under: Escrita Literária — valeriaolivetti @ 09:15
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O artigo a seguir, complemento do nosso último post, foi escrito por C. S. Lakin e publicado originalmente no site The Write Life:

garoto com claquete

Muitos de nós fomos criados assistindo a milhares de filmes e programas de televisão. O estilo, a técnica e os métodos utilizados no cinema e na TV são tão familiares para nós, que os processamos confortavelmente. Até certo ponto, nós agora esperamos que estes elementos apareçam nos romances que lemos — se não conscientemente, então subconscientemente.

Sabemos o que compõe uma excelente e fascinante cena em um filme, e o que faz uma ser chata — pelo menos visceralmente. E embora, certamente, os nossos gostos sejam diferentes, na maior parte das vezes concordamos quando uma cena "funciona" ou não. Ou ela realiza o que o escritor ou o diretor teve a intenção de fazer, ou fracassa.

Como escritores, nós podemos aprender com esta narrativa visual; o que compõe um grande filme também pode tornar um romance ou um conto mais eficaz. Grande parte da técnica que os cineastas usam pode ser adaptada para a escrita de ficção.

Divida suas cenas em segmentos

Assim como o seu romance consiste de uma sequência de cenas que fluem juntas para contar a sua história, do mesmo modo fazem os filmes e programas de televisão.

Entretanto, como romancista, você arranja as suas cenas de forma muito diferente da que um roteirista ou diretor faz. Enquanto você pode ver cada uma de suas cenas como momentos encapsulados de tempo, integrados, um diretor de cinema vê cada cena como uma compilação de uma série de segmentos ou partes — uma coleção de tomadas de câmera que são posteriormente editadas e se encaixam para criar esse fluente "momento do tempo". Ao pensar em termos de segmentos na criação de cada cena, os escritores podem criar uma história visualmente poderosa e dinâmica.

Então, como os romancistas podem estruturar as cenas com técnica cinematográfica de uma forma que vá turbinar a sua escrita? Aqui estão seis passos que ajudarão você a estruturar o seu romance como se você fosse um cineasta:

1. Identifique os momentos-chave

Pense em sua cena e tente dividi-la em uma série de momentos-chave. Primeiro, você tem a tomada de abertura que estabelece a cena e o cenário. Daí, identifique alguns momentos-chave em que algo importante acontece, como uma complicação ou reviravolta, e então, anote-os.

Em seguida, escreva o momento-chave da cena — o "ponto alto" — que revela algo importante sobre o enredo ou os personagens. Isso deve acontecer bem no final, ou muito perto dele. Você pode ter um momento adicional a seguir, que é a reação ou a repercussão do ponto alto.

2. Leve em consideração o seu POV

Agora você tem uma lista de "tomadas de câmera". Pense em cada segmento de sua lista, então imagine onde a sua "câmera" precisa estar para filmar este segmento.

Lembre-se, você está no POV [ponto de vista] de um personagem — seja um narrador contando em primeira pessoa e vivenciando a história, ou um personagem em terceira pessoa nesse papel. Assim, considere onde esse personagem está fisicamente conforme ele vê e reage aos principais momentos que acontecem em sua cena. Agora você tem a sua "direção", para que você possa escrever esta cena dinamicamente. Aproxime-se para ver detalhes importantes. Afaste-se para mostrar uma perspectiva mais ampla e uma maior importância de um evento.

3. Adicione ruído de fundo

Considere quais sons são importantes nesta cena. Eles poderiam ser sons comuns que dão uma atmosfera ao cenário, mas também pense em algum som, ou dois, que você possa inserir na cena e que vá se destacar e aprofundar o sentido do seu personagem.

Sinos da igreja tocando poderiam fazer uma personagem lembrar do dia do seu casamento, no momento em que ela se dirige ao tribunal para registrar os papéis do divórcio. Pássaros cantando alegremente em uma árvore ao lado de um personagem de luto pode soar como zombaria, e aprofundar a dor.

4. Dê cor às suas cenas

As cores podem ser utilizadas para causar um efeito poderoso. Cores diferentes têm significado psicológico forte, e os cineastas costumam usar cores muito deliberadamente. Vermelho sugere poder; rosa, fraqueza. Você pode "tingir" suas cenas com cor e aumentar o poder visual. A cor também pode acrescentar simbolismo a um objeto, ou ser um elemento temático recorrente.

Quer saber mais? Um ótimo livro para ler é If It’s Purple, Someone’s Gonna Die [Se for roxo, alguém vai morrer], de Patti Bellantoni.

5. Pense em ângulos de câmera

O ângulo de uma "tomada" também tem poderoso efeito psicológico. Uma câmera baixa olhando acima para um personagem sugere que ele é importante, ou arrogante, ou poderoso, ou superior. Uma câmera alta olhando para baixo sugere que alguém é fraco, ou inferior, ou oprimido, ou sem importância.

Se o seu personagem está em uma cena com outros e se sente superior, você pode colocá-lo numa posição elevada ou ser visto de baixo para enfatizar isso. Uma mulher que está sendo demitida pode estar sentada numa cadeira, com o chefe de pé numa posição mais alta que ela. Estes pequenos toques acrescentam força visual.

6. Inclua texturas e detalhes

Considere acrescentar textura. Muitas vezes, os romancistas colocam seus personagens em ambientes chatos, sem dizer onde eles estão, que época do ano é, ou como o clima está. Nós existimos em um mundo físico, e os filmes mostram cenários e paisagens em grande detalhe.

Acrescente textura à sua cena infundindo-a com as condições climáticas e os detalhes sensuais da área circundante. A sensação do ar do final do outono, no meio da noite, em Vermont, enquanto dois personagens caminham por um parque, é a textura que o leitor vai "sentir", se você trazê-la à vida em sua cena.

Romancistas que pensam como cineastas podem criar histórias incrivelmente visuais que vão permanecer por muito tempo após a última página ser lida. Passe algum tempo usando o olho de um cineasta para levar as suas cenas para o próximo nível, dando-lhes aparência dinâmica e detalhes sensoriais, bem como deliberadamente colocando personagens, cores e sons em suas cenas para o efeito psicológico alvejado.

Se quisermos tocar os leitores emocionalmente com nossas histórias, a melhor maneira é trazer o nosso romance à vida através do uso de técnicas cinematográficas.

Você já tentou usar estas técnicas cinematográficas para trazer a sua história à vida? Você pode pensar num romance que tenha lido que utilizou cores ou sons de uma forma simbólica significativa? Compartilhe nos comentários!

***

O Atlas Esmeralda  A Crônica do Fogo

Observação da tradutora:

Coloquei as capas dos livros acima apenas para ilustrar o fato de que muitos roteiristas estão migrando para o formato de livro. John Stephens, autor dessa trilogia chamada Livros do Princípio, é roteirista, diretor e produtor de televisão, autor de episódios de The O.C. e Gilmore Girls, e produtor-executivo da série Gossip Girl [currículo tirado da orelha dos livros]. Ocasionalmente, vou acrescentar outros exemplos de roteiristas que estão se dando bem no ramo literário. E vice-versa.

Uma ótima escrita pra você!

17/04/2015

Autores de Terror: Como Assustar Seus Leitores

Filed under: Escrita Literária — valeriaolivetti @ 17:00
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Este artigo é de autoria de Philip Athans e foi publicado originalmente no site The Write Life:

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Se você estiver escrevendo terror, fantasia sombria, mistério ou qualquer outra coisa que requeira suspense, um bom susto ou qualquer coisa que possa aterrorizar os seus leitores, você provavelmente já sabe que a palavra escrita pode enchê-lo de pavor, e até mesmo sobressaltar você. Esses sentimentos não estão reservados aos filmes.

Mas quanto estudo você dedicou ao modo como os seus autores de terror favoritos se empenharam para assustar você com a palavra escrita?

Filmes dependem de edição, de pistas de música, de performance, de efeitos especiais visuais e de maquiagem… todo um desfile de ferramentas cinematográficas. Mas em prosa, tudo o que nós temos com que trabalhar são palavras, e a imaginação dos nossos leitores. A boa notícia é que essas são ferramentas poderosas.

Embora você possa não ter muito controle sobre a imaginação de cada leitor, ou sobre a interpretação que ele fará de seu trabalho, as maneiras de organizar as palavras em frases e as sentenças em parágrafos podem ativar a psique dos seus leitores de formas que você pode não ter imaginado serem possíveis.

Tudo se resume à respiração

Mesmo quando lemos silenciosamente, nós tendemos a respirar acompanhando o que estamos lendo, como se estivéssemos lendo em voz alta. É impossível para nós desligarmos certas partes do nosso cérebro, e quando algo nos leva a começar a respirar de forma diferente, isso nos força a entrar em diferentes estados. Quando está num pânico cego, você tende a hiperventilar, respirando em arfadas rápidas e superficiais. Quando está nervoso ou ansioso com alguma coisa (a sensação de suspense), você tende a prender a respiração, e respirar mais devagar.

A boa notícia para os autores de terror e suspense é que esses processos também funcionam no sentido inverso. Se você puder forçar esse estado de respiração (ou, mais precisamente, uma versão menor, menos fisicamente traumática desse estado) em seus leitores, você vai provocar a resposta psicológica necessária.

Evocando suspense e ansiedade

Quando você está construindo suspense, evocando uma sensação de morte iminente ou o medo terrível do desconhecido, faça o seu leitor prender a respiração. Impeça-o de fazer sua próxima respiração por mais tempo do que o normal. E embora possa parecer impossível realizar isso com palavras em uma página, lembre-se do que eu disse sobre como nós inconscientemente respiramos como se estivéssemos lendo em voz alta, mesmo quando não estamos.

Uma das razões pelas quais as frases são finitas é que o ponto no final nos permite uma respiração. Os parágrafos nos dão uma chance de respirar mais fundo. Então, se você quiser que o seu leitor desacelere a respiração e comece a se sentir nervoso, ansioso ou com medo, mantenha suas frases longas, e seus parágrafos mais longos ainda.

Bem no início do clássico livro de Shirley Jackson, The Haunting of Hill House [N.T.: Editado no Brasil em 1983 com o título A Assombração da Casa da Colina pela Editora Francisco Alves, já esgotado] a protagonista, Eleanor, está a caminho de encontrar seus colegas investigadores paranormais em uma casa que é conhecida por ser assombrada. Embora animada por ser parte de algo potencialmente importante, e por ficar longe de sua vida monótona na cidade, Eleanor tem pavor do que vai encontrar lá, e não apenas por causa dos fantasmas, mas como resultado do que nós agora nos referimos como ansiedade social. Quanto mais perto da casa ela chega, mais ansiosa ela fica.

Jackson transmite essa ansiedade com um único parágrafo, em que Eleanor faz uma parada em uma pequena cidade ao longo do caminho e toma uma xícara de café. É uma cena inócua, mas contada num tenso POV [ponto de vista], é incrivelmente estressante. Este único parágrafo é composto por dez frases. A primeira dessas frases é a mais curta, com 28 palavras. A última é a mais longa, com 52 palavras. [N.T.: Contando as palavras do original, em inglês.]

Tente lembrar da última vez em que você leu, que dirá escreveu, uma frase que tivesse 52 palavras.

Ao final deste parágrafo monstro, Shirley Jackson deixou seus leitores com falta de ar, e ajudou a solidificar The Haunting of Hill House como um dos clássicos incontestáveis ​​do gênero.

Em outro clássico conto de casa mal-assombrada, Hell House [N.T.: Publicado no Brasil em 2009 com o título Hell House – A Casa Infernal pela Editora Novo Século, também já esgotado], o autor Richard Matheson evoca esse sentimento de pânico em uma cena de nove parágrafos, cada um com no máximo duas frases curtas. Leitores estão acostumados a fazer uma respiração completa depois de cada parágrafo, então as respirações virão rápidas e furiosas através de:

Ela parou com um sobressalto e olhou para a mesa espanhola.

O telefone estava tocando.

Não pode, ela pensou. Não tem funcionado em mais de trinta anos.

Ela não iria atender. Ela sabia quem era.

Ele continuou a tocar, os sons estridentes apunhalando os seus tímpanos, o seu cérebro.

Ela não deve atender. Ela não faria isso.

O telefone continuou tocando.

“Não”, ela disse.

Tocando. Tocando. Tocando. Tocando.

Eu sei — tecnicamente, este último parágrafo tem quatro frases, mas vamos considerar o empilhamento em staccato do “Tocando” como uma frase com respirações parciais entre cada palavra.

Em vez de um único parágrafo de dez frases, temos parágrafos de uma ou duas frases, com a frase/parágrafo mais longo contando com 14 palavras, ou precisamente metade do tamanho da frase mais curta de Shirley Jackson.

Após esta cena, há um par de parágrafos um pouco mais longos, conforme a protagonista tenta assumir o controle da situação, mas isso é rapidamente descartado por mais ataques de staccato sobre os sentidos. E, assim como The Haunting of Hill House , o sucesso contínuo de Hell House é a prova da sua eficácia.

Colocando esta técnica em prática

Essa ideia de controlar a respiração dos seus leitores não é tudo em escrita de terror, mas com alguma prática isso vai funcionar para você.

E estar ciente de quando usar melhor essa estratégia também irá evitar o uso excessivo dela; e faça a maior parte de sua prosa de forma legível, acessível e confortável — até que você queira que as coisas comecem a ficar assustadoras novamente.

Você escreve terror? Já experimentou esta técnica para controlar a respiração do seu leitor?

***

The Haunting of Hill House  Hell House  the-legend-of-hell-house-426197l

Observações da tradutora:

– O livro A Assombração da Casa da Colina, de Shirley Jackson, já está totalmente esgotado no Brasil (os dois únicos volumes disponíveis no site da Estante Virtual estão custando 110 e 120 reais, o que é um roubo). Porém, uma alma caridosa disponibilizou a obra em PDF. Já o livro Hell House – A Casa Infernal, de Richard Matheson, está custando R$ 59,90 na Estante Virtual, mas só tem uma cópia disponível. Eu não li o livro da Shirley Jackson, mas ouvi o audiobook de Hell House em inglês e o narrador conseguiu passar o suspense da obra (no caso de um audiolivro, o ritmo das frases vai depender primariamente (além da qualidade da escrita) da qualidade da direção e da narração. Alguns audiolivros que escutei tinham bons narradores, mas uma péssima direção, que claramente obrigou os leitores a acelerar a leitura (provavelmente para manter a duração total do áudio curta), o que afetou tremendamente o resultado final, pois uma leitura rápida acaba ficando superficial, deixando a desejar em entonação e ritmo (sem falar em interpretação teatral), o que empobrece a experiência de absorver a obra. Achei que a história prendeu a atenção do começo ao fim, sempre com aquela atmosfera enervante e angustiante de que as coisas podem piorar a qualquer instante. Leiam a resenha do Flávio Assunção Filho, ele resumiu bem os sentimentos que tive ao escutar esta obra. Vale a pena a leitura para quem gosta do gênero. Existe uma adaptação cinematográfica feita em 1973 chamada A Casa da Noite Eterna (The Legend of Hell House, no original), com o ótimo Roddy McDowall no elenco, mas pessoalmente eu achei o livro com mais suspense e terror (ao lermos uma obra minimamente bem escrita, as cenas que nossa imaginação cria são sempre mais vivas e impactantes do que qualquer imagem cinematográfica, por mais efeitos visuais e sonoros que tenha, por isso adaptar uma obra literária costuma ser tão complicado e gerar tantas polêmicas e ânimos exaltados dos fãs do livro).

Uma boa escrita e uma leitura aterrorizante pra você hoje! Smiley piscando Smiley de boca aberta

10/04/2015

5 Dicas de Escrita de Tana French

Filed under: Escrita Literária — valeriaolivetti @ 13:00
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Oi, pessoal! Depois de quase dois anos de afastamento, estou de volta! Infelizmente, não poderei publicar posts diariamente como antes, mas apenas um ou dois por semana. Entretanto, espero que esses poucos artigos sejam de alguma valia e que sirvam de inspiração.

Essas dicas da romancista Tana French foram tiradas do site Publishers Weekly (originalmente publicadas em 20/julho/2012):

Tana French

Eu ainda estou muito na fase aprendiz da escrita. Eu li em algum lugar que você precisa escrever um milhão de palavras antes que saiba o que está fazendo – então eu estou me dirigindo para lá, mas estou longe de chegar. Mas, se valem algo, aqui estão algumas das coisas que aprendi ao longo do caminho.

1. Está tudo bem em estragar tudo. Para mim, esta foi a grande revelação quando eu estava escrevendo o meu primeiro livro, No Bosque da Memória (In the Woods): Eu poderia fazê-lo errado quantas vezes eu precisasse. Eu vim do teatro, onde você precisa acertar todas as noites, porque aquele público provavelmente nunca vai ver o espetáculo de novo; levei um tempo para perceber que, até que o livro vá para a impressão, é ainda um ensaio, onde você pode tentar tudo o que você precisa experimentar. Se você reescrever um parágrafo cinquenta vezes e quarenta e nove delas são terríveis, tudo bem; você só precisa acertar uma vez.

2. Seu personagem tem sempre razão. Nenhuma pessoa de verdade acha que está sendo estúpida, ou equivocada, ou intolerante, ou má, ou simplesmente errada – então os seus personagens não podem achar isso, tampouco. Se você estiver escrevendo uma cena de um personagem com o qual você discorda em todos os sentidos, você ainda precisa mostrar como esse personagem está completamente justificado em sua própria mente, ou a cena vai dar a impressão de ser sobre as opiniões do autor, em vez de sobre o personagem. Você não pode fazer o julgamento de que seu personagem está errado; deixe os leitores fazerem isso por si mesmos.

3. Não há tal coisa como ‘homens’ ou ‘mulheres’. Há apenas o personagem individual que você está escrevendo. Um cara me mandou um email me perguntando como escrever mulheres, e eu não pude responder, porque eu não tinha ideia de que tipo de mulher que ele quis dizer: eu? Eleanor da Aquitânia? Lady Gaga? Se você está pensando em “homens” ou “mulheres” como um grupo monolítico definido principalmente por seu sexo, então você não está pensando deles como indivíduos; por isso, seu personagem não vai sair como um indivíduo, mas como uma coleção de estereótipos. Claro, existem diferenças entre homens e mulheres, em média – mas você está escrevendo um indivíduo, e não uma média. Se o seu personagem individual é tagarela ao telefone, ou se recusa a pedir informações de ruas, isso precisa ser por causa de quem ele ou ela é, e não por causa do que ele ou ela é. Escreva a pessoa, e não a genitália.

4. Mate a sequência de sonho. O meu marido, que é o meu primeiro leitor e que tem um olho demoníaco para desleixo, diz que uma sequência de sonho é quase sempre, ou uma repetição de algo que já foi feito dentro da ação, ou uma forma preguiçosa de fazer alguma coisa que deveria ser feita dentro da ação. Eu acho que ele me deixou escapar com um sonho em quatro livros. A essa altura, eu simplesmente nos poupo tempo e mato-os antes que ele chegue a eles. Você pode muito bem precisar escrever a sequência de sonho para ajudá-lo em direção a uma compreensão de algo no livro, mas é muito improvável que alguém precise ler.

5. Não tenha medo de ‘disse’. Os escritores às vezes vão à procura de alternativas, porque eles temem que ‘ele disse’ e ‘ela disse’ vai parecer repetitivo se forem usados ​​o tempo todo, mas eu juro, eles não vão. ‘Disse’ é o fechamento de um diálogo padrão; os leitores nem sequer notam-no, o olho apenas desliza sobre ele. Qualquer outra coisa, por outro lado, realmente se destaca. Eu li um livro onde os personagens nunca diziam nada; em vez disso, eles passaram todo o seu tempo grunhindo, e balindo, e silvando, e arrulhando, e rosnando, e chilreando e… Era como um zoológico lá dentro. Depois de um tempo, eu não estava nem assimilando o resto do livro, porque isso era tudo o que eu conseguia ver: os arremates dos diálogos. A menos que o seu personagem esteja realmente fazendo algo específico que se precise apontar – gritar a fala, digamos, ou sussurrá-la – é quase sempre uma boa ideia permanecer com ‘disse’.

No bosque da Memoria - Tana French  Dentro do espelho - Tana French  Porto Inseguro - Tana French  O Passado e um Lugar - Tana French

Observações da tradutora:

– Quanto à dica nº 5, considero-a válida, mas no Brasil costuma-se ensinar exatamente o oposto em livros e cursos de escrita criativa. Vários autores consideram pobre um texto com apenas “ele disse, ela disse” arrematando os diálogos. Creio que o segredo é não exagerar nem de um lado, nem de outro. Ultimamente, eu tenho feito uma experiência de leitura: eu ouço o audiolivro em inglês enquanto acompanho lendo o livro físico ou o ebook da mesma obra traduzida para o português. E acabei me surpreendendo com algumas coisas. O que mais se destacou foi exatamente esse aspecto dos fechamentos de diálogo. Nos livros clássicos, da chamada “Literatura” com L maiúsculo, os autores têm um vocabulário muito rico e variam muito nos verbos, e a tradução costuma ser bem fiel aos originais. Mas quanto aos recentes livros infanto-juvenis, e/ou para jovens adultos, os autores americanos costumam se ater demais ao “Fulano disse, Sicrano disse”, só que os tradutores brasileiros não seguem o original, eles mudam/adaptam os verbos de fechamento de diálogo da obra inteira. Exemplos de verbos utilizados no lugar de “dizer”: ironizar, explicar, sugerir, perguntar, sondar, instigar, contemporizar, interceder, complementar, interromper, apressar, exigir, criticar, se impressionar, se ofender, discordar, concordar, acrescentar, supor, implicar, provocar, entre tantos outros. Comparando os dois, eu acabei preferindo a adaptação brasileira, para mim o texto ficou mais rico e “colorido”. O estilo americano ganha pontos pela simplicidade, pois como a própria autora do artigo explicou, os excessos podem complicar a absorção do texto, mas eu achei que o estilo brasileiro envolve mais o leitor nas emoções dos personagens e no clima da cena em geral. É mais saboroso, se bem usado. Note que não coloquei nos exemplos acima nenhum verbo de reação física, pois a autora já tinha sugerido isso no texto: gritar, sussurrar, gemer, cantarolar, gaguejar, engasgar etc. Enfim, as possibilidades são múltiplas, e cada autor deve refletir bem na melhor solução para cada uma de suas obras.

Uma ótima escrita pra você hoje!

03/11/2013

A importância de roteiros não produzidos e livros não publicados

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 07:00
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Oi, pessoal! Hoje eu volto com a tradução que o nosso querido colega Diego Schutt fez de uma entrevista do Robert McKee. Aproveitem para ler os outros textos do blog do Diego, FICÇÃO EM TÓPICOS, tem muita coisa legal por lá.

Eis o link da entrevista:

http://ficcao.emtopicos.com/2013/10/roteiro-cinema-tv-robert-mckee/

robert_mckee

Trecho favorito do Diego (e meu também!):

Aquele roteiro não produzido ou livro não publicado traz um benefício enorme para o escritor porque você tem que falhar. Você tem que estar disposto a criar pelo menos 10 trabalhos completos de storytelling para aprender a dominar a [linguagem dessa arte] e crescer [como artista]. – Robert McKee 

Uma ótima escrita pra você hoje! =)

02/11/2013

Citação de Charlie Kaufman

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 11:00
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Oi, galera! Eu sei que ando negligenciando o blog de forma criminosa e imperdoável, mas juro que não foi intencional. Às vezes a vida puxa a gente pra outro lado e fica difícil recuperar os (bons) hábitos antigos. Mas para (re)começar, hoje estou de volta com esta citação foi enviada por nosso querido amigo Antunes e, como ele disse, isso vale para a vida! Obrigadão, Antunes! =)

C. Kaufman

“Eu não posso dizer a ninguém como escrever um roteiro, porque qualquer coisa de valor que você venha a fazer, virá de você. Como eu escrevo não é como você escreve e o propósito de qualquer ato criativo é este. O que eu tenho a oferecer, sou eu. O que você tem a oferecer, é você. E se você se oferecer com autenticidade e generosidade, eu irei me comover.”

Charlie Kaufman.

work-love-dance

TRABALHE – Como se não precisasse do dinheiro

AME – Como se nunca tivesse sido machucado

DANCE – Como se ninguém estivesse olhando

Uma boa escrita pra você hoje! =)

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